Além das semelhanças que apontamos em postagem anterior, o novo papa já nos leva a enumerar mais aspectos em comum entre ele e o papa João Paulo I (ago-set de 1978, apenas 33 dias como papa). João Paulo também foi um nome inédtio. João Paulo I também foi aclamado por sua humilde: aproveitar as batinas do antecessores, etc. E, como agora, João Paulo foi instado, inclusive pela imprensa, a "fazer algo" definitivo em relação ao Banco do Vaticano. Foi envenenado, segundo demonstra David Yallop, logo após ter comunicado a seu secretário de Estado que tomara a decisão de demitir o então presidente do Banco "IOR" (banco do Vaticano), Paul Marcinkus. Portanto, conhecer o melhor texto sobre os poucos dias de João Paulo I no trono é bastante oportuno. Do contrário, parecemos plenamente idiotas na esperança de que o papa Francisco vai fazer o que João Paulo I foi peremptoriamente impedido de tentar.
Nossa tradução, para o português do Brasil, do capítulo cinco (Os Trinta e Três Dias) do livro de David Yallop, In God's Name, an investigation into the murder of Pope John Paul I, está reproduzida abaixo, a partir de um arquivo .pdf. Por isso, aparecem os números 5/1, 5/2... até 5/114, que correspondem a cap. 5, p.1, etc., conforme a paginação do texto original da tradução.
O conteúdo revela o que foi um papa de fato humilde à frente de Igreja Católica, em setembro de 1978. Um pontificado de apenas 33 dias, que acabou com a morte repentina do papa que, como o atual, despontando de uma eleição surpreendente, foi acolhido de forma muito emocional.
Albino Luciani - o nome de João Paulo I - é mais um exemplo de vida. Ele se foi, o Banco do Vaticano continuou. Os escritos de Luciani não são lidos. Mas há os poucos que não perdem o curso da história - daquela história que, de fato, explica por que, católicos ou não, somos, quase todos, bem vaticanistas ao também adotarmos a estratégia de Lenin (1904): um passo à frente, dois para trás.
livro: Em Nome de Deus, esgotado no Brasil há mais de trinta anos.
David Yallop
capítulo 5
Os Trinta e Três Dias
Quando Albino Luciani abriu as janelas dos aposentos
papais, 24 horas depois de sua eleição, o gesto simbolizou
todo o seu pontificado. Ar fresco e raios de sol penetraram
por uma Igreja Católica que se tomara cada vez mais
escura e sombria durante os últimos anos de Paulo VI.
Luciani, que se descrevera com franqueza durante os seus
dias em Veneza – “Sou apenas um homem pobre,
acostumado às coisas pequenas e ao silêncio” –, via-se
agora obrigado a se confrontar com a grandeza do
Vaticano e as intrigas da Cúria. O filho de um pedreiro era
agora o Chefe Supremo de uma religião cujo fundador foi
o filho de um carpinteiro.
Muitos dos especialistas em Vaticano, que nem sequer
levaram em consideração a possibilidade de Luciani ser
eleito, aclamaram-no “o papa desconhecido”. Ele era
conhecido o bastante por 99 cardeais para que confiassem
5/1
o futuro da Igreja a ele – um homem sem treinamento
diplomático ou experiência curial. O considerável número
de outros cardeais da Cúria fora rejeitado. Em suma, toda
a Cúria fora rejeitada, em favor de um homem quieto e
humilde, que prontamente anunciou que preferia ser
chamado de pastor, em vez de pontífice. As aspirações de
Luciani logo se tomaram claras: uma revolução total.
Estava determinado a levar a Igreja de volta às suas
origens, de volta à simplicidade, honestidade, ideais e
aspirações de Jesus Cristo. Outros antes dele tiveram o
mesmo sonho, apenas para que a realidade impingida por
seus conselheiros acabasse prevalecendo. Como poderia
aquele homem pequeno e modesto realizar ao menos os
primórdios da transformação material e espiritual que
seria necessária?
Ao elegerem Albino Luciani, os cardeais fizeram diversas
declarações profundas sobre o que queriam e o que não
queriam. Claramente, não queriam um papa reacionário,
que deixasse sua marca no mundo com exemplos
desconcertantes de intelectualismo incompreensível.
Pareceria que haviam buscado causar um impacto no
mundo, ao elegerem um homem cuja bondade, sabedoria
e humildade exemplares seriam manifestadas a todos. E
foi justamente o que conseguiram. Um pastor empenhado
nos cuidados pastorais.
Seu novo nome foi considerado muito comprido pelos
romanos, que prontamente passaram a tratá-lo de forma
5/2
mais íntima como “Gianpaolo”, uma corruptela que o
papa aceitou alegremente e adotou para assinar cartas,
apenas para tê-las devolvidas pelo secretário de Estado,
Villot, a fim de serem corrigidas para o título formal. Uma
dessas cartas, escrita pessoalmente por Luciani, foi para
agradecer aos agostinianos pela hospitalidade antes do
conclave. Esse ato simples era-lhe típico. Dois dias depois
de eleito papa, tornando-se o líder espiritual de mais de
800 milhões de católicos, Luciani encontrava tempo para
agradecer a seus antigos anfitriões.
Outra carta, escrita no mesmo dia, era mais sombria.
Escrevendo a um padre italiano, cujo trabalho admirava,
Luciani revelou estar consciente do fardo que agora lhe
pertencia exclusivamente: “Não sei como pude aceitar. Já
estava arrependido no dia seguinte, mas era tarde demais”.
Um dos seus primeiros atos, ao entrar nos aposentos
papais, fora telefonar para sua terra natal no norte. Falou
com um atônito monsenhor Ducoli, um antigo amigo e
colega de trabalho, agora bispo de Belluno. Disse ao bispo
que sentia “saudade da minha gente”. Depois, falou com o
irmão, Edoardo: “Veja só o que me aconteceu”. Foram
atos particulares; outros, de natureza mais pública,
incitariam a imaginação do mundo.
Para começar, havia o seu sorriso. Somente com essa
expressão facial de alegria, ele comoveu milhões de
pessoas. Era impossível não simpatizar com o homem e
experimentar uma sensação agradável. Paulo VI, com sua
angústia, afastara milhões de pessoas. Albino Luciani
5/3
inverteu dramaticamente a tendência. Recuperou o
interesse do mundo pelo pontificado. E, quando o mundo
ouviu o que havia por trás daquele sorriso, o interesse
aumentou. O sorriso não pode ser encontrado em um livro
qualquer que alegue tornar o leitor um cristão melhor, mas
eficazmente projetava a alegria que aquele homem
descobrira no cristianismo. O que Luciani demonstrou,
numa extensão jamais conhecida antes num papa, foi a
capacidade de se comunicar, quer pessoalmente ou pelo
rádio, imprensa e televisão. Era um trunfo jamais sonhado
para a Igreja Católica.
Luciani era uma lição objetiva de como vencer a batalha
pelo coração, mente e alma da humanidade. Pela primeira
vez na memória viva, um papa falava a seu povo numa
maneira e estilo que todos podiam compreender. O
suspiro de alívio dos fiéis foi quase audível. Os
murmúrios de satisfação continuaram por todo o veranico
de 1978. Luciani começou a levar a Igreja pela longa
caminhada de volta ao Evangelho.
O público rapidamente transformou esse homem
carismático num tremendo sucesso. Os observadores do
Vaticano simplesmente não sabiam como analisá-lo.
Ofereceram opiniões imediatas e doutas sobre a escolha
do nome papal, falando em “continuidade simbólica”.
Luciani involuntariamente demoliu tudo isso no primeiro
domingo, ao dizer “João me fez um bispo, Paulo me fez
um cardeal”. Não havia ali muita continuidade simbólica.
Os especialistas escreveram artigos especulativos sobre o
5/4
que o novo papa poderia fazer ou deixar de fazer nas mais
variadas questões. Uma parcela considerável dessas
especulações se tornara supérflua por um comentário do
papa João Paulo, em seu primeiro discurso:
— Desejo dedicar ao Concílio Vaticano Segundo meu
total ministério, como padre, como mestre, como pastor...
Não havia mais necessidade de especular; bastava
consultar as diversas resoluções do concílio.
No domingo, 10 de setembro, perante uma Praça de São
Pedro apinhada, Luciani falou em Deus e disse:
— Ele é nosso Pai; mais do que isso, é nossa Mãe.
Os especialistas italianos do Vaticano, em particular,
ficaram frenéticos. Num país notório por seu machismo,
sugerir que Deus era uma mulher foi julgado por alguns
como a confirmação do fim do mundo. Houve muitos
debates ansiosos sobre esse quarto membro da Trindade
até que Luciani, gentilmente, informou que citara Isaías.
A Mãe Igreja, dominada pelos homens, sossegou.
Antes, em 6 de setembro, durante uma Audiência Geral,
membros do círculo papal, agitando-se em torno do Santo
padre de uma maneira que lembrava moscas irritantes ao
redor de um cavalo, exibiram publicamente o seu
embaraço, enquanto Luciani mantinha 15 mil pessoas
completamente fascinadas. Entrando quase a correr no
5/5
Salão Nervi, inteiramente lotado, ele falou sobre a alma.
Não havia nada de extraordinário nisso. Excepcionais
foram apenas a maneira e o estilo:
- Um homem foi comprar um carro novo na
revendedora. O vendedor deu-lhe alguns
conselhos: “É um carro excelente, mas deve
tratá-lo corretamente. Ponha a melhor
gasolina no tanque, o melhor óleo no motor”.
Ao que o cliente respondeu: “É impossível.
Não suporto o cheiro de gasolina e óleo.
Encherei o tanque com champanha, que me
agrada muito mais, farei a lubrificação com
geléia”. O vendedor deu de ombros. “Faça
como quiser, mas depois não venha se queixar
se terminar numa vala com o carro. O Senhor
fez uma coisa similar conosco: deu-nos este
corpo, animado por uma alma inteligente, uma
boa vontade. Disse que esta máquina é boa,
mas deve ser bem tratada.
Enquanto a elite do Vaticano estremecia por tal
profanidade, Albino Luciani sabia perfeitamente que suas
palavras eram transmitidas ao mundo inteiro. Espalhe
bastantes sementes, algumas germinarão. Ele fora
presenteado com o mais poderoso púlpito da terra. O uso
que fez dessa dádiva foi profundamente comovente.
Muitos na Igreja falam ad nauseam das “boas novas do
Evangelho”, enquanto dão a impressão de que comunicam
aos ouvintes desastres absolutos. Quando Luciani falava
5/6
em boas novas, era evidente, por toda a sua atitude, que se
tratava mesmo de boas novas.
Em diversas ocasiões, Luciani tirou um menino do coro
para partilhar o microfone com ele, ajudando-o não
apenas com a audiência dentro do Salão Nervi. mas
também com a audiência mais vasta lá fora. Outros líderes
mundiais eram propensos a pegar crianças no colo e beijálas.
Mas ali estava um homem que falava com as crianças
e, o que era ainda mais extraordinário, ouvia e respondia
ao que tinham a dizer.
Ele citava Mark Twain, Jules Verne e o poeta italiano
Trissula. Falava de Pinóquio. Já tendo comparado a alma
a um carro, fez então uma analogia entre a oração e o
sabonete.
- A oração bem usada seria um sabonete maravilhoso,
capaz de transformar todos nós em santos. Não somos
todos santos porque não temos usado esse sabonete o
suficiente.
A Cúria estremecia, em especial determinados bispos e
cardeais. O público escutava.
Poucos dias depois da eleição, ele enfrentou mais de mil
representantes da imprensa internacional. Censurou-os de
maneira gentil por se concentrarem excessivamente nos
aspectos triviais do conclave e não no seu verdadeiro
significado, mas reconheceu que o problema deles não era
novo e recordou o conselho que um editor italiano dera a
5/7
um de seus repórteres:
- Lembre-se de que o público não quer saber o que
Napoleão III disse a Guilherme da Prússia. Quer saber se
ele usava calça bege ou vermelha e se fumava um
charuto.
Luciani obviamente sentia-se à vontade com os repórteres.
Comentara mais de uma vez, ao longo de sua vida, que
teria sido jornalista se não fosse um padre. Seus dois
livros e numerosos artigos indicam um talento que poderia
se comparar ao de muitos correspondentes presentes.
Recordando o comentário do falecido cardeal Mercier –
de que o apóstolo Paulo seria um jornalista se estivesse
vivo hoje –, o novo papa demonstrou uma profunda
compreensão da importância dos diversos meios de
comunicação na ampliação do possível papel moderno do
apóstolo:
— Não apenas um jornalista. Possivelmente chefe da
Reuters. Não apenas chefe da Reuters, acho que ele
pediria tempo no ar na televisão italiana e na NBC.
Os correspondentes adoraram. A Cúria não achou muito
engraçado. Todos os comentários acima referidos foram
omitidos da transcrição oficial do discurso. O que
permanece para a posteridade é um discurso insípido
preparado de antemão, escrito por autoridades do
Vaticano, do qual o papa se afastou muitas vezes; um
testemunho mudo e inexato do espírito e personalidade de
5/8
Albino Luciani. Essa censura do Vaticano ao papa tornouse
um fato constante durante o mês de setembro de 1978.
A coletânea de cartas literárias de Luciani,
imaginativamente endereçadas a personalidades, era
encontrada em forma de livro na Itália desde 1976. Foi
um grande sucesso. Agora, com seu autor transformado
no líder de 800 milhões de católicos, o potencial
comercial não passou despercebido ao mundo editorial.
Executivos começaram a aparecer nos escritórios de Il
Messaggero, em Pádua. Esse mensário católico estava
“sentado” numa mina de ouro, descontados os royalties
do autor. Para o autor, a verdadeira recompensa era saber
que as idéias e comentários das cartas seriam lidos por
uma audiência mundial. O fato de que só seriam lidos
porque ele se tornara papa não tinha a menor importância
para Luciani. Mais sementes eram espalhadas. Mais
germinariam.
Um dos melhores resultados da eleição do novo papa, que
se tornou patente nos dias subseqüentes ao conclave, foi
que os intérpretes, observadores, especialistas e analistas
do Vaticano se tornaram dispensáveis. Só era necessária
uma reprodução literal das palavras de Luciani. Havendo
isso, as intenções do novo papa mostravam-se bastante
claras.
Em 28 de agosto, foi anunciado o início de sua revolução
papal. Assumiu a forma de uma declaração do Vaticano
de que não haveria coroação, pois o novo papa se
5/9
recusava a ser coroado. Não haveria a sedia gestatoria, a
cadeira em que se carregava o papa; não haveria tiara
cravejada de esmeraldas, rubis, safiras e diamantes. Não
haveria penas de avestruz; não haveria a cerimônia de seis
horas. Em suma, foi abolido o ritual com que a Igreja
demonstrava que ainda ansiava pelo poder temporal.
Albino Luciani foi obrigado a se empenhar numa longa e
tediosa discussão com os tradicionalistas do Vaticano,
antes que sua vontade prevalecesse. Luciani, que jamais
usou o pomposo “nós”, a primeira pessoa do plural
monárquica, decidira que o pontificado imperial, com
suas ostentações de grandeza temporal, seria substituído
por uma Igreja que mais se assemelhasse aos conceitos de
seu fundador. A coroação converteu-se numa missa
simples. O absurdo de transportar o pontífice a balançar
numa cadeira, como um califa das Mil e Uma Noites, foi
suplantado por um pastor supremo, subindo calmamente
os degraus do altar. Com esse gesto, Luciani aboliu mil
anos de história e fez a Igreja voltar-se mais um pouco
para o caminho de Jesus Cristo.
A tiara de pedras preciosas foi substituída pelo pálio, uma
estola branca de lã sobre os ombros do papa. O monarca
dera passagem ao pastor. A era da Igreja pobre começara
oficialmente.
Entre os 12 chefes de Estado – e outros representantes de
dezenas de países –, havia aqueles a quem o papa
preferiria evitar. Em particular, pedira à sua Secretaria de
Estado que não convidasse os líderes da Argentina, Chile
5/10
e Paraguai para a sua missa inaugural. Mas o
departamento do cardeal Villot já expedira os convites,
sem antes consultar Albino Luciani. Presumiram que
haveria a coroação tradicional, e a lista de convidados
refletia tal suposição.
Conseqüentemente, participaram da missa na Praça de
São Pedro o general Videla, da Argentina, o ministro do
exterior chileno e o filho do presidente do Paraguai,
representantes de países em que os direitos humanos não
eram considerados prioridades. Manifestantes italianos
protestaram contra a presença deles e houve quase 300
prisões. Posteriormente, Albino Luciani seria criticado
pela presença desses homens na missa. Os críticos não
sabiam que toda a culpa deveria ser atribuída ao cardeal
Villot. Quando os comentários de censura apareceram,
Luciani não estava em condições de responder e Villot se
manteve em silêncio.
Na audiência particular que se seguiu à missa, Luciani, o
filho de um socialista que abominava todos os aspectos do
fascismo, não deixou nenhuma dúvida ao general Videla
de que herdara as opiniões do pai. Falou especialmente de
sua preocupação com “Los Desaparecidos”, os milhares
de pessoas que sumiram misteriosamente do território
argentino. Ao final da audiência de 15 minutos, o general
já desejava ter atendido às pressões de última hora, de
emissários do Vaticano, para que não fosse a Roma.
A audiência com o vice-presidente Mondale, dos Estados
5/11
Unidos, foi um encontro mais agradável. Mondale
entregou ao novo papa um livro contendo a primeira
página de mais de 50 jornais americanos, noticiando a
eleição de Luciani. Um presente mais singular foi uma
primeira edição do livro Vida no Mississippi, de Mark
Twain. Era evidente que alguém no Departamento de
Estado americano trabalhara bem.
Assim começou o pontificado de João Paulo I, com
objetivos e aspirações definidos. Antes da missa
inaugural, ele falara ao Corpo Diplomático credenciado
no Vaticano. Sua própria equipe diplomática empalideceu
visivelmente quando ele comentou, em nome de toda a
Igreja Católica:
- Não temos bens temporais para trocar, não temos
interesses econômicos a discutir. Nossas possibilidades
de intervenção são específicas e limitadas, de um caráter
especial. Não interferem com os assuntos puramente
temporais, técnicos e políticos, que são problemas de
seus governos. Assim, nossas missões diplomáticas junto
às suas mais altas autoridades civis, longe de serem uma
sobrevivência do passado, constituem um testemunho do
nosso profundo respeito pelo poder temporal legítimo e
do nosso intenso interesse pelas causas humanas que esse
poder temporal deve promover.
“Não temos bens temporais para trocar...” Era uma
sentença pública de morte à Vaticano S.A. Tudo o que
restava indefinido era o número de dias e meses em que
5/12
continuaria a funcionar. Os homens dos mercados
financeiros internacionais, em Milão, Londres, Tóquio e
Nova York, analisaram com o maior interesse as palavras
de Luciani. Se ele realmente falava a sério, então haveria
muitas mudanças. Tais mudanças não se limitariam ao
movimento de pessoas deixando o Banco do Vaticano e a
APSA mas, inevitavelmente, incluiria uma drástica
redução das atividades da Vaticano S.A. Os agentes dos
mercados financeiros internacionais poderiam ganhar
bilhões se adivinhassem o rumo pelo qual enveredaria
essa nova filosofia do Vaticano. Albino Luciani queria
uma Igreja pobre para os pobres. O que ele planejava
fazer com os que haviam criado uma Igreja rica? O que
planejava fazer com a riqueza?
A humildade de Luciani foi responsável pelo nascimento
de diversas concepções errôneas. Muitos observadores
concluíram que esse homem, obviamente santo, era
simples e sem complexidade alguma, carecendo dos
talentos culturais de seu antecessor, Paulo VI. A realidade
era que Luciani possuía uma cultura muito mais rica e
uma sofisticação muito maior do que Paulo. Seus talentos
eram tão excepcionais que esse homem extraordinário
podia parecer completamente plebeu. Tinha a
simplicidade que só é adquirida por uns poucos, a
simplicidade que deriva de uma profunda sabedoria.
Uma das peculiaridades de nossa época é que a
humildade e gentileza são sempre encaradas como
indicadores de alguma espécie de fraqueza. Muitas
5/13
vezes, indicam justamente o oposto – uma grande
força.
Quando o novo papa comentou que andara folheando o
Anuário do Vaticano para descobrir quem fazia o que,
muitos na Cúria sorriram e concluíram que ele seria
facilmente manobrável, alguém que não teriam a menor
dificuldade para controlar. Havia outros que sabiam que
não era bem assim.
Os que conheciam Albino Luciani há muitos anos
observavam e esperavam. Conheciam a recôndita fibra, a
força para tomar decisões difíceis ou impopulares. Muitos
me falaram desses atributos ocultos. Monsenhor Tiziano
Scalzotto, padre Mario Senigaglia, monsenhor Da Rif,
padre Bartolomeo Sorge e padre Busa são apenas cinco
dos muitos que me falaram sobre a força interior do Papa
João Paulo I. O padre Busa comentou:
- Sua mente era tão forte, tão sólida e tão contundente
quanto um diamante. Era lá que estava o seu poder real.
Compreendia e possuía a capacidade de chegar ao cerne
de um problema. Não podia ser sufocado. Enquanto todos
aplaudiam o papa risonho, eu esperava que ele tirare
fuori le unghie – revelasse as suas garras. Era uma
pessoa de tremendo poder.
Sem um grupo com ligação estreita com ele, já que
nenhuma “Máfia” veneziana substituiu a turma de Milão
5/14
nos aposentos papais, Albino Luciani precisaria de toda a
sua força interior se quisesse evitar se tornar o prisioneiro
da Cúria do Vaticano.
Nos primeiros dias depois do conclave, a máquina
governamental do Vaticano não se manteve ociosa. No
domingo, 27 de agosto, após seu discurso do meio-dia à
multidão, Luciani almoçou com o cardeal Jean Villot.
Como secretário de Estado de Paulo VI desde abril de
1969, Villot construiu uma reputação de serena
competência. Durante o conclave, Villot, como
camerlengo, atuou praticamente como substituto do papa,
ajudado pelos comitês de cardeais. Luciani pediu a Villot
que continuasse como secretário de Estado por “mais um
pouco, até que eu encontre meu caminho”. Villot, aos 73
anos de idade, esperava o momento de aposentar-se.
Luciani nomeou Villot para seu secretário de Estado e
confirmou todos os chefes curiais em seu cargos
anteriores. Mas a Cúria sabia perfeitamente que era
apenas uma medida temporária. Sempre agindo como o
homem prudente das montanhas, o novo papa queria
ganhar mais algum tempo. “Deliberação. Decisão.
Execução”: se a Cúria queria saber como agiria o novo
papa, bastava ler sua “Carta a São Bernardo”. Muitos o
fizeram. E também efetuaram uma pesquisa mais
aprofundada sobre o Papa João Paulo I. O que
descobriram causou consternação em diversos setores do
Vaticano e, em outros, um grande prazer e expectativa.
A morte do papa Paulo VI fizera aflorar muitas
5/15
hostilidades existentes na aldeia do Vaticano. A Cúria
Romana, o corpo administrativo central da Igreja, vinha se
consumindo numa guerra interna há vários anos. Somente
a habilidade de Paulo pôde evitar que a maioria das
batalhas chegasse ao conhecimento público. Agora,
depois de sua rejeição no conclave, a Cúria em guerra
alcançou os aposentos papaís. Albino Luciani queixou-se
amargamente da situação a alguns amigos que foram
visitá-lo:
— Quero aprender depressa o ofício de papa, mas quase
ninguém explica problemas e situações de uma maneira
meticulosa e imparcial. Passo a maior parte do tempo a
escutar comentários desfavoráveis sobre tudo e sobre
todos.
A outro amigo do norte, ele disse:
— Já notei que há duas coisas que parecem estar em
escassez no Vaticano: honestidade e uma boa xícara de
café.
Havia tantas facções curiais quanto garotos no coro da
Capela Sistina. Havia a Cúria do papa Paulo VI,
totalmente empenhada em garantir não apenas que a
memória do falecido papa fosse continuamente
homenageada, mas também que não houvesse desvio
algum de suas opiniões e pronunciamentos.
Havia a Cúria que era favorável ao cardeal Giovanni
5/16
Benelli e a Cúria que desejava vê-lo no inferno. O Papa
Paulo VI elevara Benelli a subsecretário de Estado, o
segundo homem depois do cardeal Villot. Ele se tornara
rapidamente o homem forte do papa, assegurando o
cumprimento de sua política. Paulo o transferiu para
Florença e o promoveu, a fim de protegê-lo durante os
seus últimos anos. Agora, seu protetor estava morto, mas
os punhais afiados permaneciam desembainhados. Luciani
era papa por causa de homens como Benelli.
Havia facções curiais que favoreciam os cardeais Baggio,
Felici e Bertoli e outras que se opunham a eles. Havia
facções que queriam mais poder central e controle, outras
que queriam menos.
Durante toda a sua vida, Albino Luciani evitara as visitas
ao Vaticano. Reduzira seus contatos com a Cúria Romana
ao mínimo. Em decorrência, antes de sua eleição, tinha,
provavelmente, menos inimigos na Cúria do que qualquer
outro cardeal. Mas era uma situação que mudaria
rapidamente. Ali estava um papa que considerava a “mera
execução” como a função básica da Cúria. Ele acreditava
numa maior divisão do poder com os bispos do mundo
inteiro e planejava descentralizar a estrutura do Vaticano.
Recusando-se a ser coroado, ele contrariara os
tradicionalistas. Outra inovação que não podia granjear
para Luciani a estima dos membros da Cúria de
mentalidade materialista foi a sua instrução para que o
salário extra, que automaticamente se pagava por ocasião
da eleição de um novo papa, fosse reduzido à metade.
5/17
É claro que havia muitos entre os três mil membros da
Cúria que lealmente serviriam e amariam o novo papa
mas, neste mundo, as forças negativas muitas vezes
predominam. Assim que o resultado da eleição foi
conhecido, a Cúria ou determinados setores dela entraram
em ação. Em poucas horas, uma edição especial de
L'Osservatore Romano estava nas ruas, com uma
biografia completa do novo papa. A Rádio Vaticano já
estava transmitindo detalhes similares.
Como uma ilustração da melhor maneira de influenciar o
pensamento do mundo sobre um líder de Estado até então
desconhecido, o tratamento que L'Osservatore Romano
dispensou a Albino Luciani é definitivo. Deliberadamente,
aquele jornal referiu-se a uma pessoa que só existia na
mente reacionária e opressiva de quem atribuiu certos
detalhes biográficos a Luciani. Tal edição em particular
de L'Osservatore Romano também nos dá idéia do motivo
pelo qual o jomal semi-oficial do Vaticano tem sido
comparado negativamente ao Pravda. Aproveitando os
“fatos oficiais”, muitos jornalistas, pressionados por
prazos improrrogáveis, elaboraram descrições de um
homem que não existia. The Economist, para citar apenas
um entre centenas de exemplos, disse o seguinte a respeito
do novo papa: “Ele não se sentiria muito à vontade em
companhia do Dr. Hans Kung”. No entanto, uma pesquisa
revelaria que Luciani e Hans Kung mantinham uma
correspondência cordial e freqüentemente enviavam livros
um ao outro. Pesquisa adicional mostraria que Luciani,
5/18
muitas vezes, citara Kung favoravelmente em seus
sermões. Praticamente todos os jornais e revistas do
mundo que publicaram perfis do novo papa cometeram
erros similares.
Ler a edição especial de L'Osservatore Romano era ter
notícias de um novo papa que seria ainda mais
conservador do que Paulo VI. A distorção se estendia por
diversas opiniões sobre Luciani, mas uma, em particular,
é extremamente relevante quando se considera a vida e a
morte de Albino Luciani: a que envolve o controle da
natalidade. O jornal do Vaticano falou de Luciani como se
fosse um intrépido e incondicional partidário da Humanae
Vitae1:
Ele efetuou um estudo meticuloso da questão
da paternidade responsável, consultou
especialistas médicos e teólogos. Alertou para
a grande responsabilidade da Igreja ao se
pronunciar sobre uma questão tão delicada e
controvertida.
Isso era exato e verdadeiro. O que vem depois é que era
completamente incorreto:
Com a publicação da encíclica Humanae
Vitae, não podia mais haver margem para
dúvidas. O bispo de Vittorio Veneto foi um dos
1 Encíclica do Papa Paulo VI, promulgada em julho de 1968, que
condena o controle artificial de natalidade.
5/19
primeiros a divulgá-la e a insistir, aos que
estavam confusos com o documento, que seus
ensinamentos eram incontestáveis .
Quando a Cúria entra em ação, é uma máquina
formidável. Sua eficiência e rapidez deixariam atordoados
outros serviços civis. Homens da Cúria Romana
apareceram no Colégio Gregoriano e removeram de lá
todos os estudos e documentos referentes ao período de
pesquisas de Luciani. Outros membros da Cúria foram a
Veneza, Vittorio Veneto, Belluno. Onde quer que Luciani
estivera, a Cúria ia até lá. Todas as cópias do documento
de Luciani sobre o controle da natalidade foram
confiscadas e imediatamente guardadas nos Arquivos
Secretos do Vaticano, juntamente com sua tese sobre
Rosmini e diversos outros escritos. Pode-se dizer que o
processo de beatificação de Albino Luciani começou no
dia em que ele foi eleito papa. Seria igualmente correto
afirmar que o trabalho da Cúria para encobrir o verdadeiro
Albino Luciani começou no mesmo dia.
O que determinados setores da Cúria compreenderam,
com um profundo choque, foi que, ao elegerem Albino
Luciani, os cardeais haviam-lhes dado um homem que
não deixaria a questão do controle da natalidade ser
encerrada pela Humanae Vitae. Um estudo cuidadoso, por
membros da Cúria, sobre o que Luciani dissera, não
apenas a seus paroquianos em público, mas também a
seus amigos e colegas em particular, prontamente indicou
que o novo papa era favorável ao controle artificial da
5/20
natalidade. O quadro impreciso, falso, que L'Osservatore
Romano pintara de um homem que aplicava
rigorosamente os princípios da Humanae Vitae foi o tiro
inicial, num contra-ataque destinado a conter Albino
Luciani nos limites da encíclica de seu antecessor. Tiro
aquele rapidamente seguido por outra rajada.
A agência noticiosa UPI descobriu que Luciani fora a
favor de uma decisão do Vaticano que permitisse o
controle artificial da natalidade. Os jornais italianos
também divulgaram matérias sobre o documento de
Luciani encaminhado ao papa Paulo pelo cardeal Urbani,
de Veneza, com uma recomendação favorável à pílula
anticoncepcional. A Cúria apressadamente localizou o
padre Henri de Riedmatten, que foi o secretário da
Comissão papal de Controle da Natalidade. Ele alegou
que relatórios apontando que Luciani se opusera a uma
encíclica que condenasse o controle artificial da
natalidade não passariam de uma “fantasia”. Riedmatten
também informou que Luciani nunca fora membro da
comissão, o que era verdadeiro. Depois negou que Luciani
houvesse algum dia escrito uma carta ou relatório sobre o
assunto, enviado ao papa Paulo.
Essa negativa, e a maneira como foi apresentada, é um
exemplo da duplicidade que predomina na Cúria. O
documento de Luciani chegou a Roma por intermédio do
cardeal Urbani e, portanto, com a sua aprovação. Negar
que existisse um documento assinado por Luciani era
tecnicamente correto. Negar que Luciani, em nome dos
5/21
outros bispos da região do Veneto, tivesse encaminhado
tal documento ao papa era uma mentira iníqua.
Ironicamente, nas três primeiras semanas de seu
pontificado, Albino Luciani já dera os primeiros passos
significativos para inverter a posição da Igreja Católica na
questão do controle artificial da natalidade. Enquanto
essas providências eram tomadas, a imprensa
internacional permanecia na ignorância, por cortesia de
L'Osservatore Romano e da Rádio do Vaticano,
controlados por determinados membros da Cúria Romana,
que já emitira uma avaliação inteiramente falsa das
opiniões de Albino Luciani.
Durante o seu pontificado, Luciani citou diversos
pronunciamentos e encíclicas do papa Paulo VI. Mas,
expressivamente, não houve nenhuma referência à
Humanae Vitae. Os defensores dessa encíclica foram
alertados para as opiniões do novo papa quando
souberam, consternados, que o discurso de posse do
sucessor de Paulo, preparado pela Secretaria de Estado e
contendo referências candentes à Humanae Vitae, foi
alterado por Luciani, que suprimiu tais referências. A
facção anti-controle-da-natalidade dentro do Vaticano
descobriu, em seguida, que, em maio de 1978, Albino
Luciani foi convidado a comparecer e falar num
congresso internacional realizado em Milão, de 21 a 22 de
junho. O objetivo principal do congresso era celebrar o
10º aniversário da encíclica Humanae Vitae. Luciani
respondeu que não falaria no congresso e também não
5/22
compareceria. Entre os que compareceram e falaram, em
louvor à Humanae Vitae, estava o cardeal polonês Karol
Wojtyla.
Agora, em setembro, enquanto a imprensa mundial
fielmente repetia as mentiras de L'Osservatore Romano,
Albino Luciani foi ouvido nos aposentos papais a dizer a
seu secretário de Estado, cardeal Villot:
— Terei o maior prazer em falar com essa delegação dos
Estados Unidos sobre a questão. Na minha opinião, não
podemos deixar a situação como está.
A “questão” era a população mundial. A “situação” era a
Humanae Vitae. A conversa continuou e Villot ouviu o
Papa João Paulo I manifestar uma opinião que muitos
outros, inclusive o secretário particular dele, padre Diego
Lorenzi, já tinham ouvido várias vezes. O padre Lorenzi é
somente um dos muitos que foram capazes de reproduzir
para mim as palavras exatas de Luciani:
- Estou a par do período de ovulação de uma mulher,
com seu âmbito de fertilidade de 24 a 36 horas. Mesmo
que se admita uma vida de 48 horas para o
espermatozóide, o tempo máximo de concepção possível é
inferior a quatro dias. Num ciclo regular, isso significa
quatro dias de fertilidade e 24 dias de infertilidade. Como
pode ser um pecado falar em 28 em vez de 24 dias?
5/23
O que provocara essa conversa realmente histórica foi um
contato da embaixada americana em Roma com o
Vaticano, após instruída pelo Departamento de Estado
americano e procurada pelo congressista James Scheuer.
O congressista presidia o Comitê sobre População da
Câmara dos Representantes e era, também, vicepresidente
do fundo da ONU para pesquisas sobre
população. A história do documento de Luciani ao papa
Paulo VI sobre o controle da natalidade alertara Scheuer e
seu comitê para a possibilidade de mudança na posição da
Igreja. Scheuer achava que era improvável que seu grupo
obtivesse uma audiência com Luciani logo depois da
eleição, mas concluiu que valia a pena a tentativa de
pressionar o Vaticano através do Departamento de Estado
e da embaixada americana em Roma. E Scheuer ouviria
boas notícias.
Villot, como muitos que cercavam Luciani, encontrava
uma considerável dificuldade para se ajustar ao novo
pontificado. Nomeado por Paulo VI, ele desenvolvera ao
longo dos anos um íntimo relacionamento de trabalho
com o falecido papa. Aprendera a admirar o estilo
Montini. Agora, o Hamlet cansado do mundo, de 81 anos,
fora substituído por um otimista Henrique VI que, aos 65
anos, era relativamente um rapaz.
O relacionamento entre Luciani e seu secretário de Estado
era bastante desconfortável. O novo papa achava Villot
frio e distante, sempre comentando o que Paulo VI diria a
respeito dessa questão, ou como Paulo VI trataria aquele
5/24
problema. Paulo VI estava morto, mas era evidente que
Villot e uma parcela significativa da Cúria não haviam
aceitado esse fato, e que o estilo Montini de resolver
problemas morrera com ele.
O discurso que o novo papa pronunciara, 24 horas depois
do conclave, fora de caráter geral. O verdadeiro programa
começou a ser formulado somente durante os primeiros
dias de setembro de 1978. Foi desencadeado com a
inspiração dos primeiros 100 dias do papa João XXIII.
João foi eleito papa em 28 de outubro de 1958. Nos
primeiros 100 dias, efetuara diversas nomeações cruciais,
inclusive a do cardeal Domenico Tardini para a Secretaria
de Estado, um posto que se achava vago desde 1944. O
mais importante foi a sua decisão de convocar o Concílio
Vaticano Segundo. Essa decisão tornou-se pública em 25
de janeiro de 1959, 89 dias depois da eleição.
Agora, quem usava as sandálias do pescador, Albino
Luciani, estava determinado a seguir o exemplo de João,
dos 100 dias revolucionários. No alto de sua lista de
prioridades de reformas e mudanças estava a necessidade
de alterar radicalmente o relacionamento do Vaticano com
o capitalismo e o desejo de mitigar os sofrimentos que
testemunhara pessoalmente e que derivavam diretamente
da Humanae Vitae.
De acordo com o cardeal Benelli, o cardeal Felici e outras
fontes do Vaticano, o austero cardeal Villot ficou ouvindo
5/25
contrariado, enquanto o novo papa discorria sobre os
problemas que a encíclica causara.
Poucos meses antes, Villot louvara a encíclica, no 10º
aniversário de sua publicação. Numa carta ao arcebispo
John Quinn, de São Francisco, Villot reafirmara a
oposição de Paulo à anticoncepção artificial. O secretário
de Estado ressaltara como Paulo considerava importante
esse ensinamento e que ele estava “de acordo com a Lei
de Deus”.
Houve muito mais, no mesmo espírito. Agora, menos de
dois meses depois, era obrigado a ouvir o sucessor de
Paulo adotar uma posição oposta.. O café esfriou,
enquanto Luciani se levantava e andava de um lado para o
outro no gabinete, falando sobre alguns efeitos que a
Humanae Vitae produzira durante a última década.
A encíclica que fora projetada para reforçar a autoridade
papal, negando que pudesse haver alguma mudança no
ensinamento tradicional sobre o controle da natalidade,
tivera justamente o efeito oposto. As evidências eram
irrefutáveis. Na Bélgica, Holanda, Alemanha, Inglaterra,
Estados Unidos e muitos outros países não apenas houve
uma acentuada oposição à encíclica, mas também uma
desobediência ostensiva. Logo surgiu a máxima de que,
se um padre não adotasse uma posição tolerante no
confessionário, o pecador procuraria um padre mais
liberal. Luciani citou exemplos dessa contradição, que
conheceu diretamente, na região do Veneto.
5/26
A teoria da Humanae Vitae podia parecer um ponto de
vista moral ideal quando proclamada do interior do reduto
exclusivamente masculino do Vaticano. A realidade que
Luciani observara no norte da Itália e no exterior
demonstrava claramente a desumanidade da encíclica.
Naquela década, a população mundial aumentara em mais
de três quartos de um bilhão.
Quando Villot objetou que o papa Paulo ressaltara as
virtudes do método anticoncepcional natural, Luciani
limitou-se a sorrir. Mas não era o sorriso cheio e radiante
que o público conhecia, antes um meio sorriso triste.
— Eminência, o que nós, velhos celibatários, sabemos
realmente sobre os desejos sexuais das pessoas casadas?
Essa conversa, a primeira de muitas que o papa teve com
seu secretário de Estado sobre o assunto, ocorreu no
gabinete dos aposentos papais, na terça-feira, 19 de
setembro. Eles discutiram o problema por quase 45
minutos. Quando Villot estava-se retirando, após a
reunião ter terminado, Luciani acompanhou-o até a porta
e acrescentou:
- Eminência, conversamos sobre o controle da natalidade
durante cerca de 45 minutos. Se as informações forem
corretas, se as estatísticas forem precisas, então no
período de nossa conversa mais de mil crianças com
5/27
menos de cinco anos de idade morreram de desnutrição.
Durante os próximos 45 minutos, enquanto nós dois
aguardamos com expectativa a nossa próxima refeição,
outras mil crianças morrerão de desnutrição. Amanhã, a
esta hora, 30 mil crianças que se encontram vivas neste
momento estarão mortas de desnutrição. Deus nem
sempre provê.
O secretário de Estado do Vaticano não foi capaz de
encontrar uma resposta adequada.
Todos os detalhes da possível audiência com uma
delegação dos Estados Unidos sobre população mundial
foram mantidos em sigilo, tanto pelo Vaticano como pelo
Departamento de Estado americano. Tal reunião,
ocorrendo tão cedo no pontificado de Luciani, seria
corretamente encarada como extremamente significativa,
se transpirasse para o conhecimento público.
Um significado ainda maior seria atribuído, pela opinião
pública mundial, ao encontro, se fosse divulgado por que
o Papa João Paulo I não compareceria à Conferência de
Puebla, no México. Tratava-se da seqüência de uma
conferência muito importante que se realizara em
Medellin, na Colômbia. em 1968.
Em Medellin, os cardeais e bispos da América Latina
injetaram vida nova na Igreja Católica naquele continente.
A declaração contida no “Manifesto de Medellín” incluía
a afirmativa de que a principal iniciativa de sua igreja no
5/28
futuro seria procurar estabelecer vínculos com os pobres,
desprezados e depauperados. Era uma mudança
revolucionária numa Igreja que, anteriormente, sempre se
associara com os ricos e os poderosos. A “Teologia da
Libertação”, que emergiu de Medellín, alertava as
diversas juntas militares e regimes ditatoriais da América
do Sul para o fato de que a Igreja pretendia trabalhar para
acabar com a exploração financeira e a injustiça social.
Foi, na verdade, um chamado às armas. Inevitavelmente, a
resistência a essa filosofia liberal veio não apenas dos
diversos regimes, mas também dos elementos reacionários
dentro da Igreja. A conferência de Puebla, uma década
depois, prometia ser crucial. A Igreja continuaria a seguir
pela mesma trilha ou haveria um recuo para a antiga
posição, repudiada? O fato de o novo papa recusar o
convite para comparecer à conferência ressalta a
importância que ele atribuía ao seu encontro com o comitê
de Scheuer. Ele, certamente, conhecia as implicações da
reunião em Puebla.
No conclave, menos de uma hora depois de ser eleito
papa, Luciani foi procurado pelos cardeais Baggio e
Lorscheider, dois homens-chave na aguardada conferência
no México. Puebla fora adiada por causa da morte do
papa Paulo VI. Os cardeais queriam saber se o novo papa
estava disposto a aprovar uma nova data para a
conferência no México.
Luciani discutiu os problemas que seriam tratados em
Puebla, em profundidade, menos de uma hora depois de
5/29
sua eleição. Concordou que a conferência deveria ser
realizada e foi definida a data: de 12 a 28 de outubro.
Durante a conversa com Baggio e Lorscheider, ele
surpreendeu os dois cardeais com seu conhecimento e
percepção das questões que seriam examinadas em
Puebla. Em relação a seu comparecimento, recusou-se a
assumir um compromisso firme logo no início do
pontificado. Quando Villot informou-o de que o comitê de
Scheuer gostaria de ter uma audiência em 24 de outubro,.
Luciani disse a Baggio e Lorscheider que não poderia ir a
Puebla. E mandou que Villot confirmasse o encontro com
a delegação americana. Era a confirmação final, para
Luciani, de que seu lugar, durante as próximas semanas,
era no Vaticano. Havia outros motivos para a sua decisão
de permanecer em Roma. O Papa João Paulo I concluíra,
em meados de setembro, que a sua mais alta prioridade
deveria ser a de pôr a casa em ordem. O problema do
Banco do Vaticano e sua filosofia operacional tornara-se
de suprema importância para ele.
Luciani agiu com uma urgência que claramente inexistia
nos últimos anos do seu antecessor imediato. A vassoura
nova não tinha a intenção de limpar todo o Vaticano nos
primeiros 100 dias, mas ele estava ansioso para que, nesse
período, a Igreja começasse a mudar de direção,
particularmente em relação à Vaticano S.A.
Ainda em sua primeira semana, o novo papa deu uma
indicação do rumo que seguiria. “Concordou” com o
desejo do cardeal Villot de ser substituído em um dos seus
5/30
muitos cargos: a presidência do Conselho Pontifical, Cor
Unum2. O cargo foi para o cardeal Bernard Gantin. Cor
Unum é um dos principais funis por que passam os
recursos coletados no mundo inteiro a serem distribuídos
às nações mais pobres.
Para Luciani, Cor Unum era um elemento vital em sua
filosofia de que as finanças do Vaticano deveriam ser
inspiradas pelo Evangelho. A substituição, gentilmente
conduzida, efetivamente concretizou a troca de Villot por
Gantin, um homem de grande espiritualidade e evidente
honestidade.
A aldeia do Vaticano fervilhava com especulações.
Alguns proclamavam que nunca haviam conhecido
Sindona, Calvi ou qualquer outro da Máfia de Milão que
infestara o Vaticano durante o período do papa Paulo.
Outros, em seus esforços de sobrevivência, começaram a
transmitir informações aos aposentos papais.
Poucos dias depois da nomeação de Gantin, o novo papa
encontrou em sua mesa uma cópia de uma circular do
Controle de Câmbio Italiano. Não havia a menor dúvida
de que a circular era uma reação direta à carta aberta de Il
Mondo ao papa, descrevendo uma situação inadmissível
para um homem que se comprometera com a pobreza
pessoal e com uma Igreja pobre.
2 Conselho integrante da Cúria Romana, o “Cor Unum” foi instituído por
Paulo VI em 1971, com a missão declarada de tornar manifesta a
caridade de Cristo.
5/31
A circular, assinada pelo ministro do Comércio Exterior
Rinaldo Ossola, foi enviada a todos os bancos italianos.
Lembrava que o IOR, o Banco do Vaticano, é “para todos
os efeitos, uma instituição bancária não residente”... Em
outras palavras, um banco estrangeiro. Assim, as relações
entre o Banco do Vaticano e as instituições de crédito
italianas eram governadas pelas mesmas regras que se
aplicavam a todos os outros bancos estrangeiros.
O ministro estava particularmente preocupado com os
abusos de câmbio, envolvendo a exportação ilegal de
capitais da Itália. A circular era também uma inequívoca
confissão ministerial de que tais abusos eram realidade.
Os círculos financeiros italianos encararam-na como uma
tentativa de reprimir pelo menos uma das muitas
atividades escusas do Banco do Vaticano. No Vaticano,
foi considerada uma confirmação adicional de que o dobre
de finados para o exercício da presidência do banco pelo
bispo Paul Marcinkus soava cada vez mais alto.
Uma história que acreditei ser boato, mas que muitos no
Vaticano e na imprensa italiana me garantiram ser
verdadeira, começou a circular pelo Vaticano no início de
setembro de 1978. Dizia respeito à venda da Banca
Cattolica del Veneto e à viagem de Albino Luciani ao
Vaticano na tentativa de evitar a venda do banco a
Roberto Calvi. Já narrei o encontro de Luciani e Benelli.
A versão que circulou introduziu elegantes variações em
estilo italiano. Luciani se defrontara com Paulo VI que
5/32
respondera:
— Mesmo você tem de fazer esse sacrifício pela Igreja.
Nossas finanças ainda não se recuperaram dos prejuízos
causados por Sindona. Mas leve seu problema ao
monsenhor Marcinkus.
Pouco depois, Luciani estivera no escritório de Marcinkus
e repetira a lista de pedidos da diocese com relação à
venda do banco. Marcinkus o ouvira e respondera:
— Eminência, não tem nada melhor para fazer hoje?
Faça seu trabalho e farei o meu.
A esta altura, Marcinkus lhe mostrava a porta de saída.
Qualquer um que já tenha visto Marcinkus em ação saberá
que faz jus ao seu apelido: “o Gorila”. Para os bispos,
monsenhores, padres e freiras no Vaticano é certo que tal
confrontação realmente aconteceu.
Agora, inesperadamente, o pequeno e pacato homem de
Belluno podia remover Marcinkus num piscar de olhos.
Membros da Cúria organizaram uma loteria. Ganharia
quem adivinhasse o dia em que Marcinkus seria
formalmente removido do banco. O papa, que acreditava
em prudência, ainda reunia as provas necessárias. Além
da investigação sendo conduzida, por conta do papa, pelo
cardeal Villot, o risonho João Paulo I, com a típica astúcia
das montanhas, abriu outras linhas de inquérito. Começou
a conversar com o cardeal Felici sobre o Banco do
5/33
Vaticano. E também telefonou para o cardeal Benelli, em
Florença.
Foi por intermédio de Giovanni Benelli que o papa tomou
conhecimento da investigação do Banco da Itália no
Banco Ambrosiano. Era típico da maneira como
funcionava a Igreja Católica. O cardeal em Florença disse
ao papa em Roma o que estava acontecendo em Milão.
O ex-segundo homem da Secretaria de Estado do
Vaticano formara uma vasta rede de contatos por toda a
Itália. Licio Gelli, da P2, ficaria devidamente
impressionado com a extensão e a qualidade das
informações a que o cardeal Benelli tinha acesso. Incluía
fontes muito bem situadas dentro do Banco da Itália.
Foram essas fontes que informaram ao cardeal sobre a
investigação no império de Roberto Calvi, um inquérito
que se aproximava do clímax em setembro de 1978. O
que mais preocupou Benelli e, posteriormente, Albino
Luciani era a parte da investigação que levantava as
ligações de Calvi com o Vaticano. O contato no Banco da
Itália estava convencido de que a investigação seria
seguida por graves acusações criminais contra Roberto
Calvi e possivelmente alguns de seus diretores. Parecia
igualmente certo que o Banco do Vaticano estava bastante
envolvido em diversas transações que violavam uma
variedade de leis italianas. Os homens no Banco do
Vaticano que estavam sendo mais investigados, como
criminosos em potencial, eram Paul Marcinkus, Luigi
Mennini e Pellegrino de Strobel.
5/34
Benelli aprendera, por quase uma década, que não se
influenciava Luciani com a insistência vigorosa para que
assumisse um determinado curso de ação. Ele me disse:
- Com o papa Luciani, apresentavam-se os fatos, fazia-se
uma recomendação e depois se lhe dava tempo e espaço
para considerar. Depois de absorver todas as
informações disponíveis, ele decidia... e quando o papa
Luciani decidia, nada, mas absolutamente nada, podia
demovê-lo ou contê-lo. Era um homem gentil, é verdade.
E humilde. Mas quando se lançava a um determinado
curso de ação, era inabalável como um rochedo.
Bennelli não era o único a ter acesso aos pensamentos dos
altos dirigentes do Banco da Itália. Membros da P2
estavam transmitindo exatamente as mesmas informações
para Licio Gelli, em Buenos Aires. E ele, por sua vez,
mantinha plenamente informados os seus companheiros
de viagem, Roberto Calvi e Umberto Ortolani. Outros
membros da P2, infiltrados no poder judiciário em Milão,
informaram a Gelli que, concluída a investigação sobre o
Banco Ambrosiano, tudo seria encaminhado ao juiz
Emilio Alessandrini. Poucos dias depois que Gelli tomou
conhecimento disso, um grupo terrorista de extrema
esquerda, sediado em Milão, Prima Linea, recebeu um
aviso de seu contato no sistema judiciário, sobre o homem
recomendado como sua próxima vítima em potencial. O
líder terrorista pregou uma fotografia do alvo na parede de
seu apartamento: juiz Emilio Alessandrini. A P2 movia-se
5/35
por muitos caminhos, inclusive o Vaticano.
No início de setembro, Albino Luciani descobriu que, por
algum meio misterioso, ele tinha sido incluído na lista de
distribuição exclusiva de uma insólita agência de notícias
chamada L’Osservatore Político (O.P.). Era dirigida pelo
jornalista Mino Pecorelli e, invariavelmente, divulgava
histórias escandalosas que, posteriormente, eram
confirmadas como verdadeiras. Agora, juntamente com
políticos, jornalistas e outras pessoas que tinham a
necessidade de tomar conhecimento das coisas em
primeira mão, o papa lia uma reportagem sobre o que a
O.P. classificou de “a grande loja do Vaticano”. O artigo
dava os nomes de 121 pessoas que, supostamente,
pertenciam a lojas maçônicas. Diversos leigos estavam
incluídos na lista, mas ela abrangia principalmente
cardeais, bispos e prelados em altos postos. Os motivos de
Pecorelli para divulgar a lista eram simples. Ele estava
empenhado numa luta com seu antigo Grão-Mestre, Licio
Gelli. Pecorelli tinha sido um membro da P2... um
membro desencantado.
Estava convencido de que a publicação da lista dos
maçons do Vaticano causaria um profundo embaraço ao
Grão-Mestre da P2, especialmente porque muitos eram
amigos íntimos de Gelli e Ortolani.
Se a informação era correta, então Luciani estava
praticamente cercado por maçons... e ser um maçom
significava a excomunhão automática da Igreja Católica.
5/36
Antes do conclave, houve rumores de que vários dos mais
eminentes papabiles eram maçons. Agora, 12 de
setembro, o novo papa recebia a lista completa. Luciani
tinha a opinião de que era inconcebível que um sacerdote
se tornasse membro da maçonaria. Sabia que diversos
católicos leigos de suas relações pertenciam a várias
Lojas. Da mesma forma, tinha amigos que eram
comunistas. Aprendera a conviver com essa situação, mas
achava que os critérios eram diferentes quando se tratava
de alguém do clero. A Igreja Católica decretara, há muito
tempo, que se opunha implacavelmente à maçonaria. O
novo papa estava aberto a uma discussão da questão, mas
uma lista de 121 homens que eram membros confirmados
da maçonaria não chegava a ensejar uma discussão:
Secretário de Estado, cardeal Villot, nome maçônico
Jeanni, registrado numa Loja de Zurique em 6 de
agosto de 1966, com o número 041/3.
Ministro do Exterior, monsenhor Agostino Casaroli.
Cardeal Vigário de Roma, Ugo Poletti.
Cardeal Baggio.
Bispo Paul Marcinkus, do Banco do Vaticano e
Monsenhor Donato de Bonis, também do Banco do
Vaticano.
5/37
O aturdido papa leu uma relação que parecia o “Quem é
Quem” do Vaticano. Notando com alívio que nem Benelli
nem o cardeal Felici apareciam na lista, que incluía até
mesmo o secretário particular do papa Paulo, monsenhor
Pasquale Macchi, Albino Luciani prontamente telefonou
para Felici e convidou-o para tomar um café.
Felici informou ao papa que uma lista similar circulara
discretamente pelo Vaticano, há mais de dois anos, em
maio de 1976. O motivo para o seu reaparecimento era,
obviamente, uma tentativa de influenciar o pensamento do
novo papa sobre nomeações, promoções e remoções.
— A lista é verdadeira? — perguntou Luciani.
Felici disse ao papa que, em sua opinião, era uma hábil
mistura. Alguns nomes na lista eram de fato maçons,
outros não. E acrescentou:
— Essas listas parecem proceder da facção Lefebvre...
não foram criadas por nosso irmão francês rebelde, mas
são, certamente, usadas por ele.
O bispo Lefebvre foi um incômodo para o Vaticano e,
particularmente, para o papa Paulo VI durante alguns
anos. Era um tradicionalista que considerava o Concilio
Vaticano Segundo como a suprema heresia; ignorara
quase que totalmente as conclusões conciliares. Alcançara
notoriedade internacional com sua insistência de que a
5/38
missa fosse celebrada exclusivamente em latim. Suas
posições de extrema direita, numa variedade de assuntos,
resultaram numa condenação pública pelo papa Paulo VI.
Em relação ao conclave que elegera o papa João Paulo I,
os partidários de Lefebvre haviam inicialmente declarado
que se recusariam a reconhecer o novo papa, por ter sido
eleito num conclave que excluíra os cardeais com mais de
80 anos. Posteriormente, eles lamentaram a escolha como
‘‘sinistra’’.
Luciani refletiu sobre a situação por um momento, antes
de perguntar:
— Quer dizer que listas como esta existem há mais de
dois anos?
— Isso mesmo, Santidade.
— A imprensa tomou conhecimento delas?
— Tomou, Santidade. A lista completa jamais chegou a
ser publicada, mas saiu um nome aqui, outro ali.
— E qual foi a reação do Vaticano?
— A normal.., ou seja, nenhuma reação.
Luciani riu. Gostava de Pericle Felici. Curial até a raiz dos
cabelos, tradicionalista em seu pensamento, mas um
homem espirituoso e sofisticado, de cultura considerável.
— Eminência, na revisão da lei canônica, que ocupou
tanto de seu tempo, o Santo padre por acaso previu uma
mudança na posição da Igreja em relação à maçonaria?
5/39
— Ao longo dos anos, houve muitos grupos de pressão.
Determinadas partes interessadas exortavam que se
assumisse uma posição mais “moderna”. O Santo Padre
ainda estava considerando esses argumentos quando
morreu.
Felici continuou para deixar claro que, entre os que
defendiam fortemente um afrouxamento da lei que
declarava que qualquer católico que se filiasse à
maçonaria estava automaticamente excomungado, estava
o cardeal Jean Villot.
Nos dias que se seguiram, o papa passou a observar mais
atentamente alguns de seus muitos visitantes. O problema
era que os maçons se pareciam extraordinariamente com o
resto da humanidade. Enquanto Luciani considerava esse
problema imprevisto, diversos membros da Cúria
Romana, intensamente simpáticos à visão de mundo de
extrema direita de Licio GeIli, vazavam informações para
fora do Vaticano. Essas informações acabaram chegando
a seu destino: Roberto Calvi.
As notícias do Vaticano eram sombnias. O banqueiro
milanês estava convencido de que o papa queria se vingar
pela tomada da Banca Cattolica del Veneto. Não podia
conceber que a investigação de Luciani no Banco do
Vaticano não fosse pessoalmente orientada e inspirada por
seu desejo de atacar a ele, Roberto Calvi. Lembrava muito
bem a ira do clero de Veneza e os protestos de Luciani,
5/40
sem falar no encerramento de muitas contas diocesanas e
a transferência para um banco rival. Por alguns dias, Calvi
chegou mesmo a considerar a possibilidade de subornar
Luciani. Quem sabe se uma doação substancial ao
Vaticano não resolveria o problema? Uma doação
generosa para as obras de caridade? Mas tudo o que
aprendera a respeito de Luciani dizia a Calvi que lidava
com um tipo de homem que só encontrara raramente nos
negócios, alguém que era totalmente incorruptível.
Enquanto os dias de setembro passavam, Calvi viajou
pelo continente sul-americano, Uruguai, Peru, Argentina.
Com ele estavam sempre Gelli ou Ortolani. Marcinkus
caindo, um novo homem [à frente do Banco do Vaticano]
logo descobriria qual era a situação e a verdadeira
natureza das relações entre o Banco do Vaticano e o
Banco Ambrosiano. Mennini e De Strobel seriam
afastados. O Banco da Itália seria informado e Roberto
Calvi passaria o resto de sua vida na prisão.
Ele cobrira todas as eventualidades, considerara todos os
perigos em potencial, bloqueara todas as brechas. Era
perfeito o que criara: não um roubo, nem mesmo um
grande roubo, mas sim um roubo contínuo, numa escala
até então jamais imaginada. Em setembro de 1978, Calvi
já roubara mais de 400 milhões de dólares. Os
conglomerados no exterior, os associados estrangeiros, as
empresas de fachada... a maioria dos ladrões
experimentaria um senso de triunfo por realizar um único
assalto a banco. Calvi, no entanto, estava empenhado em
5/41
roubar bancos às dúzias. Todos entravam em fila para
serem roubados, disputando o privilégio de emprestar
dinheiro ao Banco Ambrosiano.
Agora, no meio de seu sucesso irresistível, Calvi tinha de
lidar com inspetores do Banco da Itália que não podiam
ser corrompidos e, a cada dia, se aproximavam mais da
conclusão de sua investigação. Gelli lhe assegurara que o
problema podia e seria controlado. Mas como poderia até
mesmo Gelli, com todo o seu imenso poder e influência,
manipular um papa?
Enquanto os dias passavam, Calvi foi ficando obcecado
pelo problema. Como impedir um homem honesto de
destruí-lo? Se fosse um mortal comum, poderia ser
pressionado, talvez ameaçado. Se isso não desse certo,
haveria muitos que não hesitariam em silenciar uma
ameaça... permanentemente. Mas não se tratava de um
mortal comum. Era o Chefe de Estado da Cidade do
Vaticano. Mais objetivamente, era o papa. Como se podia
ameaçar um papa?
Se Albino Luciani, por algum milagre, morresse antes de
substituir Marcinkus, então Calvi disporia do tempo de
que precisava. Era verdade que seria apenas um mês. Mas
muita coisa pode acontecer em um mês. E muita coisa
poderia acontecer no próximo conclave. Deus não
produziria outro papa que quisesse reformar as finanças
do Vaticano, não é mesmo? Como sempre, ele se voltou
para Licio Gelli e confidenciou-lhe os seus piores receios.
5/42
Depois de um longo telefonema internacional para Gelli,
Roberto Calvi sentiu algum alivio. Gelli o tranqüilizara. O
“problema” podia e seria resolvido.
Enquanto isso, a rotina nos aposentos papais rapidamente
se assentava a um novo padrão, em torno do novo
ocupante. Mantendo o hábito de uma vida inteira, Luciani
se levantava muito cedo. Optara por dormir na cama
usada por João X.XIII, em vez de na cama de Paulo VI. O
padre Magee disse a Luciani que Paulo se recusava a
dormir na cama de João “por causa de seu respeito pelo
papa João”. Ao que Luciani respondeu:
— Pois dormirei na cama de João por causa do meu
amor por ele.
Embora o despertador na mesinha-de-cabeceira estivesse
preparado para tocar às 5:00, caso dormisse demais, o
papa era sempre despertado por uma batida na porta às
4:30. Era informado de que a irmã Vincenza deixara um
bule de café ali. Até mesmo esse ato simples ficara sujeito
à interferência curial. Em Veneza, a freira se acostumara a
bater na porta, gritar um “bom-dia” e levar o café até a
cama para Luciani. Os ativos monsenhores do Vaticano
acharam que esse ato simples violava algum protocolo
imaginário. Protestaram junto ao aturdido Luciani, que
acabou concordando que o café fosse deixado na porta do
gabinete adjacente. O hábito de tomar um café logo
depois de acordar derivava de uma operação de sinusite
5/43
realizada muitos anos antes. A operação deixara Luciani
com um gosto amargo na boca ao despertar. Quando
viajava, se não havia café disponível, chupava uma bala.
Depois de tomar o café, Luciani fazia a barba e tomava
um banho. Das 5:00 às 5:30, praticava seu inglês com a
ajuda de um curso gravado em cassete. Deixava o quarto
às 5:30 e ia para a pequena capela particular ali perto.
Orava, meditava e dizia o seu breviário até as 7:00.
Recebia, então, a companhia de outros membros do
círculo papal, particularmente seus secretários, padre
Lorenzi e padre Magee. Lorenzi, também novo no
Vaticano, perguntara ao papa se Magee, um dos
secretários do papa Paulo, não poderia continuar no posto.
Luciani, que se impressionara com a capacidade do padre
Magee de providenciar xícaras de café durante os dois
primeiros dias do seu pontificado, prontamente
concordou. Os três homens tinham a companhia das
freiras da Congregação de Maria Bambina durante a
missa, cujas funções eram limpar e cozinhar para o papa.
As freiras, Madre Superiora Elena, irmãs Margherita,
Assunta, Gabriella e Clorinda logo receberam a ajuda de
mais uma pessoa, a irmã Vincenza, de Veneza, por
sugestão do padre Lorenzi. Vincenza trabalhara para
Luciani desde os seus dias em Vittorio Veneto e conhecia
seus jeitos, seus hábitos. Ela o acompanhara a Veneza e
fora a madre superiora do grupo de quatro freiras que
cuidava do patriarca. Sofreu um ataque cardíaco em 1977
e foi hospitalizada. Os médicos disseram-lhe que nunca
5/44
mais deveria trabalhar, limitando-se a ficar sentada e dar
instruções às outras freiras. Vincenza ignorou as
determinações médicas e continuou a supervisionar a
cozinha da irmã Celestina, a se movimentar
constantemente em torno do patriarca, lembrando-o de
tomar seu remédio para a pressão baixa.
Para Albino Luciani, Vincenza e o padre Lorenzi
representavam seu único vínculo com as terras do norte da
Itália, que agora só veria raramente e onde nunca mais
tornaria a viver. É um pensamento profundo saber que, ao
ser eleito papa, um homem passa imediatamente a viver
onde possivelmente morrerá e, com toda certeza, será
enterrado. É como viver em seu próprio cemitério.
O café da manhã, de café latte, um pão e uma fruta, era
servido logo depois da missa, às 7:30. Como Vincenza
diria às outras freiras, alimentar Luciani era um desafio
considerável. Ele geralmente se mostrava indiferente ao
que comia e seu apetite era como o de um canário. Como
muitos que haviam conhecido a pobreza extrema, ele
detestava o desperdício. O que sobrava de um jantar
especial para convidados seria uma de suas refeições no
dia seguinte.
Ao café da manhã, Luciani lia diversos jornais italianos.
Determinara que o diário Il Gazzetino, de Veneza, fosse
acrescentado à lista. Entre 8:00 e 10:00, o papa trabalhava
em seu gabinete, preparando-se para a primeira audiência.
Entre 10:00 e 12:30, com homens como monsenhor
5/45
Jacques Martin, prefeito da Residência Pontifical,
tentando fazer com que as pessoas entrassem e saíssem no
horário, o papa recebia e conversava com os visitantes, no
segundo andar do Palácio Apostólico.
Martin e outros membros da Cúria não demoraram a
descobrir que Luciani era um homem de vontade própria e
firme. Apesar das objeções murmuradas, as conversas do
papa com os visitantes tinham o hábito de se prolongar
além do horário, acarretando a maior confusão para a
programação. Monsenhor Martin partilhava uma crença
predominante no Vaticano: a de que todos poderiam se
desincumbir de suas funções, se não fosse pelo papa.
Um almoço de minestrone ou macarrão, seguido por
qualquer outra coisa que Vincenza tivesse preparado para
segundo prato, era servido às 12:30. Mesmo isso dava
margem a comentários. O papa Paulo sempre almoçava às
13:30. O fato de uma coisa tão banal inspirar comentários
excitados no Vaticano é indicativo de quanto o lugar é
uma aldeia. Os rumores se tornaram ainda mais intensos
quando se espalhou a noticia de que o papa aceitava a
presença de mulheres à sua mesa de refeições. A sobrinha
Pia e a cunhada provavelmente entraram para o livro de
recordes do Vaticano. Luciani fazia uma pequena sesta
entre 13:30 e 14:00. Depois, passeava um pouco pelo
terraço ou pelos jardins do Vaticano. Ocasionalmente, era
acompanhado pelo cardeal Villot; com mais freqúência,
Luciani lia. Além do breviário, encontrava prazer em
autores tão diversos como Mark Twain e Sir Walter Scott.
5/46
Ele voltava a seu gabinete pouco depois das 16:00,
estudava o conteúdo de um envelope recheado que era
entregue por monsenhor Martin, relacionando os
visitantes do dia seguinte e um breve sumário a respeito
de cada um.
Às 16:30, enquanto tomava uma xícara de chá de
camomila, o papa recebia em seu gabinete o “Tardella”,
os diversos cardeais, arcebispos e secretários de
congregações que constituíam o seu ministério. Eram
reuniões importantes, pois garantiam o funcionamento
seguro das engrenagens da Igreja Católica.
A refeição da noite era às 19:45. Às 20:00, enquanto ainda
comia, Luciani assistia à televisão. Seus companheiros ao
jantar, a não ser que houvesse convidados especiais, eram
os padres Lorenzi e Magee.
Depois do jantar, havia mais preparativos para as
audiências do dia seguinte. O papa dizia a parte final do
breviário diário e, em seguida, se retirava para dormir, em
torno das 21:30.
O jantar, assim como o almoço que o precedia, seria
simples e sem sofisticações. Em 5 de setembro, Luciani
recebeu um padre veneziano, Mario Ferrarese. Para
convidá-lo aos aposentos papais, Luciani deu a desculpa
de que desejava retribuir a hospitalidade que padre Mario
lhe dispensara em Veneza. Preferia a companhia de um
padre paroquiano a considerar o fato de que os ricos e
5/47
poderosos da Itália tentavam conseguir que partilhasse de
sua mesa. Aquela refeição em particular foi servida por
dois membros da equipe papal, Guido e Gian Paolo
Guzzo. O papa pediu notícias de Veneza; a seguir,
observou tranqüilamente:
— Peça às pessoas por lá que rezem por mim, porque
não é fácil ser um papa.
E, dirigindo-se aos irmãos Guzzo, disse:
— Como temos um convidado, devemos servir-lhe uma
sobremesa.
Após alguma demora, taças de sorvete foram servidas à
mesa papal. Para os de fora, vinho. Luciani se contentava
com água mineral.
Essa era a rotina diária do papa João Paulo I... uma rotina
que ele tinha a maior satisfação em perturbar de vez em
quando. Sem avisar a ninguém, saía inesperadamente a
passear pelos jardins do Vaticano. Podia-se pensar que era
uma simples diversão, mas um passeio improvisado
lançava o protocolo do Vaticano e os guardas suíços na
maior confusão. Luciani já causara consternação entre os
oficiais da Guarda Suíça ao conversar com homens de
sentinela e também pedir que se abstivessem de ajoelharse
cada vez que se aproximava. Ele comentou para o
padre Magee:
5/48
— Quem sou eu para que se ajoelhem na minha
presença?
Monsenhor Virgilio Noe, o mestre-de-cerimônias,
suplicou-lhe que não conversasse com os guardas e se
limitasse a um aceno de cabeça silencioso. O papa
perguntou por quê. Noe abriu os braços numa reação de
espanto:
— Santo Padre, isso simplesmente não se faz. Nenhum
papa jamais falou com os guardas.
Albino Luciani sorriu e continuou a falar com os guardas.
Era muito diferente dos primeiros dias do pontificado de
Paulo, quando padres e freiras ainda ficavam de joelhos
para conversar com o papa, mesmo quando fosse pelo
telefone.
A atitude de Luciani em relação ao telefone também
provocou alarme entre os tradicionalistas da Cúria.
Tinham de lidar agora com um papa que se considerava
perfeitamente capaz de discar para alguém com quem
desejasse falar, bem como atender ligações. Ligava para
amigos em Veneza. Telefonava para diversas madres
superioras apenas para uma conversa inconseqüente.
Certa ocasião, comentou com seu amigo, padre
Bartolomeo Sorges, que gostaria que o padre Dezza, um
jesuíta, ouvisse sua confissão. Uma hora depois, o padre
Dezza telefonou para combinar a visita. A voz ao telefone
informou-o:
5/49
— Lamento muito, mas o secretário do papa não está no
momento. Posso ajudar?
— Quem está falando?
— O papa.
Simplesmente não se fazia assim. Nunca acontecera antes
e talvez nunca mais torne a acontecer. Os dois homens
que atuavam como secretários de Luciani negaram
categoricamente que jamais tivesse acontecido. Era
inconcebível. Mas aconteceu realmente.
Luciani começou a explorar o Vaticano, com seus 10 mil
cômodos e corredores, 997 escadas, sendo 30 secretas.
Muitas vezes deixava subitamente os aposentos papais,
sozinho ou acompanhado apenas pelo padre Lorenzi. E
também de repente aparecia nos escritórios da Cúria.
— Estou apenas descobrindo os caminhos por aqui —
explicou ele, numa ocasião, ao surpreso arcebispo Caprio,
subsecretário de Estado.
Eles não gostavam. Não gostavam absolutamente. A
Cúria estava acostumada a um papa que conhecia o seu
lugar, que atuava através dos canais burocráticos. Mas
aquele papa circulava por toda parte, se intrometia em
tudo e, o pior de tudo, queria fazer mudanças. A batalha
em torno da sedia gestatoria, a cadeira em que os papas
anteriores eram transportados, começou a tomar
proporções extraordinárias. Luciani a banira para o
depósito. Os tradicionalistas iniciaram uma batalha para
5/50
trazê-la de volta. O fato de coisas tão insignificantes
ocuparem o tempo de um papa desponta como algo
revelador sobre as perspectivas de determinados setores
da Cúria Romana.
Luciani tentou argumentar com pessoas como monsenhor
Noe tal como se faz com uma criança. O mundo deles não
era o seu e o papa não estava disposto a mudar. Explicou
a Noe e aos outros que circulava a pé em público porque
não se considerava melhor do que qualquer outro homem.
Detestava a cadeira e o que ela simbolizava.
— Mas as multidões não podem vê-lo sem a cadeira —
protestou um representante da Cúria. — Todos estão
pedindo a sua volta. Todos devem poder ver o Santo
Padre.
Obstinadamente, Luciani lembrou que aparecia com
freqüência na televisão e que todos os domingos aparecia
na sacada para o Angelus. Disse também o quanto
detestava a idéia de ser carregado praticamente nos
ombros de outros homens.
— Mas se Sua Santidade procura uma humildade ainda
mais profunda do que claramente já tem, o que poderia
ser mais humilhante do que ser carregado na cadeira que
tanto detesta?
Diante desse argumento, o papa reconheceu a derrota. Em
sua segunda audiência pública, foi levado ao Salão Nervi
5/51
na sedia gestatoria.
Enquanto uma parte do tempo de Luciani era absorvida
pelas atividades triviais da Cúria, a maioria de suas horas
de vigília era dedicada a problemas mais sérios. Dissera
ao corpo diplomático que o Vaticano renunciava a todas
as reivindicações de poder temporal. Não obstante, o novo
papa logo descobriu que praticamente todos os grandes
problemas do mundo passavam por sua mesa. A Igreja
Católica, com mais de 18 por cento da população mundial
lhe prestando fidelidade espiritual, representa uma força
poderosa; como tal, era obrigada a assumir uma posição e
tomar uma atitude numa enorme variedade de problemas.
Além de sua opinião em relação ao General Videla, da
Argentina, qual seria a reação de Albino Luciani à pletora
de ditadores que presidiam vastas populações católicas?
Qual seria a sua reação à “panelinha” de Marcos, nas
Filipinas, com seus 43 milhões de católicos? Em relação
ao auto-eleito Pinochet, no Chile, que tem mais de 80 por
cento da população de católicos? E o General Somoza, da
Nicarágua, o ditador tão admirado pelo assessor
financeiro do Vaticano, Michele Sindona? Como Luciani
restauraria a concepção de uma Igreja Católica para os
pobres e oprimidos num país como Uganda, onde Amin
providenciava acidentes fatais para padres com uma
freqüência quase cotidiana? Qual seria sua resposta aos
católicos de El Salvador, onde alguns membros da junta
militar no poder consideravam que ser católico era ser um
inimigo? Trata-se de um país em que 96 por cento dos
5/52
habitantes eram católicos e que prometia oferecer ao
mundo uma receita de genocídio, um problema um pouco
mais sério do que o debate no Vaticano sobre a cadeira do
papa.
Como aquele homem – que dissera, de seu púlpito em
Veneza, palavras duras sobre o comunismo – falaria ao
mundo comunista, ao palestrar agora na Basílica de São
Pedro? O cardeal que aprovara um “equilíbrio do terror”
em relação às armas nucleares manteria a mesma posição
quando os defensores internacionais do desarmamento
unilateral solicitassem uma audiência?
Havia também incontáveis problemas, herdados de Paulo
VI, dentro da própria Igreja. Muitos padres queriam o fim
do voto de celibato. Havia pressões para se permitir o
ingresso das mulheres no sacerdócio. Havia grupos que
exigiam a reforma das leis canônicas sobre o divórcio,
aborto, homossexualismo e uma dúzia de outras
questões... e todos se dirigiam a um só homem, exigindo,
suplicando, exortando. O novo papa demonstrou
rapidamente, nas palavras de monsenhor Loris Capovilla,
o ex-secretário de João XXIII, que “havia mais em sua
loja do que ele mostrou na vitrine”. Quando o ministro do
exterior, monsenhor Agostino Casaroli, procurou o papa
com sete questões sobre as relações da Igreja com
diversos países do leste europeu, Albino Luciani
prontamente deu as soluções para cinco; pediu um pouco
de tempo para analisar as outras duas. O aturdido Casaroli
voltou a seu gabinete e relatou a um colega o que
5/53
acontecera. O sacerdote perguntou-lhe:
— As soluções foram corretas?
— Totalmente corretas, na minha opinião. Mas seria
preciso um ano para se arrancar as respostas de Paulo.
Outro dos problemas encaminhados ao papa envolvia a
Irlanda e a avaliação da Igreja em relação ao IRA. Muitos
consideravam que a Igreja Católica não tinha sido
bastante franca e objetiva em sua condenação da contínua
carnificina na Irlanda do Norte. Poucas semanas antes da
eleição de Luciani, o arcebispo O’Fiaich, então o primaz
católico de toda a Irlanda, foi parar nas manchetes com
sua denúncia das condições na prisão de Maze3, em Long
Kesh.
O’Fiaich visitara a prisão e depois falara de seu choque
“com o fedor e sujeira em algumas celas, os
remanescentes de carne putrefata e excremento humano
espalhados pelas paredes”. Havia muitos outros
comentários similares. Em nenhum momento do seu
longo pronunciamento, liberado para os meios de
comunicação com extremo profissionalismo, o arcebispo
reconhecia que as condições na prisão eram criadas pelos
próprios presos.
3 Também conhecida como “H-Blocks” (blocos H – alusão ao formato
dos prédios quando vistos do alto), a prisão de Maze está associada à
violência na Irlanda do Norte e nela se encontravam aqueles
considerados os mais perigosos homens da Europa que, todavia, mais
tarde concordaram em negociar a paz.
5/54
A Irlanda estava sem um cardeal. Muitos tentavam
influenciar o papa. O arcebispo O’Fiaich era considerado
por alguns como o maior candidato ao posto; outros
sentiam que sua promoção à arquidiocese de Armagh
revelou-se um desastre total.
Albino Luciani devolveu o dossiê sobre O’Fiaich a seu
secretário de Estado com um movimento negativo e a
frase:
— Acho que a Irlanda merece um pouco mais.
A procura por um cardeal continuou.
Em setembro de 1978, a crise no Líbano não era
considerada de maior importância na lista dos problemas
mundiais. Havia dois anos que reinava uma espécie de
paz, entremeada de combates esporádicos entre tropas
sírias e cristãs. Muito antes de qualquer outro chefe de
Estado, o pequeno e discreto sacerdote de Veneto
compreendeu que o Líbano era um matadouro em
potencial. Discutiu o problema com Casaroli e disse que
desejava visitar Beirute antes do Natal de 1978.
Um dos homens que Luciani recebeu, durante as
audiências matutinas de 15 de setembro, foi o cardeal
Gabriel-Marie Garrone, prefeito da Sagrada Congregação
para a Educação Católica. Essa audiência em particular é
um exemplo extraordinário de como eram excepcionais os
talentos de Luciani. Garrone viera discutir um documento
5/55
chamado “Sapientia Christiana”, que versava sobre a
constituição apostólica e as diretivas e regras de todas as
faculdades católicas do mundo.
Já no início dos anos 60, o Concílio Vaticano Segundo
revisara as orientações para os seminários. Depois de dois
anos de discussões internas, a Cúria Romana enviara suas
propostas aos bispos do mundo, a fim de que estudassem
e apresentassem suas recomendações. Todos os
documentos relevantes foram depois submetidos a mais
duas reuniões curiais, com a presença de consultores não
curiais. Os resultados foram em seguida examinados por,
pelo menos, seis departamentos curiais, o documento final
sendo apresentado ao Papa Paulo VI em abril de 1978, 16
anos depois das reformas propostas serem discutidas pela
primeira vez.
Paulo pensara em divulgar o documento em 29 de junho,
dia de São Pedro e São Paulo. Mas um documento com
um período de gestação de cerca de 16 anos não podia ser
preparado tão depressa no departamento de tradução da
Cúria. Quando o documento finalmente ficou pronto, o
papa Paulo já havia morrido.
Qualquer iniciativa não proclamada até a morte de um
papa perde o valor, a menos que seja aprovada pelo
sucessor. Por isso, o cardeal Garrone entrou na audiência
com o novo papa com uma profunda apreensão. Cerca de
16 anos de trabalho árduo poderiam ser jogados no lixo se
Luciani rejeitasse o documento. O antigo professor do
5/56
seminário de Belluno disse a Garrone que passara a maior
parte do dia anterior estudando o documento. Depois, sem
sequer consultar uma cópia, pôs-se a discuti-lo em
detalhes. Garrone ficou atônito com a percepção e
compreensão do papa de um documento tão complexo.
Ao final da audiência, Luciani comunicou que o
documento tinha sua aprovação e deveria ser publicado
em 15 de dezembro.
Como Casaroli, Baggio, Lorscheider e diversos outros,
Garrone saiu da audiência com Luciani extremamente
admirado. Voltando a seu gabinete, encontrou por acaso
com monsenhor Scalzotto, da Propaganda Fide, com
quem comentou:
— Acabo de me encontrar com um grande papa.
Enquanto isso, o “grande papa” continuava a abrir
caminho pela montanha de problemas deixados por Paulo.
Um deles era o cardeal John Cody, de uma das mais
poderosas e ricas dioceses do mundo: Chicago.
Para um cardeal, qualquer cardeal, ser considerado um
grande problema pelo Vaticano é insólito, mas Cody era
um homem insólito. As acusações formuladas contra o
cardeal Cody, nos 10 anos anteriores ao início do
pontificado de Luciani, eram extraordinárias. Mesmo que
apenas cinco por cento fossem verdadeiras, então Cody
não tinha condições de ser um padre, muito menos o
cardeal de Chicago.
5/57
Antes de sua promoção à arquidiocese de Chicago, em
1965, ele dirigira a diocese de Nova Orleans. Muitos
padres que tentaram trabalhar com ele em Nova Orleans
ainda exibem as cicatrizes. Um deles recordou:
— Quando aquele filho da puta ganhou Chicago,
promovemos uma festa e entoamos o Te Deum4. Nosso
“ganho” acabaria sendo, na verdade, a perda de
Chicago.
Quando conversei sobre a carreira do cardeal de Chicago
com o padre Andrew Greeley, famoso sociólogo cristão,
escritor e crítico de longa data de Cody, comentei que
outro padre de Chicago comparara o cardeal Cody ao
Capitão Queeg, o despótico e paranóico comandante naval
em The Caine Mutiny5. A resposta do padre Greeley foi
imediata:
— Acho que é uma injustiça com o Capitão Queeg.
Nos anos que se seguiram à nomeação do cardeal Cody
para Chicago, tornou-se moda na Cidade dos Ventos
compará-lo com o prefeito Richard Daley, um homem
cujas práticas no comando da cidade só eram
democráticas por descuido. Havia, porém, uma diferença
4 O Te Deum, às vezes também denominado Hino Ambrosiano, em
alusão a Santo Ambrósio, é um hino tradicional de contentamento e
agradecimento.
5 Aclamado romance de Herman Wouk.
5/58
essencial. A cada quatro anos, Daley tinha de prestar
contas de seus atos aos eleitores, pelo menos em teoria. Se
conseguissem superar a sua máquina política, poderiam
afastá-lo do cargo. Mas Cody não fora eleito. A não ser
por uma ação muito drástica de Roma, ele continuaria ali
pelo resto de sua vida. Cody gostava até de comentar:
— Não tenho de prestar contas a ninguém além de Roma
e Deus.
Os acontecimentos provariam que Cody se recusava a
prestar contas até a Roma. Com isso, só restava Deus.
Quando chegou a Chicago, Cody tinha a reputação de ser
um excelente gerente financeiro, um liberal progressista
que batalhara por muito tempo e com grande afinco pela
integração escolar em Nova Orleans e um prelado muito
exigente. Ele não demorou a perder os dois primeiros
atributos. No início de junho de 1970, quando era
tesoureiro da Igreja Americana, aplicou dois milhões de
dólares em ações da Penn Central. Houve um colapso das
ações poucos dias depois e a companhia faliu. Cody
investira ilegalmente o dinheiro durante a administração
de seu sucessor devidamente eleito, a quem se recusara a
entregar os talões de cheques até muito depois do
prejuízo. Mas conseguiu sobreviver ao escândalo.
Semanas depois de sua chegada a Chicago, ele aplicou o
seu tipo particular de liberalismo progressista no
tratamento com alguns padres. Nos arquivos de seu
5/59
antecessor, cardeal Albert Meyer, descobriu uma lista de
padres “problemas”, homens que eram alcoólatras, senis
ou simplesmente incompetentes. Cody começou a passar
as tardes de domingo a visitar as residências paroquiais.
Demitia pessoalmente os padres, dando-lhes apenas duas
semanas para deixarem as residências. Não havia fundos
de pensão, planos de aposentadoria ou esquemas de
seguros para os padres em Chicago, em meados dos anos
60. Muitos daqueles tinham mais de 70 anos. Cody
simplesmente os jogou na rua.
Ele começou a transferir padres de uma parte para outra
da cidade, sem qualquer consulta. Adotava uma atitude
similar em relação ao fechamento de conventos,
residências paroquiais e escolas. Houve uma ocasião em
que, por ordem de Cody, uma equipe de demolição
começou a derrubar uma residência paroquial e um
convento enquanto os ocupantes ainda se banhavam e
tomavam o café da manhã.
O problema básico de Cody parecia ser uma profunda
incapacidade de reconhecer o Concílio Vaticano Segundo
como um fato da vida. Houve conversas intermináveis no
Concílio sobre partilhar o poder, tomar as decisões em
colegiado. Mas essas notícias nunca chegaram à mansão
do cardeal.
Numa diocese com 2,4 milhões de católicos, começaram a
ser definidas as linhas de batalha entre as facções a favor
e contra Cody. Enquanto isso, a maioria dos católicos na
5/60
cidade se perguntava o que estava acontecendo.
Os padres formaram uma espécie de sindicato, a
Associação dos Padres de Chicago. Cody ignorou quase
que totalmente suas reivindicações. Cartas pedindo
reuniões não eram respondidas. Telefonemas descobriam
que o cardeal estava constantemente “ocupado”. Alguns
permaneceram para continuar a luta por uma Igreja
dirigida de forma mais democrática. Muitos desistiram.
Numa década, um terço dos clérigos de Chicago
abandonou o sacerdócio. Embora essas demonstrações
maciças comprovassem que havia algo de podre no
Estado de Illinois, o cardeal Cody continuou a insistir que
seus oponentes não passavam de “uma minoria altamente
ruidosa”.
O cardeal também atacou a imprensa local, declarando-a
hostil. Na verdade, os meios de comunicação de Chicago
foram extraordinariamente tolerantes durante o reinado de
Cody.
O homem que lutara pela integração em Nova Orleans
tornou-se conhecido, em Chicago, como o homem que
fechou escolas para negros, alegando que a Igreja não
tinha condições de mantê-las... numa diocese com uma
receita anual que beirava os 300 milhões de dólares.
Como acontecia com quase todos os seus atos, Cody
fechou a maioria das escolas sem consultar ninguém, nem
mesmo a junta escolar. Quando o clamor de “racista” se
5/61
elevou, Cody tratou de se defender com a declaração de
que muitos negros não eram católicos e que a Igreja não
tinha a obrigação de educar negros protestantes de classe
média. Mas foi muito difícil de se desvencilhar do rótulo
de racismo.
À medida que os anos passaram, as acusações contra
Cody se multiplicaram. O conflito com amplos setores do
seu próprio clero tornou-se encarniçado. Sua paranóia
desabrochou.
Começou a contar histórias de como foi aproveitado em
trabalho secreto de espionagem para o governo dos
Estados Unidos, e suas contribuições para o FBI. Disse
aos padres que também realizara missões especiais para a
CIA, inclusive voando a Saigon. Os detalhes eram sempre
vagos. Mas se Cody dizia a verdade, envolvera-se em
atividades de serviço secreto para o governo desde o
início dos anos 40. Parecia que John Patrick Cody, o filho
de um bombeiro de St. Louis, vivia muitas vidas.
A reputação de astúcia financeira que levara para Chicago
– e que foi um tanto afetada pelo prejuízo de dois milhões
de dólares da Penn Central – sofreu um novo golpe
quando alguns de seus oponentes começaram a investigar
sua carreira anterior, bastante movimentada. Nos
intervalos dos vôos reais ou imaginários sobre territórios
inimigos, ele conseguira, sem planejamento algum,
reduzir a um estado de pobreza uma parte da Igreja,
embora não da maneira idealizada por Albino Luciani.
5/62
Deixara a diocese de São José, em Kansas City, com uma
dívida de 30 milhões de dólares. Fizera a mesma coisa em
Nova Orleans, o que acrescentava um significado maior
ao “Te Deum” do clero local por ocasião de sua partida.
Pelo menos deixara um memento permanente de sua
passagem por Kansas City, tendo aplicado somas vultosas
para dourar o domo da catedral restaurada no centro da
cidade.
Cody passou a vigiar os movimentos diários dos padres e
freiras que suspeitava de deslealdade. Dossiês foram
compilados. Interrogatórios secretos de amigos de
“suspeitos” tornaram-se uma norma. Nunca se definiu o
que tudo isso tinha a ver com o Evangelho de Cristo.
Quando algumas dessas atividades foram denunciadas a
Roma pelo clero de Chicago, o Papa Paulo VI ficou
preocupado e angustiado. Era mais do que evidente que o
membro sênior da Igreja Católica em Chicago já
demonstrara, no início dos anos 70, que não tinha
condições de presidir a diocese. Apesar disso, imbuído de
um estranho senso de prioridades, o papa ainda hesitava.
A paz de espírito de Cody parecia pesar mais que o
destino de 2,4 milhões de católicos.
Um dos aspectos mais extraordinários do caso de Cody é
que ele controlava, aparentemente sem nenhuma consulta
a quem quer que fosse, toda a receita da Igreja Católica
em Chicago. Um homem são e extremamente inteligente
já teria dificuldades para controlar com plena eficiência
5/63
uma receita anual entre 250 e 300 milhões de dólares. O
fato de tal incumbência ter sido conferida a Cody se
impõe como impossível de ser explicado.
Por volta de 1970, os bens da Igreja Católica em Chicago
ultrapassavam um bilhão de dólares. Por causa da recusa
do cardeal Cody em publicar um balanço anual
fiscalizado, padres de diversas partes da cidade passaram
a reter algumas somas que, em tempos mais felizes,
seriam reencaminhadas ao controle do cardeal.
Finalmente, em 1971, seis anos depois de iniciar seu
domínio despótico, Cody se dignou a divulgar o que
passou como uma prestação de contas anual. Foi um
curioso balanço. Não revelava os investimentos
imobiliários. Não revelava os investimentos em ações. Em
relação à receita dos cemitérios, apresentava, finalmente,
uma prova de “vida depois da morte” – os lucros eram
enormes. Seis meses antes de as cifras serem divulgadas,
Cody confidenciara a um assessor que o lucro [com os
cemitérios] andava na casa dos 50 milhões de dólares.
Quando a prestação de contas foi divulgada, a cifra caíra
para 36 milhões de dólares. Para um homem que podia
estar simultaneamente em Roma, Saigon, Casa Branca,
Vaticano e em sua mansão em Chicago, desviar cerca de
14 milhões de dólares de receita de cemitérios era
brincadeira de criança.
Cerca de 60 milhões de dólares de recursos da paróquia
estavam depositados na chancelaria de Chicago. Cody
recusava-se a revelar a quem quer que fosse onde o
5/64
dinheiro se achava investido ou quem se beneficiava dos
juros.
Um dos trunfos pessoais mais notáveis do cardeal era o
número de amigos influentes que ele continuamente
adquiria dentro da estrutura de poder da Igreja. Seus
tempos na Cúria Romana, antes da guerra, trabalhando
inicialmente no Colégio Norte-Americano, em Roma, e
depois na Secretaria de Estado, produziram ricos
dividendos para os momentos de necessidade. Cody era
alguém que, desde cedo, soube aproveitar as melhores
oportunidades. Insinuando-se nas boas graças de Pio XII e
do futuro Paulo VI, ele estabeleceu uma formidável base
de poder em Roma.
A ligação do Vaticano com Chicago era, no início dos
anos 70, um dos vínculos mais importantes com os
Estados Unidos. A maior parte dos investimentos da
Vaticano S.A. no mercado de ações americano era
canalizada pelo Continental de Illinois. Na diretoria do
banco, juntamente com David Kennedy, um amigo íntimo
de Michele Síndona, estava o padre jesuíta Raymond C.
Baumhart. As grandes somas que Cody canalizava para
Roma tornaram-se um fator importante na política fiscal
do Vaticano. Cody podia não ser capaz de controlar seus
padres mas, certamente, sabia como lidar com questões de
dinheiro. Quando o bispo que controlava a diocese de
Reno fez alguns “investimentos infelizes” e houve um
total colapso financeiro, o Vaticano pediu a Cody que o
socorresse. Cody ligou para seus amigos banqueiros e o
5/65
dinheiro foi prontamente providenciado.
Ao longo dos anos, a amizade entre Cody e Marcinkus
tornou-se particularmente estreita; tinham muito em
comum, diversos interesses envolvidos. Em Chicago, com
sua vasta população de origem polonesa
inconscientemente ajudando-o, Cody começou a desviar
centenas de milhares de dólares para Marcinkus, no
Banco do Vaticano, através do Continental Illinois.
Marcinkus encaminhava o dinheiro para os cardeais na
Polônia.
O cardeal cuidava de garantias adicionais, distribuindo a
riqueza de Chicago por determinados setores da Cúria
Romana. Quando estava na cidade – e fez mais de uma
centena de viagens a Roma –, distribuía presentes caros
para as pessoas que mais lhe poderiam ser úteis: um
isqueiro de ouro para este monsenhor, um relógio caro
para aquele bispo.
Mas as queixas que continuavam a chegar a Roma
superavam os presentes caros. Na Sagrada Congregação
para a Doutrina da Fé, que age como a polícia do
Vaticano em questão de ortodoxia doutrinária e
moralidade clerical, a pilha de cartas crescia
continuamente. Vinham não apenas de padres e freiras de
Chicago, mas também de homens e mulheres dos mais
diversos estratos. O arcebispo Jean Hamer, OP, na direção
da Congregação, analisou o problema. Proceder contra um
padre é relativamente fácil. Depois da devida
5/66
investigação, a Congregação precisa apenas procurar o
bispo da jurisdição, solicitando que o padre seja removido
da zona de controvérsia. Mas a quem recorrer quando o
procedimento é contra um cardeal?
A União dos Padres condenou Cody publicamente e
declarou que ele mentia. Acabaram aprovando um voto de
censura contra ele. Apesar disso, Roma permaneceu em
silêncio.
No início de 1976, o arcebispo Hamer não era o único
membro de destaque na Cúria Romana que conhecia os
problemas que a conexão de Chicago estava causando. Os
cardeais Benelli e Baggio – a princípio de forma
independente, e depois em conjunto – haviam chegado à
conclusão de que Cody devia ser substituído.
Foi encontrada uma fórmula depois de longas
conferências com Paulo VI. Numa das numerosas viagens
de Cody a Roma, na primavera de 1976, Benelli ofereceulhe
um posto na Cúria Romana. Ele teria um título
maravilhoso, mas absolutamente nenhum poder. Era
sabido que Cody era ambicioso e que achava que possuía
talento para escalar além do controle sobre Chicago que já
exercia. O plano do cardeal era tornar-se papa. É
indicativo da arrogância de Cody o fato de um homem
que causara tanta confusão e transtorno em Chicago
pensar seriamente que tinha possibilidades de alcançar o
pontificado. Dada tal ambição, ele teria o maior prazer em
trocar Chicago pelo controle de uma das Congregações da
5/67
Cúria que distribuíam dinheiro às dioceses necessitadas
do mundo inteiro. Cody raciocinou que poderia comprar
votos suficientes para ascender ao trono de Roma quando
surgisse a oportunidade. Benelli sabia disso e este foi o
motivo pelo qual ofereceu o cargo a Cody. Mas, na
verdade, não era isso o que Cody queria. Ele recusou. Era
necessário encontrar outra solução.
Em janeiro de 1976, poucos meses antes da confrontação
Benelli-Cody, uma delegação de Chicago visitou Jean
Jadot, o núncio apostólico em Washington. Jadot
informou que Roma estava cuidando da situação. À
medida que o ano prosseguia sem nenhuma solução, a
batalha em Chicago recomeçou. A imagem pública de
Cody se tornara, a essa altura, tão lamentável que ele
contratou uma agência de relações públicas de Chicago,
paga pela Igreja, numa tentativa de obter uma cobertura
favorável nos meios de comunicação.
Os irados padres e freiras começaram a se queixar outra
vez a Jadot, em Washington. Ele aconselhou paciência,
prometendo:
— Roma encontrará a melhor solução. Mas vocês devem
suspender os ataques públicos. Deixem o problema se
aquietar. Roma então cuidará de tudo com a discrição
necessária.
O clero aceitou as ponderações. As críticas públicas foram
atenuadas. Mas logo foram reacendidas pelo próprio
5/68
Cody, que decidiu fechar diversas escolas da cidade.
Baggio aproveitou essa questão para outra tentativa de
persuadir o Papa Paulo VI a agir de forma decisiva.
Demonstrar firmeza, para o papa, consistiu em escrever
uma carta formal a Cody, pedindo uma explicação para o
fechamento das escolas. Cody ignorou a carta e gabou-se
publicamente por isso.
Em Chicago, impotentes pela inatividade do Vaticano,
seus oponentes enviaram mais cartas a Roma. Havia
novas acusações, apoiadas por depoimentos sob
juramento e registros de irregularidades financeiras.
Muitas evidências indicavam que o comportamento de
Cody em outra área também deixava a desejar: envolvia a
sua amizade com uma mulher chamada Helen Dolan
Wilson.
Cody dissera a seu pessoal na chancelaria que Helen
Wilson era sua parente. A natureza exata do parentesco
variava; mas, de um modo geral, ela era descrita como
prima. A fim de explicar a vida elegante de Helen Wilson,
as roupas sempre na última moda, as viagens constantes, o
apartamento luxuoso, o cardeal espalhou que a prima foi
deixada "muito bem de vida" pelo falecido marido. As
acusações encaminhadas a Roma apontavam que Cody e
Helen Wilson não tinham nenhum parentesco; que o
marido de quem ela se “divorciara há muito tempo”
estava vivo na ocasião em que o cardeal o declarara morto
e que, ainda por cima, quando o ex-marido morreu, em
maio de 1969, não deixou testamento e seu único bem
5/69
terreno, um carro de oito anos, no valor de 150 dólares,
ficou para a segunda esposa.
As acusações, apresentadas a Roma em caráter
confidencial, incluíam provas de que a amizade de Cody
com Helen Wilson era antiga; que ele fizera um seguro de
vida no valor de 100 mil dólares, indicando-a como
beneficiária, e o registro de emprego dela na chancelaria
de Chicago foi falsificado pelo cardeal, para permitir que
ela obtivesse uma pensão maior. A pensão se baseava em
24 anos de trabalho para a diocese, o que era
comprovadamente falso. Havia também provas de que
Cody dera à amiga a quantia de 90 mil dólares, a fim de
que ela pudesse comprar uma casa na Flórida. O Vaticano
foi lembrado de que Helen Wilson acompanhou Cody a
Roma quando ele foi elevado a cardeal; muitas outras
pessoas, na verdade, integravam a sua comitiva. No
entanto, nenhuma delas, exceto Helen, participava da
direção da diocese de Chicago, decidia sobre os móveis e
a decoração da residência do cardeal. Foi também alegado
que Cody desviara centenas de milhares de dólares dos
fundos da Igreja para Helen.
Como se tudo isso não fosse suficiente, as acusações
ainda enumeravam as vultosas quantias relativas à
contratação de seguros das dioceses que foram enviadas
para David, o filho de Helen. David Wilson começara a se
beneficiar da generosidade do "Tio" John já em St. Louis,
em 1963. À medida que o cardeal subia, o negócio de
seguros prosperava. Foi alegado que as comissões que
5/70
David Wilson ganhou, monopolizando os seguros da
Igreja, controlados por Cody, ultrapassavam os 150 mil
dólares.
Baggio estudou cuidadosamente a lista longa e detalhada.
Houve investigações. O Vaticano é incomparável no
negócio de espionagem. Basta se considerar o número de
padres e freiras existentes no mundo, todos devendo
fidelidade a Roma. As respostas chegaram ao cardeal
Baggio, confirmando: as acusações eram procedentes. Era
então o final de junho de 1978.
Em julho de 1978, o cardeal Baggio tornou a discutir o
problema do cardeal Cody com o Papa Paulo VI, que
acabou concordando que Cody devia ser substituído. Ele
insistiu, porém, que isso devia ser feito com compaixão,
de uma maneira que permitisse a Cody manter as
aparências. Mais importante ainda, devia ser feito de
maneira a evitar qualquer publicidade escandalosa. Ficou
combinado que Cody seria informado de que devia aceitar
um coadjutor – um bispo que dirigiria a diocese, para
todos os efeitos práticos. Oficialmente, seria anunciado
que isso acontecia por causa dos problemas de saúde de
Cody, que realmente existiam. Cody teria permissão para
continuar como titular da diocese de Chicago até alcançar
a aposentadoria compulsória, aos 75 anos, em 1982.
Munido com o édito papal, o cardeal Baggio prontamente
providenciou sua viagem, fez as malas e seguiu para o
Aeroporto Fiumicino, em Roma. Ali chegando, foi
5/71
informado de que o papa desejava falar com ele, antes que
voasse para Chicago.
Paulo mais uma vez voltara atrás. Disse a Baggio que o
plano de colocar um coadjutor em Chicago para assumir o
poder só poderia ser executado se Cody concordasse.
Consternado, Baggio suplicou:
— Posso insistir, Santo Padre?
— Não, não pode. O plano só deve ser executado se Sua
Eminência concordar.
Um irado e frustrado cardeal Baggio voou para Chicago.
As redes de espionagem transmitem as informações para
um lado e outro. O cardeal Cody tinha as suas fontes na
Cúria Romana. O elemento surpresa, com que Baggio
esperava desconcertar Cody, se perdera um dia antes de
sua reunião crucial com o papa. Cody estava pronto e
esperando.
A maioria das pessoas, na situação de Cody, se
submeteria a uma pequena auto-análise, talvez a uma
reavaliação dos acontecimentos que, ao longo dos anos,
haviam levado aquele papa tão relutante à angustiante
conclusão de que o poder que o cardeal de uma diocese
como Chicago detinha, no interesse de todos, devia ser
entregue a outro. Os sentimentos do cardeal a ser
substituído haviam sido considerados, de sorte que o papa
até providenciara para que o motivo da viagem de Baggio
5/72
a Chicago fosse um segredo. Oficialmente, ele estava
seguindo para o México, a fim de cuidar das providências
finais para a Conferência de Puebla. Mas o cardeal Cody,
em nenhum momento, levou em consideração esses
melindres.
A confrontação entre Cody e Baggio ocorreu na
residência de veraneio do cardeal, na localidade do
seminário em Mundelein. Baggio expôs as evidências.
Mostrou que, ao dar presentes em dinheiro a Helen
Wilson, o cardeal incluíra quantias que pertenciam à
Igreja. Além disso, a pensão que concedera à sua amiga
era indevida. As investigações do Vaticano revelaram
uma variedade de imoralidades que certamente
envolveriam a Igreja Católica em descrédito, se se
tornassem de conhecimento público.
Cody estava longe de se mostrar arrependido, enquanto a
confrontação rapidamente evoluía para uma discussão aos
gritos. Cody pôs-se a falar de suas vultosas contribuições
a Roma, de todo o dinheiro que despejara no Banco do
Vaticano para ser usado na Polônia, das doações que
fizera ao papa durante as suas visitas ad limina (as visitas
de prestação de contas obrigatórias a cada cinco anos)...
Não falava dos míseros poucos milhares de dólares que os
outros levavam, mas de centenas de milhares de dólares.
Por toda a área do seminário, podia-se ouvir os gritos
daqueles dois príncipes da Igreja. Cody se manteve
intransigente. Outro bispo só dirigiria a diocese "por cima
do meu cadáver". Ao final, como uma agulha enguiçada
5/73
num disco, ele só podia pronunciar insistentemente uma
única frase:
— Não renunciarei ao poder em Chicago.
Baggio foi embora, temporariamente derrotado. Um Cody
desafiante, que se recusava a aceitar um coadjutor, era
uma total violação das leis canônicas. Mas tornar
publicamente conhecido que o cardeal de uma das mais
poderosas dioceses do mundo estava desafiando
abertamente a autoridade papal era, para Paulo VI,
inconcebível. Para não ter de se expor a tal, Paulo
toleraria Cody até o final de seus dias. E tais dias de
tolerância seriam poucos. Uma semana depois de receber
o relatório de Baggio, o Papa Paulo VI morreu.
Em meados de setembro, Albino Luciani já estudara em
profundidade o problema de Cody. Reuniu-se com o
cardeal Baggio e discutiu o assunto. Falou das
implicações da crise com Villot, Benelli, Felici e Casaroli.
Em 23 de setembro, teve outra reunião longa com o
cardeal Baggio. Ao final, comunicou que lhe informaria
de uma decisão nos próximos dias.
Em Chicago, pela primeira vez em sua longa e turbulenta
história, o cardeal Cody começou a sentir-se vulnerável.
Depois do conclave, ele partícularmente não dera a menor
importância ao italiano tranqüilo que sucedera a Paulo.
— Tudo continuará a mesma coisa — declarara Cody a
5/74
um dos seus amigos íntimos na Cúria.
Era justamente o que Cody queria, pois assim continuaria
a mandar e desmandar em Chicago. Agora, no entanto, as
notícias de Roma indicavam que ele subestimara
seriamente o novo papa. À medida que setembro de 1978
se aproximava do fim, John Cody convencia-se de que
Luciani agiria onde Paulo permanecera inativo. Os amigos
de Cody informaram-no de que o novo papa, com toda
certeza, levaria sua decisão até o fim, qualquer que fosse.
Citaram muitos exemplos da vida de Luciani que
revelavam uma excepcional força interior.
Na mesa de trabalho de Luciani estava um dos poucos
bens pessoais que ele estimava. Uma fotografia.
Originalmente, ficava numa moldura velha e escalavrada.
Durante a sua permanência em Veneza, um paroquiano
agradecido mandara remontar a fotografia numa moldura
de prata, cravejada com pedras semipreciosas. A
fotografia era dos pais, tendo ao fundo as Dolomitas6,
cobertas de neve. Nos braços da mãe estava Pia, bebê,
agora uma mulher casada, com seus próprios filhos.
Durante o mês de setembro de 1978, seus secretários
observaram que o papa, em diversas ocasiões, parecia
perdido em pensamentos, enquanto contemplava a
fotografia. Era uma lembrança de tempos mais felizes,
quando homens como Cody, Marcinkus, Calvi e outros
6 Consideradas um dos lugares mais bonitos da Europa, as Dolomitas são
uma cadeia de montanhas no norte da Itália.
5/75
não perturbavam sua tranqüilidade. Havia, então, tempo
para o silêncio e para pequenas coisas. Agora, Luciani
tinha a impressão de que nunca encontrava tempo
suficiente para os aspectos mais importantes de sua vida.
Estava apartado de Canale e até mesmo de sua família.
Ainda conversava ocasionalmente, por telefone, com
Edoardo e Pia, mas as visitas inesperadas haviam acabado
para sempre. A máquina do Vaticano cuidava disso. Até
mesmo Diego Lorenzi tentava afastar Pia quando ela
telefonava. Ela queria levar alguns pequenos presentes,
lembranças do norte.
— Deixe no portão — disse Lorenzi. — O papa está
muito ocupado para recebê-la.
Luciani ouviu essa conversa e pegou o telefone.
— Venha me visitar. Não tenho tempo, é verdade, mas
darei um jeito.
Almoçaram juntos. Tio Albino gozava de excelente saúde
e parecia muito animado. Durante a refeição, comentou
seu novo papel:
— Se soubesse que um dia me tornaria papa, eu teria
estudado mais. E muito difícil ser papa.
Pia compreendia como o trabalho podia ser árduo e difícil,
e tudo agravado pela obstinação da Cúria. Luciani
desejava tratar Roma como sua nova paróquia, passeando
5/76
pelas ruas como costumava fazer em Veneza e suas outras
dioceses. Mas havia problemas para um Chefe de Estado
se comportar assim. A Cúria declarou categoricamente
que a idéia não apenas era inconcebível, mas também
inexeqüível. A cidade mergulharia num caos constante se
o Santo Padre saísse a perambular pelas ruas. Luciani
abandonou a idéia, mas apenas por uma versão
modificada. Comunicou aos homens do Vaticano que
desejava visitar todos os hospitais, igrejas e centros de
refugiados em Roma, gradativamente conhecendo e
circulando por todos os setores do que considerava a sua
paróquia. Para um homem determinado a ser um papa
pastoral, a realidade em sua porta constituía um poderoso
desafio.
Roma possui uma população católica de dois milhões e
meio de habitantes. Deveria estar produzindo pelo menos
70 novos padres por ano. Quando Luciani tornou-se papa,
produzia apenas seis. A vida religiosa de Roma era
mantida pela importação de clérigos. Muitas partes da
cidade eram, na verdade, pagãs, com o comparecimento
às igrejas sendo inferior a três por cento da população.
Ali, no coração da fé, o ceticismo era grande.
A cidade que se tornara o lar de Albino Luciani, papa,
também abrigava o prefeito comunista Carlo Argan – um
prefeito comunista numa cidade cuja maior indústria, a
religião, só é equiparada ao índice de criminalidade. Um
dos novos títulos que Luciani adquirira era o de bispo de
Roma, uma cidade que não contava, há mais de um
5/77
século, com um bispo, no mesmo sentido que Milão,
Veneza, Florença ou Nápoles. E isso transparecia.
Enquanto Pia almoçava com o papa, Dom Diego estava
envolvido numa discussão prolongada com um membro
da Cúria, que se recusava a sequer considerar o desejo
papal de visitar diversas partes de Roma. Luciani
interrompeu a conversa com Pia para dizer a seu
secretário:
— Diga a ele que tem de ser feito, Dom Diego. Diga que
o papa assim o deseja.
Lorenzi transmitiu a determinação papal, mas a recusa
persistiu. Virando-se para o papa, ele informou:
— Eles dizem que não é possível, Santo Padre, porque
nunca foi feito antes.
Pia observava, fascinada, enquanto prosseguia a “partida
de tênis” do Vaticano. Luciani acabou pedindo desculpas
à sobrinha pela interrupção e disse a seu secretário que
daria as instruções necessárias a Villot. E acrescentou
para Pia, sorrindo:
— Se a Cúria Romana permitir, seu tio espera visitar o
Líbano antes do Natal.
Ele discorreu longamente sobre aquele país conturbado e
seu desejo de interferir antes que o barril de pólvora
5/78
explodisse. Depois do almoço, quando a sobrinha estava
de partida, Luciani insistiu em lhe dar de presente uma
medalha, que ganhara da mãe do presidente do México.
Poucos dias depois, em 15 de setembro, recebeu o irmão
Edoardo para jantar. Essas duas reuniões familiares
estavam destinadas a ser as últimas que Albino Luciani
teria.
Enquanto o pontificado de Albino Luciani prosseguia,
aumentava o abismo entre o papa e os observadores
profissionais do Vaticano, na proporção direta em que se
tornavam mais estreitos os laços entre o novo papa e o
público em geral. A perplexidade dos profissionais era
compreensível.
Deparados com um cardeal não curial que carecia de
reputação internacional, os profissionais concluíram que
observavam o primeiro de uma nova espécie de papa,
deliberadamente escolhido para garantir que houvesse
uma redução de poder, um papel menos significativo para
o pontificado. Não pode haver muita dúvida de que o
próprio Luciani encarava o seu papel de modo desinflado.
O essencial nessa visão de um pontificado menos
ostensivo era o papa em si. A natureza de Albino Luciani,
sua personalidade, inteligência e talentos extraordinários
fizeram com que o público em geral conferisse, ao novo
papa, maior importância, aceitando o que ele tinha a dizer
como algo de significado mais profundo. A reação pública
a Luciani demonstrava claramente a grande necessidade
5/79
de uma atuação papal ampliada [e reduzida na pompa],
exatamente o inverso do que pretendiam muitos cardeais.
Quanto mais Luciani se mostrava humilde, mais relevante
ele se tomava para os fiéis. Muitos dos que só haviam
conhecido Luciani em seus dias em Veneza estavam
profundamente surpresos com o que consideravam uma
mudança no homem. Em Vittorio Veneto, Belluno e
Canale, no entanto, não houve nenhuma surpresa. Aquele
era o verdadeiro Albino Luciani: a simplicidade, o senso
de humor, a ênfase no catecismo eram-lhe peculiares.
Em 26 de setembro, Luciani podia olhar para trás e
contemplar com satisfação o seu primeiro mês no novo
cargo. Foi um mês repleto de impactos. Suas
investigações sobre atividades corruptas e desonestas
lançaram os responsáveis por elas no medo mais
profundo. Sua impaciência com a pomposidade da Cúria
causara indignação. Em diversas ocasiões, ele abandonara
os discursos escritos oficialmente e se queixara em
público:
— O estilo é curial demais.
Ou comentava:
— Está suntuoso demais.
A Rádio Vaticano e L'Osservatore Romano raramente
reproduziam as suas palavras literalmente, mas o público
5/80
as ouvia e o mesmo acontecia com outros meios de
comunicação. Tomando emprestada uma frase de São
Gregório, o papa Luciani comentou que, ao elegê-lo, "o
imperador esperava que um macaco se transformasse em
leão". Lábios se contraíram no Vaticano, enquanto bocas
se abriam em sorriso no público. Ali estava um "macaco"
que, no transcorrer de seu primeiro mês de pontificado,
falara-lhes em latim, italiano, francês, inglês, alemão e
espanhol. Como Winston Churchill poderia ter
comentado, "que macaco"!
Em 7 de setembro, durante uma audiência particular com
Vittore Branca, às 8:00 da manhã, um horário que causou
consternação na Cúria, o amigo manifestou sua
preocupação pelo peso do pontificado. Ao que Luciani
respondeu:
- É verdade; claro que sou muito pequeno para grandes
coisas. Só posso repetir a verdade e o Evangelho, como
fazia na igrejinha da minha terra. Basicamente, os
homens precisam disso. Sou o guardião das almas, acima
de tudo. Entre o padre da paróquia de Canale e mim só
há diferença no número de fiéis. A missão, no entanto, é a
mesma: lembrar Cristo e sua palavra.
Mais tarde, nesse mesmo dia, reunido com todos os
padres de Roma, ele falou da necessidade de meditação.
Suas palavras têm um significado pungente quando se
considera quão pouco tempo e espaço um novo papa
dispõe para meditação:
5/81
Fiquei comovido na estação ferroviária de Milão
ao ver um carregador dormindo na maior
felicidade, com a cabeça num saco de carvão e as
costas numa pilastra. Os trens apitavam ao
partirem; as rodas guinchavam ao chegarem. Os
altofalantes constantemente irrompiam. As
pessoas passavam ruidosamente. Mas o homem
continuava a dormir e parecia dizer: "Façam o
que devem, mas eu preciso de alguma paz”. Nós,
sacerdotes, devemos fazer a mesma coisa. Há um
movimento contínuo ao nosso redor. Pessoas
falando, jornais, emissoras de rádio e televisão.
Com a disciplina e moderação de sacerdotes,
devemos dizer: "Além de determinados limites,
vocês não existem para mim. Sou um sacerdote
do Senhor. Preciso de um pouco de silêncio para
a minha alma. Eu me distancio de vocês para
estar com meu Deus por algum tempo”.
O Vaticano registrava os seus discursos nas audiências
gerais, quando ele falou, em sucessivas quartas-feiras, em
Fé, Esperança e Caridade. Mas a súplica de Luciani para
que essas virtudes fossem demonstradas, por exemplo, em
relação aos viciados em tóxicos, foi ignorada pela Cúria,
que controlava os meios de comunicação do Vaticano.
Em 20 de setembro, quando ele pronunciou esta frase
memorável – que era errado acreditar em “Ubi Lenin, ibi
Jerusalem” (onde Lenin está, há Jerusalém) –, a Cúria
5/82
anunciou que o papa estava rejeitando a teologia da
libertação. Não estava. Além disso, a Rádio Vaticano e
L'Osservatore Romano deixaram de registrar a importante
avaliação de Luciani de que, entre a Igreja e a salvação
religiosa, por um lado, e o mundo e a salvação humana,
por outro, "há alguma coincidência, mas não podemos
construir uma equação perfeita".
No dia 23 de setembro, um sábado, a investigação de
Luciani sobre a Vaticano S. A. estava bastante adiantada.
Villot, Benelli e outros haviam fornecido relatórios sobre
os quais o papa meditara. Neste dia, ele deixou o Vaticano
pela primeira vez, a fim de tomar posse de sua catedral
como o bispo de Roma. Apertou a mão do prefeito de
Roma, Argan, trocaram discursos. Depois da missa que se
seguiu, com a maioria da Cúria presente, o papa referiuse,
por diversas vezes, aos problemas íntimos com que se
defrontava. Aludindo aos pobres, o setor da população
que mais falava ao seu coração, Luciani disse:
- Como afirmou o diácono romano Lourenço7, esses são
7 Lourenço virou mártir e a tradição diz que, graças à sua trágica morte –
foi queimado vivo - todos em Roma tornaram-se cristãos. Era o ano de
258 quando o imperador Valerian decretou que todos os clérigos
fossem executados, por enforcamento. Lourenço acabou pior, torrado,
porque, conta-se, enganou o imperador. Pediu-lhe três dias para juntar
toda a riqueza da Igreja num só lugar, para entregá-la ao imperador.
(como tal Igreja, de “cristãos primitivos”, já era então rica assim... é,
claro, uma história muito mal contada.) Findo aquele prazo, o que
Lourenço juntara não tinha sido ouro e prata, mas os pobres. Chamou
Valeriam e, apontando para eles, apresentou ao imperador “a
verdadeira riqueza da Igreja”. Furioso, Valerian ordenou aquele fim
5/83
os verdadeiros tesouros da Igreja. Mas devem ser
ajudados por aqueles que podem, pelos que têm mais e
são mais, sem serem humilhados e ofendidos pelas
riquezas ostensivas, pelo dinheiro esbanjado em coisas
inúteis e não investido em empreendimentos que
beneficiem a todos, na medida do possível.
Mais adiante, no mesmo discurso, ele virou-se e olhou
diretamente para os homens do Banco do Vaticano,
reunidos a um lado, passando a falar sobre as dificuldades
de guiar e governar:
- Embora tenha sido bispo de Vittorio Veneto, e em
Veneza tivesse detido o posto por mais de 20 anos,
reconheço que não aprendi o trabalho muito bem. Em
Roma, eu me colocarei na escola de São Gregório, o
Grande, que escreveu que (o pastor) deve, com
compaixão, estar próximo de cada um que a ele está
confiado; independentemente de seu posto, deve se
considerar no mesmo nível que o rebanho, mas sem temer
exercitar os direitos de sua autoridade contra os
iníquos...
Sem conhecimento do que acontecia no Vaticano, o
público limitou-se a assentir sabiamente. Mas a Cúria
sabia exatamente a que o papa se referia. Era um
pronunciamento elegante e indireto, ao melhor estilo do
Vaticano, sobre os eventos futuros.
para Lourenço. Bela alegoria...
5/84
As mudanças pairavam no ar, e na aldeia do Vaticano
havia especulações frenéticas. O bispo Marcinkus e pelo
menos dois de seus assessores mais chegados, Mennini e
De Strobel, estavam para cair. Isso era considerado um
fato inevitável. O que mais agitava as mentes curiais era
que havia também rumores de outras substituições.
No domingo, 24 de setembro, quando um visitante
particular aos aposentos papais foi identificado por um
atento monsenhor como sendo Lino Marconato, o
excitamento na aldeia alcançou um novo auge. Marconato
era diretor do Banco San Marco. Sua presença nos
aposentos papais indicava que já havia sido encontrado
um sucessor para o Banco Ambrosiano?
Na verdade, porém, a reunião foi sobre questões bancárias
menos exóticas. O Banco San Marco tomara-se o banco
oficial da diocese de Veneza depois que Luciani, furioso,
encerrara todas as contas na Banca Cattolica del Veneto.
Agora, Luciani precisava encerrar suas contas pessoais no
San Marco, sabendo que nunca mais voltaria a residir
naquela cidade. Marconato encontrou o seu quase excliente
na melhor saúde. Conversaram cordialmente sobre
Veneza. Luciani deu instruções para que o dinheiro em
sua conta de Patriarca fosse transferido para o seu
sucessor.
A preocupação com as mudanças iminentes era intensa.
Em muitas cidades. Por muitas pessoas.
5/85
Outro que tinha um interesse velado no que Luciani podia
estar prestes a fazer era Michele Sindona. A batalha de
quatro anos de Sindona para evitar sua extradição dos
Estados Unidos para a Itália caminhava, em setembro de
1978, para o clímax. Pouco antes, em maio desse mesmo
ano, um juiz federal americano decidira que o siciliano,
que se tornara cidadão suíço, deveria ser recambiado a
Milão, a fim de enfrentar o julgamento pelo que fizera.
Em sua ausência, Sindona fora condenado a três anos e
meio de prisão, mas sabia que essa sentença soaria uma
clemência depois que os tribunais italianos acabassem
com ele. Apesar da investigação federal, ele ainda se
achava livre de qualquer acusação nos Estados Unidos. O
colapso do Franklin Bank foi seguido pela prisão de
diversos indivíduos, sob várias acusações mas, em
setembro de 1978, o Tubarão permanecia incólume. Seu
maior problema, na ocasião, estava na Itália.
A bateria de advogados de um milhão de dólares
persuadira os tribunais americanos a não decretarem a
extradição, até que os procuradores federais provassem
que havia, em Milão, provas concretas das diversas
acusações formuladas contra Sindona.
De maio em diante, os procuradores se empenhavam ao
máximo para obter essas provas. Sindona, ajudado pela
Máfia e por seus companheiros da P2, empenhava-se com
igual afinco para dar um sumiço nas provas. Quando
setembro de 1978 se aproximava do fim, ele ainda tinha
5/86
muitos "problemas".
O primeiro era o depoimento prestado, no processo de
extradição, por uma testemunha, Nicola Biase, um antigo
empregado de Sindona. Seu depoimento era considerado
perigoso. Sindona procurou tomá-lo “seguro". Discutiu o
problema com a família mafiosa Gambino e um pequeno
contrato foi fechado. Não chegava a ser particularmente
sinistro: Biase, a mulher, a família e seu advogado seriam
ameaçados de morte. Se sucumbissem à ameaça e Biase
refutasse o depoimento, tudo ficaria por aí. Mas se Biase
se recusasse a cooperar com a Máfia, então a família
Gambino e Sindona planejavam "revisar" a situação. O
que não antecipava nada de bom para a saúde de Biase. O
contrato de menos de mil dólares seria trocado por outro
mais condizente. Luigi Ronsisvalle e Bruce McDowall
foram os escolhidos para executar o contrato. Ronsisvalle
é um assassino profissional.
Outro contrato também foi discutido com Ronsisvalle. A
Máfia informou-o de que Michele Sindona queria a morte
do promotor federal John Kenney.
Nada demonstra tão claramente a mentalidade de Michele
Sindona quanto o contrato para liquidar John Kenney. O
promotor que atuava no processo de extradição era o
homem que comandava a pressão do governo americano
para acabar com a permanência de Sindona nos Estados
Unidos. Sindona estava convencido de que o problema
terminaria se Kenney fosse eliminado. Funcionaria como
5/87
uma advertência ao governo de que ele, Michele Sindona,
não admitia mais a pressão. A investigação seria suspensa.
Não haveria mais irritantes comparecimentos ao tribunal,
não haveria mais tentativas absurdas para enviá-lo de
volta à Itália. O mecanismo de pensamento, neste caso, é
cem por cento o da Máfia siciliana. É uma filosofia que
funciona repetidamente na Itália. Faz parte essencial da
Solução Italiana. As autoridades podem ser intimidadas e
de fato o são. Os investigadores que substituem um colega
assassinado não se mostram tão ansiosos em esclarecer
um caso. Sindona raciocinou que qualquer coisa que
funcionava em Palermo também daria certo em Nova
York.
Luigi Ronsisvalle, embora fosse um assassino
profissional, relutou em aceitar o contrato. O pagamento
de 100 mil dólares era ótimo. Mas Ronsisvalle,
compreendendo o sistema americano muito mais do que
Sindona, achava que não teria oportunidade alguma de
gastá-lo. Se Kenney fosse assassinado, haveria ondas, a
repercussão seria tremenda. Ronsisvalle começou a
procurar alguém que, agindo em nome da família
Gambino, julgasse ter possibilidades de sobrevivência
depois de assassinar um promotor federal americano.
Sindona e seus associados concentraram-se no problema
seguinte, Carlo Bordoni, ex-associado nos negócios e
amigo intimo de Sindona. Bordoni já enfrentava diversas
acusações pela falência do Franklin Bank. Poderia aceitar
um acordo [proposto pelas autoridades] para redução de
5/88
sua pena, em troca de um depoimento fatal contra o
Tubarão. Por isso, ficou decidido que o tratamento
previsto para Nicola Biase, sua família e seu advogado
seria também aplicado a Carlo Bordoni.
Os problemas restantes de Sindona estavam na Itália,
especialmente no Vaticano. Se Marcinkus caísse, Calvi
também estaria perdido. Se Calvi afundasse, Sindona
também seria arrastado. A luta de quatro anos para evitar
a extradição seria encerrada com a sua derrota. Um
homem que julgava ser possível resolver seus problemas
nos Estados Unidos com o assassinato de um promotor
federal não pensaria que a grande ameaça com que se
defrontava na Itália poderia ser eliminada com a morte de
um papa?
Sindona, Calvi, Marcinkus e o cardeal Cody: em 28 de
setembro de 1978 estava evidente que todos esses homens
seriam destruídos, se Albino Luciani resolvesse
prosseguir nos cursos de ação que já indicara. Outros que
seriam diretamente afetados: Licio Gelli e Umberto
Ortolani. Para esses lideres da P2, perder Calvi seria
equivalente à Loja Maçônica perder seu caixa-pagador.
Em 28 de setembro, um outro nome foi acrescentado aos
que seriam seriamente afetados pelas ações propostas por
Luciani. O novo nome era o do cardeal Jean Villot,
secretário de Estado do Vaticano.
Na manhã de 28 de setembro, depois de tomar café com
leite e comer um croissant, Luciani já estava à sua mesa
5/89
de trabalho antes das oito horas da manhã. Havia muito o
que fazer.
O primeiro problema que ele enfrentou foi L'Osservatore
Romano. Durante o mês anterior, ele tivera motivos para
se queixar do jornal em diversas ocasiões. Depois de
vencida a batalha envolvendo os pomposos termos "nós" e
“nosso”, que o jornal antes insistia em empregar no lugar
da escolha mais humilde, de Luciani, pela primeira pessoa
do singular, cada nova edição diária proporcionava mais
motivos de irritação para Luciani. O jornal aderia
rigorosamente aos discursos escritos pela Cúria e ignorava
os comentários pessoais que o papa acrescentava. Até
mesmo se queixava quando jornalistas italianos
reproduziam exatamente o que o papa dissera, em vez de
se limitarem ao que L'Osservatore Romano achava que
ele deveria ter dito. Havia agora novos problemas, de
natureza muito mais séria.
Diversos cardeais da Cúria descobriram horrorizados que,
pouco antes do conclave, Albino Luciani fora entrevistado
a respeito do nascimento de Louise Brown, conhecida
como o "primeiro bebê de proveta". A entrevista se
realizara três dias antes da morte do Papa Paulo VI, mas
suas opiniões só se tornaram amplamente conhecidas
depois que a matéria saiu em Prospettive nel Mondo, após
sua eleição. Os partidários da linha dura na questão do
controle da natalidade ficaram consternados ao lerem as
opiniões daquele que era agora o papa.
5/90
Luciani começara cautelosamente, deixando bem claro
que estava expressando apenas a sua opinião pessoal, já
que, como todo o mundo, "esperava para saber quais
seriam os autênticos ensinamentos da Igreja, depois que
os experts fossem consultados". Os eventos subseqüentes
criaram uma situação em que os ensinamentos autênticos
da Igreja, naquele ou em qualquer outro assunto,
passariam a estar totalmente dentro da competência de
Luciani.
Na entrevista, Luciani manifestou um entusiasmo
comedido pelo nascimento. Estava preocupado com a
possibilidade de "fábricas de bebês", uma apreensão
profética, tendo em vista os acontecimentos atuais na
Califórnia, onde mulheres fazem filas para serem
fecundadas pelo esperma de ganhadores do Prêmio Nobel.
Numa mensagem pessoal aos pais de Louise Brown,
Albino Luciani disse:
- Seguindo o exemplo de Deus, que deseja e ama a vida
humana, eu também envio os meus melhores votos de
felicidades para a criança. Quanto aos pais, não tenho o
direito de condená-los; se agiram com boas intenções e
de boa fé, talvez até tenham um grande mérito aos olhos
de Deus pelo que decidiram e pediram aos médicos que
fizessem.
Depois, ele chamou a atenção para um pronunciamento de
Pio XII, que poderia pôr o ato de fecundação artificial em
5/91
conflito com a Igreja. Considerando a opinião de que cada
indivíduo tem o direito de escolher por si mesmo,
manifestou sua opinião, que repousava na própria essência
de seu pensar em relação a muitos problemas morais:
- Concordo que a consciência individual deve ser sempre
seguida, quer comande, quer proíba; o indivíduo, porém,
deve sempre procurar desenvolver uma consciência
íntegra.
Os setores do Vaticano – os que acreditam que a única
consciência íntegra é aquela moldada exclusivamente por
eles – começaram a se pronunciar. Houve reuniões
secretas. Os que compareciam a essas reuniões achavam
que, “evidente”, era preciso deter Luciani. Falaram da
"traição a Paulo", o que, para certas mentes romanas
refinadas, é uma maneira elegante de dizer "eu discordo".
Quando notícias do cauteloso diálogo entre a Secretaria de
Estado do Vaticano e o Departamento de Estado
americano começaram a vazar, aquele grupo resolveu
entrar em ação. A informação subseqüente de que uma
delegação americana envolvida com o controle da
natalidade teria uma audiência com o papa impingiu uma
urgência adicional aos homens no Vaticano, que
consideravam que a Humanae Vitae deveria ser a última
palavra sobre o assunto.
Em 27 de setembro, apareceu na primeira página de
L'Osservatore Romano um longo artigo intitulado
5/92
"Humanae Vitae e a Moral Católica". Era do cardeal Luigi
Ciappi, OP, teólogo do círculo papal. O cardeal Ciappi foi
o teólogo pessoal de Paulo VI e Pio XII. Com um autor
assim, o artigo parecia ter a aprovação pessoal do novo
papa. Fora publicado antes em Laterano, para "celebrar" o
10° aniversário da Humanae Vitae. Sua republicação era
uma tentativa deliberada de bloquear qualquer mudança
na questão do controle da natalidade que Albino Luciani
pudesse desejar. O artigo é uma sucessão de louvores à
Humanae Vitae. Há muitas citações de Paulo VI, mas
nenhuma palavra de Luciani, confirmando que partilhava
as opiniões de Paulo ou Ciappi. O motivo para isso é
simples: Ciappi não discutira o artigo com Luciani. Na
verdade, em 27 de setembro de 1978, o cardeal Ciappi
ainda aguardava uma audiência particular com a novo
papa. Luciani só tomou conhecimento do longo artigo e
das opiniões que ele continha quando o leu no jornal.
Na segunda página, ele encontrou outro esforço da Cúria
para solapar a sua avaliação sobre o assunto: mais um
artigo, em três colunas, intitulado "O Risco da
Manipulação na Criação da Vida". Era uma condenação
dogmática do "bebê de proveta" Louise Brown e de toda
fertilização artificial. Esse artigo também não continha
nenhuma referência a Luciani. A Cúria sabia muito bem
que, apesar de todas as alegações de L'Osservatore
Romano de ser apenas semi-oficial, tais artigos seriam
recebidos pelo mundo como sendo opiniões do novo papa.
Era o início da batalha aberta.
5/93
Em 28 de setembro, pouco depois de oito horas da manhã,
o papa telefonou para seu secretário de Estado, Jean
Villot. Exigiu uma explicação completa sobre a
publicação dos dois artigos. Telefonou depois para o
cardeal Felici, em Pádua, onde faria retiro espiritual.
Luciani passara a usar Felici, cada vez mais, como uma
caixa de ressonância para suas idéias. Sabia que suas
opiniões divergiam em muitas coisas, mas sabia, também,
que Felici reagiria com absoluta franqueza e honestidade.
O papa estava igualmente consciente de que poucos
conheciam tanto as maquinações da Cúria quanto Felici,
decano do Sacro Colégio.
Luciani manifestou a Felici sua irritação pelos dois artigos
e depois disse:
— Lembra-se de que, há alguns dias, avisou-me de que a
Cúria desejava conter minha exuberância natural?
— Foi apenas um palpite, Santidade.
— Talvez possa fazer a gentileza de, em meu nome,
retribuir tal “bondade”. Diga àquele jornalzinho para
conter suas opiniões sobre tais questões. Os editores são
como os papas. Nem um, nem o outro, é indispensável.
Depois de marcar um encontro com Felici para mais tarde,
naquele mesmo dia, Luciani passou ao problema seguinte,
a Igreja da Holanda. Cinco dos sete bispos holandeses
planejavam adotar uma opinião moderada nas questões do
aborto, homossexualismo e ordenação de padres casados.
5/94
Entre os cinco estava o cardeal Willebrands, aquele que
oferecera palavras de conforto a Luciani durante o
conclave. Os cinco tinham a oposição de dois bispos
extremamente conservadores: Gijsens, de Roermond, e
Simonis, de Rotterdam. Uma reunião na Holanda, em
novembro de 1978, prometia ser o campo de batalha que
revelaria as divisões profundas ao público holandês.
Havia um outro problema, que tinha sido exposto, num
relatório detalhado, ao falecido Papa Paulo VI. Os jesuítas
moviam uma campanha contra o teólogo e professor
dominicano Edward Schillebeeckx, famoso no mundo
inteiro. Em oposição semelhante àquela impingida a seu
contemporâneo suíço, Hans Kung, os conservadores
desejavam silenciar o que recebiam como as idéias
radicais de Schillebeeckx.
O temido Índice dos Livros Proibidos foi abolido por
Paulo VI. Sua morte deixara, sem solução, o problema de
como a Igreja Católica controlaria seus pensadores mais
qualificados. No passado, Luciani tomara emprestada uma
frase de Hans Kung para condenar os "teólogos de
tocaia". Mas esse não era o caso de pensadores como
Kung e Schillebeeckx, que manifestavam apenas um
profundo desejo de levar a Igreja de volta a suas origens,
uma inclinação que Albino Luciani aprovava plenamente.
Poucos minutos antes das dez horas, Luciani pôs o
relatório de lado e se concentrou em aspectos mais felizes
de seu cargo: uma série de audiências. Receberia primeiro
5/95
um grupo que incluía aquele que Luciani promovera à
presidência do Cor Unum, cardeal Bernard Gantin. O
papa ficou radiante com a presença forte e juvenil de
Gantin que, na sua opinião, representava o futuro da
Igreja. Durante a conversa, Luciani comentou:
— É apenas Jesus Cristo que devemos oferecer ao
mundo. Não teríamos razão nem propósito, nunca
seríamos ouvidos, se fôssemos além disso.
Outro que teve uma audiência naquela manhã foi Henri de
Riedmatten. Quando circularam por Roma, pouco depois
do conclave, notícias de que Luciani escrevera ao papa
Paulo, antes da Humanae Vitae, exortando-o a não
confirmar a proibição à anticoncepção artificial, foi
Riedmatten quem classificou tais rumores como "total
fantasia". Sua conversa com o papa, em 28 de setembro,
foi sobre o seu trabalho como secretário do Cor Unum,
mas Luciani advertiu-o a não se precipitar a outras
"negativas".
— Meu relatório sobre o controle da natalidade não
chegou ao seu conhecimento?
Riedmatten murmurou algumas palavras sobre uma
possível confusão.
— Deve-se tomar cuidado, padre Riedmatten, para não
se manifestar publicamente até que toda a confusão
esteja esclarecida. Caso precise de uma cópia do meu
5/96
relatório, tenho certeza de que se pode providenciar.
Riedmatten agradeceu ao papa profusamente. E manteve
um silêncio sensato a partir daí, enquanto Luciani discutia
os problemas do Líbano com o cardeal Gantin. Ele
informou a Gantin que, no dia anterior, conversara sobre a
planejada visita ao Líbano com o patriarca Hakin, cuja
diocese de rito greco-melquita se estendia não apenas pelo
Líbano invadido, mas também pela Síria invasora.
Luciani também recebeu em audiência, naquela manhã,
um grupo de bispos das Filipinas, que fazia a sua visita ad
limina. Diante de alguns que tinham de enfrentar a
realidade do cotidiano imposto pelo presidente Marcos8,
Luciani falou de um assunto do fundo de seu coração: a
evangelização.
Perfeitamente consciente das dificuldades que aqueles
bispos enfrentariam se ele falasse abertamente contra o
presidente Marcos, Luciani preferiu, em vez disso,
discorrer sobre a importância da evangelização. Lembroulhes
da visita do papa Paulo às Filipinas e disse:
- Num momento em que ele [papa Paulo] resolveu falar
sobre os pobres, sobre justiça e paz, direitos humanos,
libertação econômica e social; num momento em que ele
empenhou a Igreja efetivamente no esforço para atenuar
a miséria, não permaneceu – e não podia permanecer –
8 Marcos foi presidente das Filipinas de 1965 a 1986.
5/97
em silêncio em relação ao "bem maior", que é a plenitude
da vida no Reino do Céu.
A mensagem foi claramente compreendida, não apenas
pelos bispos, mas também pela família Marcos.
Depois das audiências matutinas, Luciani teve uma
reunião com o cardeal Baggio. Chegara a diversas
decisões e, então, estava prestes a transmitir duas delas a
ele.
A primeira era sobre o problema do cardeal John Cody, de
Chicago. Depois de avaliar todos os fatos, Luciani
decidira que Cody devia ser afastado. Ele esperava que
isso se efetuasse à maneira clássica do Vaticano, sem
nenhuma publicidade desagradável. Ele disse a Baggio
que Cody deveria ter a oportunidade de renunciar por
motivos de saúde. Isso não acarretaria comentários
adversos da imprensa, porque a saúde de Cody não estava
mesmo muito boa. Se Cody se recusasse a renunciar, não
seria submetido a escândalo por ser removido contra sua
vontade, mas um coadjutor seria designado. Ou seja, outro
bispo seria escolhido para assumir todo o poder efetivo e
dirigir a diocese. Luciani tinha certeza de que, diante
dessa alternativa, Cody optaria por se retirar com toda a
dignidade. Se insistisse em continuar, então não haveria
outro jeito. Seria destituído de toda e qualquer
responsabilidade perante a diocese. Luciani foi bastante
claro e objetivo. Não se tratava de um pedido, nem mera
sugestão. Um coadjutor seria nomeado, se Cody não
5/98
quisesse sair.
Baggio sentiu a maior satisfação, pois o problema
finalmente se resolveria. Mas não ficou tão satisfeito com
a decisão seguinte que Luciani anunciou. Veneza estava
sem um patriarca. O papa ofereceu o posto a Baggio.
Muitos se sentiriam honrados com tal oferta. Mas isso não
aconteceu com Baggio. Ficou furioso. Achava que seu
futuro, a curto prazo, estava em liderar a Conferência de
Puebla, no México. Acreditava que o futuro da Igreja se
encontrava no Terceiro Mundo. No longo prazo, seu lugar
era em Roma, no centro da ação. Em Veneza, estaria fora
de visibilidade e, o que era ainda mais importante, fora
das mentes, quando chegasse o momento de se formular
os planos futuros. A sua recusa em aceitar Veneza
surpreendeu Luciani.
A obediência ao papa e ao pontificado fora incutida em
Luciani desde os seus primeiros dias no seminário, em
Feltre. Tal obediência era de natureza incontestável. Ao
longo dos anos, à medida que sua carreira progredia,
passara a questionar as decisões papais, especialmente nas
questões da Vaticano S.A. e da Humanae Vitae. Mas seria
inconcebível para Luciani liderar uma rebelião
publicamente, mesmo em questões tão importantes.
Luciani foi aquele que, a pedido de papa Paulo, escreveu
diversos artigos em apoio à sua linha de atuação. Ao
escrever um desses artigos, sobre o divórcio, entregou-o a
5/99
seu secretário, padre Mario Senigaglia, com o seguinte
comentário:
— Tenho certeza de que isto me criará muitas dores de
cabeça quando for publicado, mas o papa pediu.
Recusar um pedido do papa, da maneira arrogante como
Baggio agora o fazia, era algo inadmissível. Ele e Baggio
tinham noções de valores completamente diferentes:
Luciani considerava o que era melhor para a Igreja
Católica; Baggio considerava o que era melhor para si
próprio.
Havia diversos motivos para que o papa concluísse que
Baggio devia ser transferido de Roma para Veneza. Um
deles era um nome na lista de maçons que Luciani
recebera: Baggio, nome maçônico Seba, número de Loja
85/2640. Registrado em 14 de agosto de 1957.
Luciani fizera a si próprio mais indagações, depois de sua
conversa com o cardeal Felici. Um comentário de Felici o
preocupava:
— Alguns da lista são mesmo maçons, outros não.
O problema de Luciani era distinguir os genuínos dos
falsos. As investigações ajudaram a produzir alguns
esclarecimentos.
O encontro entre Baggio e Luciani foi-me descrito como
5/100
"uma discussão muito violenta, com toda a violência e ira
partindo inteiramente de Sua Eminência, enquanto o
Santo Padre permanecia calmo".
Calmo ou não, Luciani tinha um problema sem solução na
hora do almoço. Veneza continuava sem um patriarca e
Baggio insistia que seu lugar era em Roma. Um pensativo
Luciani começou a tomar sua sopa.
O veranico que Roma vinha desfrutando desde o início do
mês foi substituído por um tempo mais frio naquela
quinta-feira. Depois de uma breve sesta, Luciani resolveu
restringir seu exercício diário a andar entre quatro
paredes. Começou a perambular pelos corredores. O papa
voltou a seu gabinete às 15:30 e deu diversos telefonemas.
Conversou com o cardeal Felici, em Pádua, e com o
cardeal Benelli, em Florença. Discutiu os acontecimentos
da manhã, inclusive a confrontação com Baggio, depois
falou de sua reunião seguinte, que seria com Villot. As
diversas decisões a que Luciani chegara estavam prestes a
ser transmitidas ao secretário de Estado.
Luciani e Villot sentaram-se para tomar um chá de
camomila. Numa tentativa de se aproximar mais de seu
secretário de Estado, o papa, de vez em quando,
conversava com Villot em francês. Era um gesto que o
cardeal de St Amande-Tallende apreciava. Ficara
impressionado com a rapidez com que Luciani assimilou
as funções do pontificado. Essa boa impressão suplantou
os domínios do escritório da Secretaria de Estado para
5/101
alcançar diversos amigos e antigos colegas de Luciani.
Monsenhor Da Rif, ainda trabalhando em Vittorio Veneto,
foi um dos muitos que receberam comentários sobre o
progresso de Luciani como papa.
Do cardeal Villot para baixo, todos admiravam a maneira
de trabalhar do papa Luciani. Sua capacidade de chegar à
raiz dos problemas, de tomar decisões rápidas e firmes.
Todos se impressionavam com a sua capacidade de
executar múltiplas tarefas. Era evidente que se tratava de
alguém que tomava decisões e as mantinha. Não cedia a
pressões. A meu ver, essa capacidade de manter as suas
decisões era uma das características mais notáveis de
Albino Luciani.
Durante o final da tarde de 28 de setembro, Jean Villot
obteve uma longa demonstração dessa capacidade que
tanto o impressionara durante o último mês. O primeiro
problema a ser discutido era o Istituto per le Opere di
Religione, o Banco do Vaticano. Luciani dispunha agora
de muitas informações detalhadas. O próprio Villot já
apresentara um relatório preliminar. Luciani também
obtivera outras informações do segundo homem da
Secretaria de Estado, arcebispo Giuseppe Caprio, assim
como de Benelli e Felici.
Para a bispo Paul Marcinkus, que desempenhara um papel
tão ativo para ajudar Calvi a assumir o controle da Banca
Cattolica, era mais um dos muitos problemas pelos quais
teria de prestar contas. Villot comunicou ao papa que as
5/102
investigações no banco inevitavelmente tornar-se-iam de
conhecimento público. A imprensa italiana se tornava
cada vez mais curiosa e uma grande reportagem acabara
de ser publicada.
A revista Newsweek contava com excelentes fontes no
Vaticano. Soubera que, antes do conclave, diversos
cardeais haviam pedido a Villot um relatório completo
sobre o Banco do Vaticano. Também informou que sua
"fonte bem situada" dizia que havia um movimento no
Vaticano para afastar Marcinkus. Citou literalmente tal
fonte na Cúria: "Há um movimento para tirá-lo do banco.
Ele será, provavelmente, nomeado bispo auxiliar".
Luciani sorriu.
— A Newsweek diz para mim quem eu colocarei no lugar
de Marcinkus?
Villot sacudiu a cabeça. Enquanto a conversa continuava,
Luciani deixou bem claro que não tinha a menor intenção
de deixar Marcinkus na Cidade do Vaticano, muito menos
no Banco do Vaticano. Depois de avaliá-lo pessoalmente
numa entrevista de 45 minutos no início do mês, Luciani
concluiu que Marcinkus seria mais bem aproveitado como
bispo auxiliar em Chicago. Não manifestou sua intenção a
Marcinkus, mas a polidez fria demonstrada para com o
homem de Cícero não passara despercebida. Voltando a
seu escritório no banco, depois da entrevista, Marcinkus
confidenciou a um amigo:
5/103
— Talvez eu não fique aqui por muito mais tempo.
A Calvi e a outros colegas do banco, ele disse:
— Não se pode esquecer que este papa tem idéias
diferentes do anterior. Haverá mudanças por aqui.
Grandes mudanças.
Marcinkus estava certo. Luciani comunicou a Villot que
Marcinkus deveria ser removido imediatamente. Não
dentro de uma semana ou um mês. Mas no dia seguinte.
Marcinkus deveria tirar uma licença. Um posto
conveniente lhe seria escolhido, assim que o problema do
cardeal Cody estivesse resolvido.
Villot foi informado de que Marcinkus seria substituído
por monsenhor Giovanni Angelo Abbo, secretário da
Prefeitura de Assuntos Econômicos da Santa Sé. Como
um elemento fundamental no tribunal financeiro do
Vaticano, monsenhor Abbo certamente levaria para o
novo cargo uma grande competência financeira.
A inspiração dos primeiros 100 dias do papa João com
toda certeza galvanizara Albino Luciani. As garras do
leão, que seus íntimos esperavam ver reveladas,
apareceram para Villot ao cair da noite de 28 de setembro.
Despretensioso e gentil, Luciani, antes do pontificado,
pareceu muito menor do que o seu 1,75m de altura. Para
5/104
muitos observadores ao longo dos anos, ele deu a
impressão de se fundir com o papel de parede. Seu
comportamento era tão discreto e sereno que, em uma
grande reunião, muitos não notariam a sua presença. Mas
não houve nenhuma dúvida para Villot sobre a presença e
firmeza de Luciani naquele dia. Luciani disse-lhe:
- Há outras mudanças no Istituto per de Opere di
Religione [o Banco do Vaticano] que desejo empreender
imediatamente. Mennini, De Strobel e monsenhor De
Bonis serão afastados. Agora. De Bonis será substituído
por monsenhor Antonetti. Discutirei o preenchimento das
outras duas vagas com monsenhor Abbo. Quero que
todos os nossos vínculos com o grupo do Banco
Ambrosiano sejam cortados, o mais depressa possível. Na
minha opinião, porém, será impossível conseguir isso
com as pessoas que atualmente controlam a situação.
O padre Magee fez-me este comentário:
— Ele sabia o que queria. Era bastante claro e objetivo
em relação ao que queria. E a maneira com que se
empenhava para alcançar seus objetivos era muito
delicada.
A "delicadeza" residia nas explicações oferecidas por
Luciani a Villot. Os dois sabiam que Marcinkus, Mennini,
De Strobel e De Bonis estavam ligados não apenas a
Calvi, mas também a Sindona. O que restava não dito,
mais tarde não teria como ser transmitido de forma
5/105
deturpada.
O cardeal Villot anotou as mudanças sem muitos
comentários. Tomara conhecimento de muitas coisas, ao
longo dos anos. Muitos no Vaticano consideravam-no
ineficaz. Para Villot, no entanto, tratava-se de uma
estratégia que ele deliberadamente adotava: a de olhar
para o outro lado. Era o que se chamava de técnica de
sobrevivência na aldeia do Vaticano.
Luciani passou para o problema de Chicago e sua
conversa com Baggio sobre o ultimato que seria
apresentado ao cardeal John Cody. Villot manifestou sua
aprovação. Como Baggio, ele considerava Cody uma
chaga supurada na Igreja nos Estados Unidos. O fato de o
problema ser finalmente resolvido proporcionava uma
profunda satisfação ao secretário de Estado. Luciani disse
que gostaria que houvesse sondagens, através do núncio
apostólico em Washington, sobre um possível sucessor
para Cody. E comentou:
— Traiu-se a confiança dos fiéis de Chicago. Devemos
cuidar para que aquele que venha a substituir Sua
Eminência tenha a capacidade de conquistar os corações
e as mentes de todos na diocese.
Luciani discutiu a recusa de Baggio em aceitar a Sé de
Veneza. Estava determinado a garantir que Bggio fosse
para onde ele mandasse.
5/106
— Veneza não é um tranqüilo mar de rosas. Precisa de
um homem com a força de Baggio. Eu gostaria que você
conversasse com ele. Diga-lhe que todos devemos fazer
algum sacrifício neste momento. Talvez seja bom
lembrar-lhe de que eu não tinha a menor vontade de
assumir este posto.
Tal argumento teria valor limitado para aquele que
desejou, tão veementemente, tornar-se o sucessor de
Paulo [O autor refere-se ainda a Baggio, que perdeu a
disputa no conclave justamente para Luciani].
Villot decidiu diplomaticamente por não reproduzir tal
recomendação a Baggio.
Luciani, em seguida, informou a Villot de outras
mudanças que planejava fazer. O cardeal Pericle Felici se
tornaria o Vigário de Roma, substituindo o cardeal Ugo
Poletti, que tomaria o lugar de Benelli como arcebispo de
Florença. Benelli se tornaria o secretário de Estado.
Assumiria o cargo de Villot.
Villot analisou as mudanças propostas, que incluíam a sua
própria "renúncia". Estava velho e cansado. Além disso,
achava-se também gravemente doente. Uma doença que
não era atenuada com os dois maços de cigarros que
fumava diariamente. Villot já deixara bem claro, no final
de agosto, que desejava uma aposentadoria antecipada.
Agora, conseguia o que desejava um pouco mais cedo do
que previra. Haveria, é claro, um período de transição;
mas, para todos os efeitos e propósitos, seu poder estava
5/107
acabando.
O fato de Luciani propor substituí-lo por Benelli deve ter
sido particularmente irritante para Villot. Benelli foi, no
passado, o subordinado mais graduado de Villot, e o
relacionamento entre os dois, longe de ser dos mais
felizes.
Villot estudou as anotações que fizera sobre as mudanças
propostas. Albino Luciani, largando as suas próprias
anotações, serviu mais chá para ambos. Villot disse:
— Pensei que estivesse considerando Casaroli para me
substituir.
— E considerei mesmo, por algum tempo. Acho que a
maior parte do seu trabalho é extraordinária, mas
partilho das restrições de Giovanni Benelli a algumas de
suas iniciativas, recentemente, com relação à Europa
Oriental.
Luciani aguardou algum sinal ou palavra de estímulo. O
silêncio prolongou-se. Durante todo o tempo que havia
passado com o papa, Villot jamais abandonara seu
formalismo; sempre havia a máscara, sempre havia a
frieza. Luciani tentara, diretamente e também por
intermédio de Felici e Benelli, injetar um pouco de
cordialidade em suas relações com Villot. Mas persistiu a
frieza profissional que era a característica do cardeal. O
silêncio acabou sendo rompido por Luciani, que
perguntou:
5/108
— E então, Eminência?
— Sua Santidade é o papa. Tem absoluta liberdade para
decidir.
— Sei disso. Mas qual é sua opinião?
Villot deu de ombros.
— Essas decisões agradarão a alguns e deixarão outros
consternados. Há cardeais na Cúria Romana que se
empenharam a fundo por sua eleição e agora se sentirão
traídos. Acharão que as mudanças, as nomeações que
apontou, são contrárias aos desejos do falecido Santo
Padre.
— O falecido Santo Padre por acaso planejava fazer
nomeações vitalícias? Quanto aos cardeais que alegam
terem-se empenhado com afinco por minha eleição, quero
que compreendam uma coisa. Já disse isso muitas vezes;
mas, certamente, preciso continuar a insistir. Não
procurei a eleição para papa. Não queria ser papa. Não
se pode apontar um único cardeal a quem eu tenha
proposto qualquer coisa. Não há ninguém a quem eu
tenha persuadido, por qualquer forma, a votar em mim.
Não era o meu desejo. Não foi minha obra. Há homens
na Cidade do Vaticano que esqueceram seu propósito.
Reduziram este lugar a um mero mercado. É por isso que
estou efetuando as mudanças.
— Dirão que traiu ao papa Paulo.
— Será dito também que traí a João. Traí a Pio. Cada
5/109
um formulará sua própria lista, de acordo com suas
necessidades e conveniências. Minha preocupação é não
trair a Jesus Cristo.
A conversa se prolongou por quase duas horas. Villot se
retirou às 19:30. Voltou ao seu escritório que ficava
próximo, sentou-se a uma escrivaninha e pôs-se a estudar
as mudanças. Depois, abriu uma gaveta e retirou outra
lista. Talvez fosse apenas coincidência. Todo o pessoal
clerical que Luciani estava removendo constava na lista
de supostos maçons divulgada por Pecorelli, o
desencantado membro da P2: Marcinkus, Villot, Poletti,
Baggio, De Bonis. E todos os apontados por Luciani para
substituí-los estavam ausentes daquela lista: Benelli,
Felici, Abbo, Antonetti.
O cardeal ViIlot largou a lista e estudou outro documento
que estava em sua mesa. Era a confirmação final de que o
encontro entre o comitê americano que cuidava do
controle populacional e Albino Luciani seria realizado em
24 de outubro. Um grupo de representantes do governo
dos Estados Unidos, que desejava mudar a avaliação da
Igreja Católica em relação à pílula anticoncepcional, se
encontraria dentro de algumas semanas com um papa que
desejava efetuar a mesma mudança. Villot levantou-se e
deixou os papéis à vista, descuidadamente. O leão
realmente revelara as suas garras.
Assim que terminou a reunião com Villot, às 19:30,
Albino Luciani pediu ao padre Diego Lorenzi para entrar
5/110
em contato com o cardeal Colombo, em Milão. Lorenzi
informou-o, um momento depois, de que Colombo só
estaria disponível às 20:45. Enquanto Lorenzi voltava à
sua mesa de trabalho, o papa recebeu o padre Magee.
Juntos, recitaram a parte final do breviário diário, em
inglês. Quando faltavam 10 minutos para as 20:00,
Luciani sentou-se para jantar, com Magee e Lorenzi.
Absolutamente tranqüilo, apesar da prolongada reunião
com Villot, ele conversou jovialmente, enquanto as irmãs
Vincenza e Assunta serviam o jantar de sopa, vitela,
vagens frescas e saladas. Luciani tomou alguns goles de
água enquanto Lorenzi e Magee bebiam vinho tinto.
Na extremidade da mesa, o padre Lorenzi lembrou-se, de
repente, de que o pontificado de Luciani já ultrapassara o
mais curto da história papal. Estava prestes a fazer um
comentário a respeito quando o papa começou a mexer no
seu relógio novo. Era um presente do secretário de Paulo,
monsenhor Macchi, depois dos comentários curiais de que
o papa não deveria usar um relógio velho e avariado – tal
suscitava uma imagem negativa. E assim se reduzia o
papa à mesma condição de um vendedor de carros de
segunda mão, que precisa tomar cuidado para que sua
calça esteja sempre impecavelmente passada. Na última
vez que Luciani tinha recebido a visita do irmão, Edoardo,
presenteou-o com o relógio velho, dizendo:
— Não é permitido ao papa usar um velho relógio usado
que precisa constantemente de corda. Você se ofenderia
se eu o desse a você?
5/111
Luciani entregou seu relógio novo a Magee, para que
fosse acertado pelo noticiário da televisão. Faltava um
minuto para as 20:00.
Logo depois de um jantar agradável e tranqüilo, o papa foi
para seu gabinete, a fim de examinar as anotações que
usara durante a sua conversa com Villot. Às 20:45,
Lorenzi fez a ligação para o cardeal Colombo, em Milão.
O cardeal recusou-se a conceder-me uma entrevista, mas
outras fontes indicam que eles conversaram sobre as
mudanças que Luciani pretendia efetuar. Claramente, não
havia em Luciani hesitação. O cardeal Colombo recordou
depois, sem fazer outros comentários:
— Ele me falou por bastante tempo, num tom
absolutamente normal, pelo qual não se podia inferir
doença física alguma. Estava cheio de serenidade e
esperança. Sua saudação final foi "reze".
Lorenzi anotou que a conversa telefônica terminou por
volta das 21:15. Luciani examinou, então, o discurso que
pretendia fazer para os jesuítas no sábado, dia 30. Antes,
ele telefonara para o Superior Geral dos Jesuítas, padre
Pedro Arrupe, avisando-o de que diria algumas coisas a
respeito de disciplina. Ressaltou que uma parte do
discurso seria relacionada com as mudanças que acabara
de efetuar.
5/112
Todos com razão se preocupam com os grandes
problemas econômicos e sociais que conturbam a
humanidade e que dizem respeito diretamente à
vida cristã. Ao se encontrar uma solução para
esses problemas, no entanto, há que se distinguir
entre as tarefas dos padres e as dos religiosos
leigos. Os padres devem sempre estimular e
inspirar os leigos a cumprir seus deveres, mas
não devem assumir seu lugar, negligenciando a
sua tarefa específica de evangelização.
Largando o discurso, pegou as anotações sobre as
mudanças drásticas que discutira anteriormente com
Villot. Foi até a porta de seu gabinete, abriu-a e,
deparando-se com o padre Magee e o padre Lorenzi,.
despediu-se, dizendo:
— Buona notte. A domani. Se Dio vuole. (Boa noite, Até
amanhã. Se Deus quiser.)
Faltavam alguns minutos para as 21:30. Albino Luciani
fechou a porta do gabinete. Pronunciara as suas últimas
palavras. Seu cadáver seria encontrado na manhã
seguinte.
As circunstâncias exatas dessa descoberta deixam bem
claro que o Vaticano tentou encobrir. Começou com uma
mentira, depois continuou com uma teia de mentiras.
Mentiram sobre pequenas coisas. Mentiram sobre grandes
coisas. Mas todas as mentiras tinham o mesmo propósito:
5/113
encobrir o fato de que Albino Luciani, Papa João Paulo I,
foi assassinado em algum momento entre 21:30 de 28 de
setembro e 4:30 de 29 de setembro de 1978.
Albino Luciani foi o primeiro papa a morrer sozinho em
mais de um século... Fazia muito mais tempo ainda desde
que um papa fora assassinado.
Cody. Marcinkus. Villot. Calvi. Gelli. Sindona. Pelo
menos um desses homens decidira-se por um curso de
ação, que foi executado no final da noite de 28 de
setembro, ou durante a madrugada do dia seguinte. E tal
advinha da conclusão de que a “solução italiana” tinha de
ser aplicada. O papa devia morrer.
5/114
papais, 24 horas depois de sua eleição, o gesto simbolizou
todo o seu pontificado. Ar fresco e raios de sol penetraram
por uma Igreja Católica que se tomara cada vez mais
escura e sombria durante os últimos anos de Paulo VI.
Luciani, que se descrevera com franqueza durante os seus
dias em Veneza – “Sou apenas um homem pobre,
acostumado às coisas pequenas e ao silêncio” –, via-se
agora obrigado a se confrontar com a grandeza do
Vaticano e as intrigas da Cúria. O filho de um pedreiro era
agora o Chefe Supremo de uma religião cujo fundador foi
o filho de um carpinteiro.
Muitos dos especialistas em Vaticano, que nem sequer
levaram em consideração a possibilidade de Luciani ser
eleito, aclamaram-no “o papa desconhecido”. Ele era
conhecido o bastante por 99 cardeais para que confiassem
5/1
o futuro da Igreja a ele – um homem sem treinamento
diplomático ou experiência curial. O considerável número
de outros cardeais da Cúria fora rejeitado. Em suma, toda
a Cúria fora rejeitada, em favor de um homem quieto e
humilde, que prontamente anunciou que preferia ser
chamado de pastor, em vez de pontífice. As aspirações de
Luciani logo se tomaram claras: uma revolução total.
Estava determinado a levar a Igreja de volta às suas
origens, de volta à simplicidade, honestidade, ideais e
aspirações de Jesus Cristo. Outros antes dele tiveram o
mesmo sonho, apenas para que a realidade impingida por
seus conselheiros acabasse prevalecendo. Como poderia
aquele homem pequeno e modesto realizar ao menos os
primórdios da transformação material e espiritual que
seria necessária?
Ao elegerem Albino Luciani, os cardeais fizeram diversas
declarações profundas sobre o que queriam e o que não
queriam. Claramente, não queriam um papa reacionário,
que deixasse sua marca no mundo com exemplos
desconcertantes de intelectualismo incompreensível.
Pareceria que haviam buscado causar um impacto no
mundo, ao elegerem um homem cuja bondade, sabedoria
e humildade exemplares seriam manifestadas a todos. E
foi justamente o que conseguiram. Um pastor empenhado
nos cuidados pastorais.
Seu novo nome foi considerado muito comprido pelos
romanos, que prontamente passaram a tratá-lo de forma
5/2
mais íntima como “Gianpaolo”, uma corruptela que o
papa aceitou alegremente e adotou para assinar cartas,
apenas para tê-las devolvidas pelo secretário de Estado,
Villot, a fim de serem corrigidas para o título formal. Uma
dessas cartas, escrita pessoalmente por Luciani, foi para
agradecer aos agostinianos pela hospitalidade antes do
conclave. Esse ato simples era-lhe típico. Dois dias depois
de eleito papa, tornando-se o líder espiritual de mais de
800 milhões de católicos, Luciani encontrava tempo para
agradecer a seus antigos anfitriões.
Outra carta, escrita no mesmo dia, era mais sombria.
Escrevendo a um padre italiano, cujo trabalho admirava,
Luciani revelou estar consciente do fardo que agora lhe
pertencia exclusivamente: “Não sei como pude aceitar. Já
estava arrependido no dia seguinte, mas era tarde demais”.
Um dos seus primeiros atos, ao entrar nos aposentos
papais, fora telefonar para sua terra natal no norte. Falou
com um atônito monsenhor Ducoli, um antigo amigo e
colega de trabalho, agora bispo de Belluno. Disse ao bispo
que sentia “saudade da minha gente”. Depois, falou com o
irmão, Edoardo: “Veja só o que me aconteceu”. Foram
atos particulares; outros, de natureza mais pública,
incitariam a imaginação do mundo.
Para começar, havia o seu sorriso. Somente com essa
expressão facial de alegria, ele comoveu milhões de
pessoas. Era impossível não simpatizar com o homem e
experimentar uma sensação agradável. Paulo VI, com sua
angústia, afastara milhões de pessoas. Albino Luciani
5/3
inverteu dramaticamente a tendência. Recuperou o
interesse do mundo pelo pontificado. E, quando o mundo
ouviu o que havia por trás daquele sorriso, o interesse
aumentou. O sorriso não pode ser encontrado em um livro
qualquer que alegue tornar o leitor um cristão melhor, mas
eficazmente projetava a alegria que aquele homem
descobrira no cristianismo. O que Luciani demonstrou,
numa extensão jamais conhecida antes num papa, foi a
capacidade de se comunicar, quer pessoalmente ou pelo
rádio, imprensa e televisão. Era um trunfo jamais sonhado
para a Igreja Católica.
Luciani era uma lição objetiva de como vencer a batalha
pelo coração, mente e alma da humanidade. Pela primeira
vez na memória viva, um papa falava a seu povo numa
maneira e estilo que todos podiam compreender. O
suspiro de alívio dos fiéis foi quase audível. Os
murmúrios de satisfação continuaram por todo o veranico
de 1978. Luciani começou a levar a Igreja pela longa
caminhada de volta ao Evangelho.
O público rapidamente transformou esse homem
carismático num tremendo sucesso. Os observadores do
Vaticano simplesmente não sabiam como analisá-lo.
Ofereceram opiniões imediatas e doutas sobre a escolha
do nome papal, falando em “continuidade simbólica”.
Luciani involuntariamente demoliu tudo isso no primeiro
domingo, ao dizer “João me fez um bispo, Paulo me fez
um cardeal”. Não havia ali muita continuidade simbólica.
Os especialistas escreveram artigos especulativos sobre o
5/4
que o novo papa poderia fazer ou deixar de fazer nas mais
variadas questões. Uma parcela considerável dessas
especulações se tornara supérflua por um comentário do
papa João Paulo, em seu primeiro discurso:
— Desejo dedicar ao Concílio Vaticano Segundo meu
total ministério, como padre, como mestre, como pastor...
Não havia mais necessidade de especular; bastava
consultar as diversas resoluções do concílio.
No domingo, 10 de setembro, perante uma Praça de São
Pedro apinhada, Luciani falou em Deus e disse:
— Ele é nosso Pai; mais do que isso, é nossa Mãe.
Os especialistas italianos do Vaticano, em particular,
ficaram frenéticos. Num país notório por seu machismo,
sugerir que Deus era uma mulher foi julgado por alguns
como a confirmação do fim do mundo. Houve muitos
debates ansiosos sobre esse quarto membro da Trindade
até que Luciani, gentilmente, informou que citara Isaías.
A Mãe Igreja, dominada pelos homens, sossegou.
Antes, em 6 de setembro, durante uma Audiência Geral,
membros do círculo papal, agitando-se em torno do Santo
padre de uma maneira que lembrava moscas irritantes ao
redor de um cavalo, exibiram publicamente o seu
embaraço, enquanto Luciani mantinha 15 mil pessoas
completamente fascinadas. Entrando quase a correr no
5/5
Salão Nervi, inteiramente lotado, ele falou sobre a alma.
Não havia nada de extraordinário nisso. Excepcionais
foram apenas a maneira e o estilo:
- Um homem foi comprar um carro novo na
revendedora. O vendedor deu-lhe alguns
conselhos: “É um carro excelente, mas deve
tratá-lo corretamente. Ponha a melhor
gasolina no tanque, o melhor óleo no motor”.
Ao que o cliente respondeu: “É impossível.
Não suporto o cheiro de gasolina e óleo.
Encherei o tanque com champanha, que me
agrada muito mais, farei a lubrificação com
geléia”. O vendedor deu de ombros. “Faça
como quiser, mas depois não venha se queixar
se terminar numa vala com o carro. O Senhor
fez uma coisa similar conosco: deu-nos este
corpo, animado por uma alma inteligente, uma
boa vontade. Disse que esta máquina é boa,
mas deve ser bem tratada.
Enquanto a elite do Vaticano estremecia por tal
profanidade, Albino Luciani sabia perfeitamente que suas
palavras eram transmitidas ao mundo inteiro. Espalhe
bastantes sementes, algumas germinarão. Ele fora
presenteado com o mais poderoso púlpito da terra. O uso
que fez dessa dádiva foi profundamente comovente.
Muitos na Igreja falam ad nauseam das “boas novas do
Evangelho”, enquanto dão a impressão de que comunicam
aos ouvintes desastres absolutos. Quando Luciani falava
5/6
em boas novas, era evidente, por toda a sua atitude, que se
tratava mesmo de boas novas.
Em diversas ocasiões, Luciani tirou um menino do coro
para partilhar o microfone com ele, ajudando-o não
apenas com a audiência dentro do Salão Nervi. mas
também com a audiência mais vasta lá fora. Outros líderes
mundiais eram propensos a pegar crianças no colo e beijálas.
Mas ali estava um homem que falava com as crianças
e, o que era ainda mais extraordinário, ouvia e respondia
ao que tinham a dizer.
Ele citava Mark Twain, Jules Verne e o poeta italiano
Trissula. Falava de Pinóquio. Já tendo comparado a alma
a um carro, fez então uma analogia entre a oração e o
sabonete.
- A oração bem usada seria um sabonete maravilhoso,
capaz de transformar todos nós em santos. Não somos
todos santos porque não temos usado esse sabonete o
suficiente.
A Cúria estremecia, em especial determinados bispos e
cardeais. O público escutava.
Poucos dias depois da eleição, ele enfrentou mais de mil
representantes da imprensa internacional. Censurou-os de
maneira gentil por se concentrarem excessivamente nos
aspectos triviais do conclave e não no seu verdadeiro
significado, mas reconheceu que o problema deles não era
novo e recordou o conselho que um editor italiano dera a
5/7
um de seus repórteres:
- Lembre-se de que o público não quer saber o que
Napoleão III disse a Guilherme da Prússia. Quer saber se
ele usava calça bege ou vermelha e se fumava um
charuto.
Luciani obviamente sentia-se à vontade com os repórteres.
Comentara mais de uma vez, ao longo de sua vida, que
teria sido jornalista se não fosse um padre. Seus dois
livros e numerosos artigos indicam um talento que poderia
se comparar ao de muitos correspondentes presentes.
Recordando o comentário do falecido cardeal Mercier –
de que o apóstolo Paulo seria um jornalista se estivesse
vivo hoje –, o novo papa demonstrou uma profunda
compreensão da importância dos diversos meios de
comunicação na ampliação do possível papel moderno do
apóstolo:
— Não apenas um jornalista. Possivelmente chefe da
Reuters. Não apenas chefe da Reuters, acho que ele
pediria tempo no ar na televisão italiana e na NBC.
Os correspondentes adoraram. A Cúria não achou muito
engraçado. Todos os comentários acima referidos foram
omitidos da transcrição oficial do discurso. O que
permanece para a posteridade é um discurso insípido
preparado de antemão, escrito por autoridades do
Vaticano, do qual o papa se afastou muitas vezes; um
testemunho mudo e inexato do espírito e personalidade de
5/8
Albino Luciani. Essa censura do Vaticano ao papa tornouse
um fato constante durante o mês de setembro de 1978.
A coletânea de cartas literárias de Luciani,
imaginativamente endereçadas a personalidades, era
encontrada em forma de livro na Itália desde 1976. Foi
um grande sucesso. Agora, com seu autor transformado
no líder de 800 milhões de católicos, o potencial
comercial não passou despercebido ao mundo editorial.
Executivos começaram a aparecer nos escritórios de Il
Messaggero, em Pádua. Esse mensário católico estava
“sentado” numa mina de ouro, descontados os royalties
do autor. Para o autor, a verdadeira recompensa era saber
que as idéias e comentários das cartas seriam lidos por
uma audiência mundial. O fato de que só seriam lidos
porque ele se tornara papa não tinha a menor importância
para Luciani. Mais sementes eram espalhadas. Mais
germinariam.
Um dos melhores resultados da eleição do novo papa, que
se tornou patente nos dias subseqüentes ao conclave, foi
que os intérpretes, observadores, especialistas e analistas
do Vaticano se tornaram dispensáveis. Só era necessária
uma reprodução literal das palavras de Luciani. Havendo
isso, as intenções do novo papa mostravam-se bastante
claras.
Em 28 de agosto, foi anunciado o início de sua revolução
papal. Assumiu a forma de uma declaração do Vaticano
de que não haveria coroação, pois o novo papa se
5/9
recusava a ser coroado. Não haveria a sedia gestatoria, a
cadeira em que se carregava o papa; não haveria tiara
cravejada de esmeraldas, rubis, safiras e diamantes. Não
haveria penas de avestruz; não haveria a cerimônia de seis
horas. Em suma, foi abolido o ritual com que a Igreja
demonstrava que ainda ansiava pelo poder temporal.
Albino Luciani foi obrigado a se empenhar numa longa e
tediosa discussão com os tradicionalistas do Vaticano,
antes que sua vontade prevalecesse. Luciani, que jamais
usou o pomposo “nós”, a primeira pessoa do plural
monárquica, decidira que o pontificado imperial, com
suas ostentações de grandeza temporal, seria substituído
por uma Igreja que mais se assemelhasse aos conceitos de
seu fundador. A coroação converteu-se numa missa
simples. O absurdo de transportar o pontífice a balançar
numa cadeira, como um califa das Mil e Uma Noites, foi
suplantado por um pastor supremo, subindo calmamente
os degraus do altar. Com esse gesto, Luciani aboliu mil
anos de história e fez a Igreja voltar-se mais um pouco
para o caminho de Jesus Cristo.
A tiara de pedras preciosas foi substituída pelo pálio, uma
estola branca de lã sobre os ombros do papa. O monarca
dera passagem ao pastor. A era da Igreja pobre começara
oficialmente.
Entre os 12 chefes de Estado – e outros representantes de
dezenas de países –, havia aqueles a quem o papa
preferiria evitar. Em particular, pedira à sua Secretaria de
Estado que não convidasse os líderes da Argentina, Chile
5/10
e Paraguai para a sua missa inaugural. Mas o
departamento do cardeal Villot já expedira os convites,
sem antes consultar Albino Luciani. Presumiram que
haveria a coroação tradicional, e a lista de convidados
refletia tal suposição.
Conseqüentemente, participaram da missa na Praça de
São Pedro o general Videla, da Argentina, o ministro do
exterior chileno e o filho do presidente do Paraguai,
representantes de países em que os direitos humanos não
eram considerados prioridades. Manifestantes italianos
protestaram contra a presença deles e houve quase 300
prisões. Posteriormente, Albino Luciani seria criticado
pela presença desses homens na missa. Os críticos não
sabiam que toda a culpa deveria ser atribuída ao cardeal
Villot. Quando os comentários de censura apareceram,
Luciani não estava em condições de responder e Villot se
manteve em silêncio.
Na audiência particular que se seguiu à missa, Luciani, o
filho de um socialista que abominava todos os aspectos do
fascismo, não deixou nenhuma dúvida ao general Videla
de que herdara as opiniões do pai. Falou especialmente de
sua preocupação com “Los Desaparecidos”, os milhares
de pessoas que sumiram misteriosamente do território
argentino. Ao final da audiência de 15 minutos, o general
já desejava ter atendido às pressões de última hora, de
emissários do Vaticano, para que não fosse a Roma.
A audiência com o vice-presidente Mondale, dos Estados
5/11
Unidos, foi um encontro mais agradável. Mondale
entregou ao novo papa um livro contendo a primeira
página de mais de 50 jornais americanos, noticiando a
eleição de Luciani. Um presente mais singular foi uma
primeira edição do livro Vida no Mississippi, de Mark
Twain. Era evidente que alguém no Departamento de
Estado americano trabalhara bem.
Assim começou o pontificado de João Paulo I, com
objetivos e aspirações definidos. Antes da missa
inaugural, ele falara ao Corpo Diplomático credenciado
no Vaticano. Sua própria equipe diplomática empalideceu
visivelmente quando ele comentou, em nome de toda a
Igreja Católica:
- Não temos bens temporais para trocar, não temos
interesses econômicos a discutir. Nossas possibilidades
de intervenção são específicas e limitadas, de um caráter
especial. Não interferem com os assuntos puramente
temporais, técnicos e políticos, que são problemas de
seus governos. Assim, nossas missões diplomáticas junto
às suas mais altas autoridades civis, longe de serem uma
sobrevivência do passado, constituem um testemunho do
nosso profundo respeito pelo poder temporal legítimo e
do nosso intenso interesse pelas causas humanas que esse
poder temporal deve promover.
“Não temos bens temporais para trocar...” Era uma
sentença pública de morte à Vaticano S.A. Tudo o que
restava indefinido era o número de dias e meses em que
5/12
continuaria a funcionar. Os homens dos mercados
financeiros internacionais, em Milão, Londres, Tóquio e
Nova York, analisaram com o maior interesse as palavras
de Luciani. Se ele realmente falava a sério, então haveria
muitas mudanças. Tais mudanças não se limitariam ao
movimento de pessoas deixando o Banco do Vaticano e a
APSA mas, inevitavelmente, incluiria uma drástica
redução das atividades da Vaticano S.A. Os agentes dos
mercados financeiros internacionais poderiam ganhar
bilhões se adivinhassem o rumo pelo qual enveredaria
essa nova filosofia do Vaticano. Albino Luciani queria
uma Igreja pobre para os pobres. O que ele planejava
fazer com os que haviam criado uma Igreja rica? O que
planejava fazer com a riqueza?
A humildade de Luciani foi responsável pelo nascimento
de diversas concepções errôneas. Muitos observadores
concluíram que esse homem, obviamente santo, era
simples e sem complexidade alguma, carecendo dos
talentos culturais de seu antecessor, Paulo VI. A realidade
era que Luciani possuía uma cultura muito mais rica e
uma sofisticação muito maior do que Paulo. Seus talentos
eram tão excepcionais que esse homem extraordinário
podia parecer completamente plebeu. Tinha a
simplicidade que só é adquirida por uns poucos, a
simplicidade que deriva de uma profunda sabedoria.
Uma das peculiaridades de nossa época é que a
humildade e gentileza são sempre encaradas como
indicadores de alguma espécie de fraqueza. Muitas
5/13
vezes, indicam justamente o oposto – uma grande
força.
Quando o novo papa comentou que andara folheando o
Anuário do Vaticano para descobrir quem fazia o que,
muitos na Cúria sorriram e concluíram que ele seria
facilmente manobrável, alguém que não teriam a menor
dificuldade para controlar. Havia outros que sabiam que
não era bem assim.
Os que conheciam Albino Luciani há muitos anos
observavam e esperavam. Conheciam a recôndita fibra, a
força para tomar decisões difíceis ou impopulares. Muitos
me falaram desses atributos ocultos. Monsenhor Tiziano
Scalzotto, padre Mario Senigaglia, monsenhor Da Rif,
padre Bartolomeo Sorge e padre Busa são apenas cinco
dos muitos que me falaram sobre a força interior do Papa
João Paulo I. O padre Busa comentou:
- Sua mente era tão forte, tão sólida e tão contundente
quanto um diamante. Era lá que estava o seu poder real.
Compreendia e possuía a capacidade de chegar ao cerne
de um problema. Não podia ser sufocado. Enquanto todos
aplaudiam o papa risonho, eu esperava que ele tirare
fuori le unghie – revelasse as suas garras. Era uma
pessoa de tremendo poder.
Sem um grupo com ligação estreita com ele, já que
nenhuma “Máfia” veneziana substituiu a turma de Milão
5/14
nos aposentos papais, Albino Luciani precisaria de toda a
sua força interior se quisesse evitar se tornar o prisioneiro
da Cúria do Vaticano.
Nos primeiros dias depois do conclave, a máquina
governamental do Vaticano não se manteve ociosa. No
domingo, 27 de agosto, após seu discurso do meio-dia à
multidão, Luciani almoçou com o cardeal Jean Villot.
Como secretário de Estado de Paulo VI desde abril de
1969, Villot construiu uma reputação de serena
competência. Durante o conclave, Villot, como
camerlengo, atuou praticamente como substituto do papa,
ajudado pelos comitês de cardeais. Luciani pediu a Villot
que continuasse como secretário de Estado por “mais um
pouco, até que eu encontre meu caminho”. Villot, aos 73
anos de idade, esperava o momento de aposentar-se.
Luciani nomeou Villot para seu secretário de Estado e
confirmou todos os chefes curiais em seu cargos
anteriores. Mas a Cúria sabia perfeitamente que era
apenas uma medida temporária. Sempre agindo como o
homem prudente das montanhas, o novo papa queria
ganhar mais algum tempo. “Deliberação. Decisão.
Execução”: se a Cúria queria saber como agiria o novo
papa, bastava ler sua “Carta a São Bernardo”. Muitos o
fizeram. E também efetuaram uma pesquisa mais
aprofundada sobre o Papa João Paulo I. O que
descobriram causou consternação em diversos setores do
Vaticano e, em outros, um grande prazer e expectativa.
A morte do papa Paulo VI fizera aflorar muitas
5/15
hostilidades existentes na aldeia do Vaticano. A Cúria
Romana, o corpo administrativo central da Igreja, vinha se
consumindo numa guerra interna há vários anos. Somente
a habilidade de Paulo pôde evitar que a maioria das
batalhas chegasse ao conhecimento público. Agora,
depois de sua rejeição no conclave, a Cúria em guerra
alcançou os aposentos papaís. Albino Luciani queixou-se
amargamente da situação a alguns amigos que foram
visitá-lo:
— Quero aprender depressa o ofício de papa, mas quase
ninguém explica problemas e situações de uma maneira
meticulosa e imparcial. Passo a maior parte do tempo a
escutar comentários desfavoráveis sobre tudo e sobre
todos.
A outro amigo do norte, ele disse:
— Já notei que há duas coisas que parecem estar em
escassez no Vaticano: honestidade e uma boa xícara de
café.
Havia tantas facções curiais quanto garotos no coro da
Capela Sistina. Havia a Cúria do papa Paulo VI,
totalmente empenhada em garantir não apenas que a
memória do falecido papa fosse continuamente
homenageada, mas também que não houvesse desvio
algum de suas opiniões e pronunciamentos.
Havia a Cúria que era favorável ao cardeal Giovanni
5/16
Benelli e a Cúria que desejava vê-lo no inferno. O Papa
Paulo VI elevara Benelli a subsecretário de Estado, o
segundo homem depois do cardeal Villot. Ele se tornara
rapidamente o homem forte do papa, assegurando o
cumprimento de sua política. Paulo o transferiu para
Florença e o promoveu, a fim de protegê-lo durante os
seus últimos anos. Agora, seu protetor estava morto, mas
os punhais afiados permaneciam desembainhados. Luciani
era papa por causa de homens como Benelli.
Havia facções curiais que favoreciam os cardeais Baggio,
Felici e Bertoli e outras que se opunham a eles. Havia
facções que queriam mais poder central e controle, outras
que queriam menos.
Durante toda a sua vida, Albino Luciani evitara as visitas
ao Vaticano. Reduzira seus contatos com a Cúria Romana
ao mínimo. Em decorrência, antes de sua eleição, tinha,
provavelmente, menos inimigos na Cúria do que qualquer
outro cardeal. Mas era uma situação que mudaria
rapidamente. Ali estava um papa que considerava a “mera
execução” como a função básica da Cúria. Ele acreditava
numa maior divisão do poder com os bispos do mundo
inteiro e planejava descentralizar a estrutura do Vaticano.
Recusando-se a ser coroado, ele contrariara os
tradicionalistas. Outra inovação que não podia granjear
para Luciani a estima dos membros da Cúria de
mentalidade materialista foi a sua instrução para que o
salário extra, que automaticamente se pagava por ocasião
da eleição de um novo papa, fosse reduzido à metade.
5/17
É claro que havia muitos entre os três mil membros da
Cúria que lealmente serviriam e amariam o novo papa
mas, neste mundo, as forças negativas muitas vezes
predominam. Assim que o resultado da eleição foi
conhecido, a Cúria ou determinados setores dela entraram
em ação. Em poucas horas, uma edição especial de
L'Osservatore Romano estava nas ruas, com uma
biografia completa do novo papa. A Rádio Vaticano já
estava transmitindo detalhes similares.
Como uma ilustração da melhor maneira de influenciar o
pensamento do mundo sobre um líder de Estado até então
desconhecido, o tratamento que L'Osservatore Romano
dispensou a Albino Luciani é definitivo. Deliberadamente,
aquele jornal referiu-se a uma pessoa que só existia na
mente reacionária e opressiva de quem atribuiu certos
detalhes biográficos a Luciani. Tal edição em particular
de L'Osservatore Romano também nos dá idéia do motivo
pelo qual o jomal semi-oficial do Vaticano tem sido
comparado negativamente ao Pravda. Aproveitando os
“fatos oficiais”, muitos jornalistas, pressionados por
prazos improrrogáveis, elaboraram descrições de um
homem que não existia. The Economist, para citar apenas
um entre centenas de exemplos, disse o seguinte a respeito
do novo papa: “Ele não se sentiria muito à vontade em
companhia do Dr. Hans Kung”. No entanto, uma pesquisa
revelaria que Luciani e Hans Kung mantinham uma
correspondência cordial e freqüentemente enviavam livros
um ao outro. Pesquisa adicional mostraria que Luciani,
5/18
muitas vezes, citara Kung favoravelmente em seus
sermões. Praticamente todos os jornais e revistas do
mundo que publicaram perfis do novo papa cometeram
erros similares.
Ler a edição especial de L'Osservatore Romano era ter
notícias de um novo papa que seria ainda mais
conservador do que Paulo VI. A distorção se estendia por
diversas opiniões sobre Luciani, mas uma, em particular,
é extremamente relevante quando se considera a vida e a
morte de Albino Luciani: a que envolve o controle da
natalidade. O jornal do Vaticano falou de Luciani como se
fosse um intrépido e incondicional partidário da Humanae
Vitae1:
Ele efetuou um estudo meticuloso da questão
da paternidade responsável, consultou
especialistas médicos e teólogos. Alertou para
a grande responsabilidade da Igreja ao se
pronunciar sobre uma questão tão delicada e
controvertida.
Isso era exato e verdadeiro. O que vem depois é que era
completamente incorreto:
Com a publicação da encíclica Humanae
Vitae, não podia mais haver margem para
dúvidas. O bispo de Vittorio Veneto foi um dos
1 Encíclica do Papa Paulo VI, promulgada em julho de 1968, que
condena o controle artificial de natalidade.
5/19
primeiros a divulgá-la e a insistir, aos que
estavam confusos com o documento, que seus
ensinamentos eram incontestáveis .
Quando a Cúria entra em ação, é uma máquina
formidável. Sua eficiência e rapidez deixariam atordoados
outros serviços civis. Homens da Cúria Romana
apareceram no Colégio Gregoriano e removeram de lá
todos os estudos e documentos referentes ao período de
pesquisas de Luciani. Outros membros da Cúria foram a
Veneza, Vittorio Veneto, Belluno. Onde quer que Luciani
estivera, a Cúria ia até lá. Todas as cópias do documento
de Luciani sobre o controle da natalidade foram
confiscadas e imediatamente guardadas nos Arquivos
Secretos do Vaticano, juntamente com sua tese sobre
Rosmini e diversos outros escritos. Pode-se dizer que o
processo de beatificação de Albino Luciani começou no
dia em que ele foi eleito papa. Seria igualmente correto
afirmar que o trabalho da Cúria para encobrir o verdadeiro
Albino Luciani começou no mesmo dia.
O que determinados setores da Cúria compreenderam,
com um profundo choque, foi que, ao elegerem Albino
Luciani, os cardeais haviam-lhes dado um homem que
não deixaria a questão do controle da natalidade ser
encerrada pela Humanae Vitae. Um estudo cuidadoso, por
membros da Cúria, sobre o que Luciani dissera, não
apenas a seus paroquianos em público, mas também a
seus amigos e colegas em particular, prontamente indicou
que o novo papa era favorável ao controle artificial da
5/20
natalidade. O quadro impreciso, falso, que L'Osservatore
Romano pintara de um homem que aplicava
rigorosamente os princípios da Humanae Vitae foi o tiro
inicial, num contra-ataque destinado a conter Albino
Luciani nos limites da encíclica de seu antecessor. Tiro
aquele rapidamente seguido por outra rajada.
A agência noticiosa UPI descobriu que Luciani fora a
favor de uma decisão do Vaticano que permitisse o
controle artificial da natalidade. Os jornais italianos
também divulgaram matérias sobre o documento de
Luciani encaminhado ao papa Paulo pelo cardeal Urbani,
de Veneza, com uma recomendação favorável à pílula
anticoncepcional. A Cúria apressadamente localizou o
padre Henri de Riedmatten, que foi o secretário da
Comissão papal de Controle da Natalidade. Ele alegou
que relatórios apontando que Luciani se opusera a uma
encíclica que condenasse o controle artificial da
natalidade não passariam de uma “fantasia”. Riedmatten
também informou que Luciani nunca fora membro da
comissão, o que era verdadeiro. Depois negou que Luciani
houvesse algum dia escrito uma carta ou relatório sobre o
assunto, enviado ao papa Paulo.
Essa negativa, e a maneira como foi apresentada, é um
exemplo da duplicidade que predomina na Cúria. O
documento de Luciani chegou a Roma por intermédio do
cardeal Urbani e, portanto, com a sua aprovação. Negar
que existisse um documento assinado por Luciani era
tecnicamente correto. Negar que Luciani, em nome dos
5/21
outros bispos da região do Veneto, tivesse encaminhado
tal documento ao papa era uma mentira iníqua.
Ironicamente, nas três primeiras semanas de seu
pontificado, Albino Luciani já dera os primeiros passos
significativos para inverter a posição da Igreja Católica na
questão do controle artificial da natalidade. Enquanto
essas providências eram tomadas, a imprensa
internacional permanecia na ignorância, por cortesia de
L'Osservatore Romano e da Rádio do Vaticano,
controlados por determinados membros da Cúria Romana,
que já emitira uma avaliação inteiramente falsa das
opiniões de Albino Luciani.
Durante o seu pontificado, Luciani citou diversos
pronunciamentos e encíclicas do papa Paulo VI. Mas,
expressivamente, não houve nenhuma referência à
Humanae Vitae. Os defensores dessa encíclica foram
alertados para as opiniões do novo papa quando
souberam, consternados, que o discurso de posse do
sucessor de Paulo, preparado pela Secretaria de Estado e
contendo referências candentes à Humanae Vitae, foi
alterado por Luciani, que suprimiu tais referências. A
facção anti-controle-da-natalidade dentro do Vaticano
descobriu, em seguida, que, em maio de 1978, Albino
Luciani foi convidado a comparecer e falar num
congresso internacional realizado em Milão, de 21 a 22 de
junho. O objetivo principal do congresso era celebrar o
10º aniversário da encíclica Humanae Vitae. Luciani
respondeu que não falaria no congresso e também não
5/22
compareceria. Entre os que compareceram e falaram, em
louvor à Humanae Vitae, estava o cardeal polonês Karol
Wojtyla.
Agora, em setembro, enquanto a imprensa mundial
fielmente repetia as mentiras de L'Osservatore Romano,
Albino Luciani foi ouvido nos aposentos papais a dizer a
seu secretário de Estado, cardeal Villot:
— Terei o maior prazer em falar com essa delegação dos
Estados Unidos sobre a questão. Na minha opinião, não
podemos deixar a situação como está.
A “questão” era a população mundial. A “situação” era a
Humanae Vitae. A conversa continuou e Villot ouviu o
Papa João Paulo I manifestar uma opinião que muitos
outros, inclusive o secretário particular dele, padre Diego
Lorenzi, já tinham ouvido várias vezes. O padre Lorenzi é
somente um dos muitos que foram capazes de reproduzir
para mim as palavras exatas de Luciani:
- Estou a par do período de ovulação de uma mulher,
com seu âmbito de fertilidade de 24 a 36 horas. Mesmo
que se admita uma vida de 48 horas para o
espermatozóide, o tempo máximo de concepção possível é
inferior a quatro dias. Num ciclo regular, isso significa
quatro dias de fertilidade e 24 dias de infertilidade. Como
pode ser um pecado falar em 28 em vez de 24 dias?
5/23
O que provocara essa conversa realmente histórica foi um
contato da embaixada americana em Roma com o
Vaticano, após instruída pelo Departamento de Estado
americano e procurada pelo congressista James Scheuer.
O congressista presidia o Comitê sobre População da
Câmara dos Representantes e era, também, vicepresidente
do fundo da ONU para pesquisas sobre
população. A história do documento de Luciani ao papa
Paulo VI sobre o controle da natalidade alertara Scheuer e
seu comitê para a possibilidade de mudança na posição da
Igreja. Scheuer achava que era improvável que seu grupo
obtivesse uma audiência com Luciani logo depois da
eleição, mas concluiu que valia a pena a tentativa de
pressionar o Vaticano através do Departamento de Estado
e da embaixada americana em Roma. E Scheuer ouviria
boas notícias.
Villot, como muitos que cercavam Luciani, encontrava
uma considerável dificuldade para se ajustar ao novo
pontificado. Nomeado por Paulo VI, ele desenvolvera ao
longo dos anos um íntimo relacionamento de trabalho
com o falecido papa. Aprendera a admirar o estilo
Montini. Agora, o Hamlet cansado do mundo, de 81 anos,
fora substituído por um otimista Henrique VI que, aos 65
anos, era relativamente um rapaz.
O relacionamento entre Luciani e seu secretário de Estado
era bastante desconfortável. O novo papa achava Villot
frio e distante, sempre comentando o que Paulo VI diria a
respeito dessa questão, ou como Paulo VI trataria aquele
5/24
problema. Paulo VI estava morto, mas era evidente que
Villot e uma parcela significativa da Cúria não haviam
aceitado esse fato, e que o estilo Montini de resolver
problemas morrera com ele.
O discurso que o novo papa pronunciara, 24 horas depois
do conclave, fora de caráter geral. O verdadeiro programa
começou a ser formulado somente durante os primeiros
dias de setembro de 1978. Foi desencadeado com a
inspiração dos primeiros 100 dias do papa João XXIII.
João foi eleito papa em 28 de outubro de 1958. Nos
primeiros 100 dias, efetuara diversas nomeações cruciais,
inclusive a do cardeal Domenico Tardini para a Secretaria
de Estado, um posto que se achava vago desde 1944. O
mais importante foi a sua decisão de convocar o Concílio
Vaticano Segundo. Essa decisão tornou-se pública em 25
de janeiro de 1959, 89 dias depois da eleição.
Agora, quem usava as sandálias do pescador, Albino
Luciani, estava determinado a seguir o exemplo de João,
dos 100 dias revolucionários. No alto de sua lista de
prioridades de reformas e mudanças estava a necessidade
de alterar radicalmente o relacionamento do Vaticano com
o capitalismo e o desejo de mitigar os sofrimentos que
testemunhara pessoalmente e que derivavam diretamente
da Humanae Vitae.
De acordo com o cardeal Benelli, o cardeal Felici e outras
fontes do Vaticano, o austero cardeal Villot ficou ouvindo
5/25
contrariado, enquanto o novo papa discorria sobre os
problemas que a encíclica causara.
Poucos meses antes, Villot louvara a encíclica, no 10º
aniversário de sua publicação. Numa carta ao arcebispo
John Quinn, de São Francisco, Villot reafirmara a
oposição de Paulo à anticoncepção artificial. O secretário
de Estado ressaltara como Paulo considerava importante
esse ensinamento e que ele estava “de acordo com a Lei
de Deus”.
Houve muito mais, no mesmo espírito. Agora, menos de
dois meses depois, era obrigado a ouvir o sucessor de
Paulo adotar uma posição oposta.. O café esfriou,
enquanto Luciani se levantava e andava de um lado para o
outro no gabinete, falando sobre alguns efeitos que a
Humanae Vitae produzira durante a última década.
A encíclica que fora projetada para reforçar a autoridade
papal, negando que pudesse haver alguma mudança no
ensinamento tradicional sobre o controle da natalidade,
tivera justamente o efeito oposto. As evidências eram
irrefutáveis. Na Bélgica, Holanda, Alemanha, Inglaterra,
Estados Unidos e muitos outros países não apenas houve
uma acentuada oposição à encíclica, mas também uma
desobediência ostensiva. Logo surgiu a máxima de que,
se um padre não adotasse uma posição tolerante no
confessionário, o pecador procuraria um padre mais
liberal. Luciani citou exemplos dessa contradição, que
conheceu diretamente, na região do Veneto.
5/26
A teoria da Humanae Vitae podia parecer um ponto de
vista moral ideal quando proclamada do interior do reduto
exclusivamente masculino do Vaticano. A realidade que
Luciani observara no norte da Itália e no exterior
demonstrava claramente a desumanidade da encíclica.
Naquela década, a população mundial aumentara em mais
de três quartos de um bilhão.
Quando Villot objetou que o papa Paulo ressaltara as
virtudes do método anticoncepcional natural, Luciani
limitou-se a sorrir. Mas não era o sorriso cheio e radiante
que o público conhecia, antes um meio sorriso triste.
— Eminência, o que nós, velhos celibatários, sabemos
realmente sobre os desejos sexuais das pessoas casadas?
Essa conversa, a primeira de muitas que o papa teve com
seu secretário de Estado sobre o assunto, ocorreu no
gabinete dos aposentos papais, na terça-feira, 19 de
setembro. Eles discutiram o problema por quase 45
minutos. Quando Villot estava-se retirando, após a
reunião ter terminado, Luciani acompanhou-o até a porta
e acrescentou:
- Eminência, conversamos sobre o controle da natalidade
durante cerca de 45 minutos. Se as informações forem
corretas, se as estatísticas forem precisas, então no
período de nossa conversa mais de mil crianças com
5/27
menos de cinco anos de idade morreram de desnutrição.
Durante os próximos 45 minutos, enquanto nós dois
aguardamos com expectativa a nossa próxima refeição,
outras mil crianças morrerão de desnutrição. Amanhã, a
esta hora, 30 mil crianças que se encontram vivas neste
momento estarão mortas de desnutrição. Deus nem
sempre provê.
O secretário de Estado do Vaticano não foi capaz de
encontrar uma resposta adequada.
Todos os detalhes da possível audiência com uma
delegação dos Estados Unidos sobre população mundial
foram mantidos em sigilo, tanto pelo Vaticano como pelo
Departamento de Estado americano. Tal reunião,
ocorrendo tão cedo no pontificado de Luciani, seria
corretamente encarada como extremamente significativa,
se transpirasse para o conhecimento público.
Um significado ainda maior seria atribuído, pela opinião
pública mundial, ao encontro, se fosse divulgado por que
o Papa João Paulo I não compareceria à Conferência de
Puebla, no México. Tratava-se da seqüência de uma
conferência muito importante que se realizara em
Medellin, na Colômbia. em 1968.
Em Medellin, os cardeais e bispos da América Latina
injetaram vida nova na Igreja Católica naquele continente.
A declaração contida no “Manifesto de Medellín” incluía
a afirmativa de que a principal iniciativa de sua igreja no
5/28
futuro seria procurar estabelecer vínculos com os pobres,
desprezados e depauperados. Era uma mudança
revolucionária numa Igreja que, anteriormente, sempre se
associara com os ricos e os poderosos. A “Teologia da
Libertação”, que emergiu de Medellín, alertava as
diversas juntas militares e regimes ditatoriais da América
do Sul para o fato de que a Igreja pretendia trabalhar para
acabar com a exploração financeira e a injustiça social.
Foi, na verdade, um chamado às armas. Inevitavelmente, a
resistência a essa filosofia liberal veio não apenas dos
diversos regimes, mas também dos elementos reacionários
dentro da Igreja. A conferência de Puebla, uma década
depois, prometia ser crucial. A Igreja continuaria a seguir
pela mesma trilha ou haveria um recuo para a antiga
posição, repudiada? O fato de o novo papa recusar o
convite para comparecer à conferência ressalta a
importância que ele atribuía ao seu encontro com o comitê
de Scheuer. Ele, certamente, conhecia as implicações da
reunião em Puebla.
No conclave, menos de uma hora depois de ser eleito
papa, Luciani foi procurado pelos cardeais Baggio e
Lorscheider, dois homens-chave na aguardada conferência
no México. Puebla fora adiada por causa da morte do
papa Paulo VI. Os cardeais queriam saber se o novo papa
estava disposto a aprovar uma nova data para a
conferência no México.
Luciani discutiu os problemas que seriam tratados em
Puebla, em profundidade, menos de uma hora depois de
5/29
sua eleição. Concordou que a conferência deveria ser
realizada e foi definida a data: de 12 a 28 de outubro.
Durante a conversa com Baggio e Lorscheider, ele
surpreendeu os dois cardeais com seu conhecimento e
percepção das questões que seriam examinadas em
Puebla. Em relação a seu comparecimento, recusou-se a
assumir um compromisso firme logo no início do
pontificado. Quando Villot informou-o de que o comitê de
Scheuer gostaria de ter uma audiência em 24 de outubro,.
Luciani disse a Baggio e Lorscheider que não poderia ir a
Puebla. E mandou que Villot confirmasse o encontro com
a delegação americana. Era a confirmação final, para
Luciani, de que seu lugar, durante as próximas semanas,
era no Vaticano. Havia outros motivos para a sua decisão
de permanecer em Roma. O Papa João Paulo I concluíra,
em meados de setembro, que a sua mais alta prioridade
deveria ser a de pôr a casa em ordem. O problema do
Banco do Vaticano e sua filosofia operacional tornara-se
de suprema importância para ele.
Luciani agiu com uma urgência que claramente inexistia
nos últimos anos do seu antecessor imediato. A vassoura
nova não tinha a intenção de limpar todo o Vaticano nos
primeiros 100 dias, mas ele estava ansioso para que, nesse
período, a Igreja começasse a mudar de direção,
particularmente em relação à Vaticano S.A.
Ainda em sua primeira semana, o novo papa deu uma
indicação do rumo que seguiria. “Concordou” com o
desejo do cardeal Villot de ser substituído em um dos seus
5/30
muitos cargos: a presidência do Conselho Pontifical, Cor
Unum2. O cargo foi para o cardeal Bernard Gantin. Cor
Unum é um dos principais funis por que passam os
recursos coletados no mundo inteiro a serem distribuídos
às nações mais pobres.
Para Luciani, Cor Unum era um elemento vital em sua
filosofia de que as finanças do Vaticano deveriam ser
inspiradas pelo Evangelho. A substituição, gentilmente
conduzida, efetivamente concretizou a troca de Villot por
Gantin, um homem de grande espiritualidade e evidente
honestidade.
A aldeia do Vaticano fervilhava com especulações.
Alguns proclamavam que nunca haviam conhecido
Sindona, Calvi ou qualquer outro da Máfia de Milão que
infestara o Vaticano durante o período do papa Paulo.
Outros, em seus esforços de sobrevivência, começaram a
transmitir informações aos aposentos papais.
Poucos dias depois da nomeação de Gantin, o novo papa
encontrou em sua mesa uma cópia de uma circular do
Controle de Câmbio Italiano. Não havia a menor dúvida
de que a circular era uma reação direta à carta aberta de Il
Mondo ao papa, descrevendo uma situação inadmissível
para um homem que se comprometera com a pobreza
pessoal e com uma Igreja pobre.
2 Conselho integrante da Cúria Romana, o “Cor Unum” foi instituído por
Paulo VI em 1971, com a missão declarada de tornar manifesta a
caridade de Cristo.
5/31
A circular, assinada pelo ministro do Comércio Exterior
Rinaldo Ossola, foi enviada a todos os bancos italianos.
Lembrava que o IOR, o Banco do Vaticano, é “para todos
os efeitos, uma instituição bancária não residente”... Em
outras palavras, um banco estrangeiro. Assim, as relações
entre o Banco do Vaticano e as instituições de crédito
italianas eram governadas pelas mesmas regras que se
aplicavam a todos os outros bancos estrangeiros.
O ministro estava particularmente preocupado com os
abusos de câmbio, envolvendo a exportação ilegal de
capitais da Itália. A circular era também uma inequívoca
confissão ministerial de que tais abusos eram realidade.
Os círculos financeiros italianos encararam-na como uma
tentativa de reprimir pelo menos uma das muitas
atividades escusas do Banco do Vaticano. No Vaticano,
foi considerada uma confirmação adicional de que o dobre
de finados para o exercício da presidência do banco pelo
bispo Paul Marcinkus soava cada vez mais alto.
Uma história que acreditei ser boato, mas que muitos no
Vaticano e na imprensa italiana me garantiram ser
verdadeira, começou a circular pelo Vaticano no início de
setembro de 1978. Dizia respeito à venda da Banca
Cattolica del Veneto e à viagem de Albino Luciani ao
Vaticano na tentativa de evitar a venda do banco a
Roberto Calvi. Já narrei o encontro de Luciani e Benelli.
A versão que circulou introduziu elegantes variações em
estilo italiano. Luciani se defrontara com Paulo VI que
5/32
respondera:
— Mesmo você tem de fazer esse sacrifício pela Igreja.
Nossas finanças ainda não se recuperaram dos prejuízos
causados por Sindona. Mas leve seu problema ao
monsenhor Marcinkus.
Pouco depois, Luciani estivera no escritório de Marcinkus
e repetira a lista de pedidos da diocese com relação à
venda do banco. Marcinkus o ouvira e respondera:
— Eminência, não tem nada melhor para fazer hoje?
Faça seu trabalho e farei o meu.
A esta altura, Marcinkus lhe mostrava a porta de saída.
Qualquer um que já tenha visto Marcinkus em ação saberá
que faz jus ao seu apelido: “o Gorila”. Para os bispos,
monsenhores, padres e freiras no Vaticano é certo que tal
confrontação realmente aconteceu.
Agora, inesperadamente, o pequeno e pacato homem de
Belluno podia remover Marcinkus num piscar de olhos.
Membros da Cúria organizaram uma loteria. Ganharia
quem adivinhasse o dia em que Marcinkus seria
formalmente removido do banco. O papa, que acreditava
em prudência, ainda reunia as provas necessárias. Além
da investigação sendo conduzida, por conta do papa, pelo
cardeal Villot, o risonho João Paulo I, com a típica astúcia
das montanhas, abriu outras linhas de inquérito. Começou
a conversar com o cardeal Felici sobre o Banco do
5/33
Vaticano. E também telefonou para o cardeal Benelli, em
Florença.
Foi por intermédio de Giovanni Benelli que o papa tomou
conhecimento da investigação do Banco da Itália no
Banco Ambrosiano. Era típico da maneira como
funcionava a Igreja Católica. O cardeal em Florença disse
ao papa em Roma o que estava acontecendo em Milão.
O ex-segundo homem da Secretaria de Estado do
Vaticano formara uma vasta rede de contatos por toda a
Itália. Licio Gelli, da P2, ficaria devidamente
impressionado com a extensão e a qualidade das
informações a que o cardeal Benelli tinha acesso. Incluía
fontes muito bem situadas dentro do Banco da Itália.
Foram essas fontes que informaram ao cardeal sobre a
investigação no império de Roberto Calvi, um inquérito
que se aproximava do clímax em setembro de 1978. O
que mais preocupou Benelli e, posteriormente, Albino
Luciani era a parte da investigação que levantava as
ligações de Calvi com o Vaticano. O contato no Banco da
Itália estava convencido de que a investigação seria
seguida por graves acusações criminais contra Roberto
Calvi e possivelmente alguns de seus diretores. Parecia
igualmente certo que o Banco do Vaticano estava bastante
envolvido em diversas transações que violavam uma
variedade de leis italianas. Os homens no Banco do
Vaticano que estavam sendo mais investigados, como
criminosos em potencial, eram Paul Marcinkus, Luigi
Mennini e Pellegrino de Strobel.
5/34
Benelli aprendera, por quase uma década, que não se
influenciava Luciani com a insistência vigorosa para que
assumisse um determinado curso de ação. Ele me disse:
- Com o papa Luciani, apresentavam-se os fatos, fazia-se
uma recomendação e depois se lhe dava tempo e espaço
para considerar. Depois de absorver todas as
informações disponíveis, ele decidia... e quando o papa
Luciani decidia, nada, mas absolutamente nada, podia
demovê-lo ou contê-lo. Era um homem gentil, é verdade.
E humilde. Mas quando se lançava a um determinado
curso de ação, era inabalável como um rochedo.
Bennelli não era o único a ter acesso aos pensamentos dos
altos dirigentes do Banco da Itália. Membros da P2
estavam transmitindo exatamente as mesmas informações
para Licio Gelli, em Buenos Aires. E ele, por sua vez,
mantinha plenamente informados os seus companheiros
de viagem, Roberto Calvi e Umberto Ortolani. Outros
membros da P2, infiltrados no poder judiciário em Milão,
informaram a Gelli que, concluída a investigação sobre o
Banco Ambrosiano, tudo seria encaminhado ao juiz
Emilio Alessandrini. Poucos dias depois que Gelli tomou
conhecimento disso, um grupo terrorista de extrema
esquerda, sediado em Milão, Prima Linea, recebeu um
aviso de seu contato no sistema judiciário, sobre o homem
recomendado como sua próxima vítima em potencial. O
líder terrorista pregou uma fotografia do alvo na parede de
seu apartamento: juiz Emilio Alessandrini. A P2 movia-se
5/35
por muitos caminhos, inclusive o Vaticano.
No início de setembro, Albino Luciani descobriu que, por
algum meio misterioso, ele tinha sido incluído na lista de
distribuição exclusiva de uma insólita agência de notícias
chamada L’Osservatore Político (O.P.). Era dirigida pelo
jornalista Mino Pecorelli e, invariavelmente, divulgava
histórias escandalosas que, posteriormente, eram
confirmadas como verdadeiras. Agora, juntamente com
políticos, jornalistas e outras pessoas que tinham a
necessidade de tomar conhecimento das coisas em
primeira mão, o papa lia uma reportagem sobre o que a
O.P. classificou de “a grande loja do Vaticano”. O artigo
dava os nomes de 121 pessoas que, supostamente,
pertenciam a lojas maçônicas. Diversos leigos estavam
incluídos na lista, mas ela abrangia principalmente
cardeais, bispos e prelados em altos postos. Os motivos de
Pecorelli para divulgar a lista eram simples. Ele estava
empenhado numa luta com seu antigo Grão-Mestre, Licio
Gelli. Pecorelli tinha sido um membro da P2... um
membro desencantado.
Estava convencido de que a publicação da lista dos
maçons do Vaticano causaria um profundo embaraço ao
Grão-Mestre da P2, especialmente porque muitos eram
amigos íntimos de Gelli e Ortolani.
Se a informação era correta, então Luciani estava
praticamente cercado por maçons... e ser um maçom
significava a excomunhão automática da Igreja Católica.
5/36
Antes do conclave, houve rumores de que vários dos mais
eminentes papabiles eram maçons. Agora, 12 de
setembro, o novo papa recebia a lista completa. Luciani
tinha a opinião de que era inconcebível que um sacerdote
se tornasse membro da maçonaria. Sabia que diversos
católicos leigos de suas relações pertenciam a várias
Lojas. Da mesma forma, tinha amigos que eram
comunistas. Aprendera a conviver com essa situação, mas
achava que os critérios eram diferentes quando se tratava
de alguém do clero. A Igreja Católica decretara, há muito
tempo, que se opunha implacavelmente à maçonaria. O
novo papa estava aberto a uma discussão da questão, mas
uma lista de 121 homens que eram membros confirmados
da maçonaria não chegava a ensejar uma discussão:
Secretário de Estado, cardeal Villot, nome maçônico
Jeanni, registrado numa Loja de Zurique em 6 de
agosto de 1966, com o número 041/3.
Ministro do Exterior, monsenhor Agostino Casaroli.
Cardeal Vigário de Roma, Ugo Poletti.
Cardeal Baggio.
Bispo Paul Marcinkus, do Banco do Vaticano e
Monsenhor Donato de Bonis, também do Banco do
Vaticano.
5/37
O aturdido papa leu uma relação que parecia o “Quem é
Quem” do Vaticano. Notando com alívio que nem Benelli
nem o cardeal Felici apareciam na lista, que incluía até
mesmo o secretário particular do papa Paulo, monsenhor
Pasquale Macchi, Albino Luciani prontamente telefonou
para Felici e convidou-o para tomar um café.
Felici informou ao papa que uma lista similar circulara
discretamente pelo Vaticano, há mais de dois anos, em
maio de 1976. O motivo para o seu reaparecimento era,
obviamente, uma tentativa de influenciar o pensamento do
novo papa sobre nomeações, promoções e remoções.
— A lista é verdadeira? — perguntou Luciani.
Felici disse ao papa que, em sua opinião, era uma hábil
mistura. Alguns nomes na lista eram de fato maçons,
outros não. E acrescentou:
— Essas listas parecem proceder da facção Lefebvre...
não foram criadas por nosso irmão francês rebelde, mas
são, certamente, usadas por ele.
O bispo Lefebvre foi um incômodo para o Vaticano e,
particularmente, para o papa Paulo VI durante alguns
anos. Era um tradicionalista que considerava o Concilio
Vaticano Segundo como a suprema heresia; ignorara
quase que totalmente as conclusões conciliares. Alcançara
notoriedade internacional com sua insistência de que a
5/38
missa fosse celebrada exclusivamente em latim. Suas
posições de extrema direita, numa variedade de assuntos,
resultaram numa condenação pública pelo papa Paulo VI.
Em relação ao conclave que elegera o papa João Paulo I,
os partidários de Lefebvre haviam inicialmente declarado
que se recusariam a reconhecer o novo papa, por ter sido
eleito num conclave que excluíra os cardeais com mais de
80 anos. Posteriormente, eles lamentaram a escolha como
‘‘sinistra’’.
Luciani refletiu sobre a situação por um momento, antes
de perguntar:
— Quer dizer que listas como esta existem há mais de
dois anos?
— Isso mesmo, Santidade.
— A imprensa tomou conhecimento delas?
— Tomou, Santidade. A lista completa jamais chegou a
ser publicada, mas saiu um nome aqui, outro ali.
— E qual foi a reação do Vaticano?
— A normal.., ou seja, nenhuma reação.
Luciani riu. Gostava de Pericle Felici. Curial até a raiz dos
cabelos, tradicionalista em seu pensamento, mas um
homem espirituoso e sofisticado, de cultura considerável.
— Eminência, na revisão da lei canônica, que ocupou
tanto de seu tempo, o Santo padre por acaso previu uma
mudança na posição da Igreja em relação à maçonaria?
5/39
— Ao longo dos anos, houve muitos grupos de pressão.
Determinadas partes interessadas exortavam que se
assumisse uma posição mais “moderna”. O Santo Padre
ainda estava considerando esses argumentos quando
morreu.
Felici continuou para deixar claro que, entre os que
defendiam fortemente um afrouxamento da lei que
declarava que qualquer católico que se filiasse à
maçonaria estava automaticamente excomungado, estava
o cardeal Jean Villot.
Nos dias que se seguiram, o papa passou a observar mais
atentamente alguns de seus muitos visitantes. O problema
era que os maçons se pareciam extraordinariamente com o
resto da humanidade. Enquanto Luciani considerava esse
problema imprevisto, diversos membros da Cúria
Romana, intensamente simpáticos à visão de mundo de
extrema direita de Licio GeIli, vazavam informações para
fora do Vaticano. Essas informações acabaram chegando
a seu destino: Roberto Calvi.
As notícias do Vaticano eram sombnias. O banqueiro
milanês estava convencido de que o papa queria se vingar
pela tomada da Banca Cattolica del Veneto. Não podia
conceber que a investigação de Luciani no Banco do
Vaticano não fosse pessoalmente orientada e inspirada por
seu desejo de atacar a ele, Roberto Calvi. Lembrava muito
bem a ira do clero de Veneza e os protestos de Luciani,
5/40
sem falar no encerramento de muitas contas diocesanas e
a transferência para um banco rival. Por alguns dias, Calvi
chegou mesmo a considerar a possibilidade de subornar
Luciani. Quem sabe se uma doação substancial ao
Vaticano não resolveria o problema? Uma doação
generosa para as obras de caridade? Mas tudo o que
aprendera a respeito de Luciani dizia a Calvi que lidava
com um tipo de homem que só encontrara raramente nos
negócios, alguém que era totalmente incorruptível.
Enquanto os dias de setembro passavam, Calvi viajou
pelo continente sul-americano, Uruguai, Peru, Argentina.
Com ele estavam sempre Gelli ou Ortolani. Marcinkus
caindo, um novo homem [à frente do Banco do Vaticano]
logo descobriria qual era a situação e a verdadeira
natureza das relações entre o Banco do Vaticano e o
Banco Ambrosiano. Mennini e De Strobel seriam
afastados. O Banco da Itália seria informado e Roberto
Calvi passaria o resto de sua vida na prisão.
Ele cobrira todas as eventualidades, considerara todos os
perigos em potencial, bloqueara todas as brechas. Era
perfeito o que criara: não um roubo, nem mesmo um
grande roubo, mas sim um roubo contínuo, numa escala
até então jamais imaginada. Em setembro de 1978, Calvi
já roubara mais de 400 milhões de dólares. Os
conglomerados no exterior, os associados estrangeiros, as
empresas de fachada... a maioria dos ladrões
experimentaria um senso de triunfo por realizar um único
assalto a banco. Calvi, no entanto, estava empenhado em
5/41
roubar bancos às dúzias. Todos entravam em fila para
serem roubados, disputando o privilégio de emprestar
dinheiro ao Banco Ambrosiano.
Agora, no meio de seu sucesso irresistível, Calvi tinha de
lidar com inspetores do Banco da Itália que não podiam
ser corrompidos e, a cada dia, se aproximavam mais da
conclusão de sua investigação. Gelli lhe assegurara que o
problema podia e seria controlado. Mas como poderia até
mesmo Gelli, com todo o seu imenso poder e influência,
manipular um papa?
Enquanto os dias passavam, Calvi foi ficando obcecado
pelo problema. Como impedir um homem honesto de
destruí-lo? Se fosse um mortal comum, poderia ser
pressionado, talvez ameaçado. Se isso não desse certo,
haveria muitos que não hesitariam em silenciar uma
ameaça... permanentemente. Mas não se tratava de um
mortal comum. Era o Chefe de Estado da Cidade do
Vaticano. Mais objetivamente, era o papa. Como se podia
ameaçar um papa?
Se Albino Luciani, por algum milagre, morresse antes de
substituir Marcinkus, então Calvi disporia do tempo de
que precisava. Era verdade que seria apenas um mês. Mas
muita coisa pode acontecer em um mês. E muita coisa
poderia acontecer no próximo conclave. Deus não
produziria outro papa que quisesse reformar as finanças
do Vaticano, não é mesmo? Como sempre, ele se voltou
para Licio Gelli e confidenciou-lhe os seus piores receios.
5/42
Depois de um longo telefonema internacional para Gelli,
Roberto Calvi sentiu algum alivio. Gelli o tranqüilizara. O
“problema” podia e seria resolvido.
Enquanto isso, a rotina nos aposentos papais rapidamente
se assentava a um novo padrão, em torno do novo
ocupante. Mantendo o hábito de uma vida inteira, Luciani
se levantava muito cedo. Optara por dormir na cama
usada por João X.XIII, em vez de na cama de Paulo VI. O
padre Magee disse a Luciani que Paulo se recusava a
dormir na cama de João “por causa de seu respeito pelo
papa João”. Ao que Luciani respondeu:
— Pois dormirei na cama de João por causa do meu
amor por ele.
Embora o despertador na mesinha-de-cabeceira estivesse
preparado para tocar às 5:00, caso dormisse demais, o
papa era sempre despertado por uma batida na porta às
4:30. Era informado de que a irmã Vincenza deixara um
bule de café ali. Até mesmo esse ato simples ficara sujeito
à interferência curial. Em Veneza, a freira se acostumara a
bater na porta, gritar um “bom-dia” e levar o café até a
cama para Luciani. Os ativos monsenhores do Vaticano
acharam que esse ato simples violava algum protocolo
imaginário. Protestaram junto ao aturdido Luciani, que
acabou concordando que o café fosse deixado na porta do
gabinete adjacente. O hábito de tomar um café logo
depois de acordar derivava de uma operação de sinusite
5/43
realizada muitos anos antes. A operação deixara Luciani
com um gosto amargo na boca ao despertar. Quando
viajava, se não havia café disponível, chupava uma bala.
Depois de tomar o café, Luciani fazia a barba e tomava
um banho. Das 5:00 às 5:30, praticava seu inglês com a
ajuda de um curso gravado em cassete. Deixava o quarto
às 5:30 e ia para a pequena capela particular ali perto.
Orava, meditava e dizia o seu breviário até as 7:00.
Recebia, então, a companhia de outros membros do
círculo papal, particularmente seus secretários, padre
Lorenzi e padre Magee. Lorenzi, também novo no
Vaticano, perguntara ao papa se Magee, um dos
secretários do papa Paulo, não poderia continuar no posto.
Luciani, que se impressionara com a capacidade do padre
Magee de providenciar xícaras de café durante os dois
primeiros dias do seu pontificado, prontamente
concordou. Os três homens tinham a companhia das
freiras da Congregação de Maria Bambina durante a
missa, cujas funções eram limpar e cozinhar para o papa.
As freiras, Madre Superiora Elena, irmãs Margherita,
Assunta, Gabriella e Clorinda logo receberam a ajuda de
mais uma pessoa, a irmã Vincenza, de Veneza, por
sugestão do padre Lorenzi. Vincenza trabalhara para
Luciani desde os seus dias em Vittorio Veneto e conhecia
seus jeitos, seus hábitos. Ela o acompanhara a Veneza e
fora a madre superiora do grupo de quatro freiras que
cuidava do patriarca. Sofreu um ataque cardíaco em 1977
e foi hospitalizada. Os médicos disseram-lhe que nunca
5/44
mais deveria trabalhar, limitando-se a ficar sentada e dar
instruções às outras freiras. Vincenza ignorou as
determinações médicas e continuou a supervisionar a
cozinha da irmã Celestina, a se movimentar
constantemente em torno do patriarca, lembrando-o de
tomar seu remédio para a pressão baixa.
Para Albino Luciani, Vincenza e o padre Lorenzi
representavam seu único vínculo com as terras do norte da
Itália, que agora só veria raramente e onde nunca mais
tornaria a viver. É um pensamento profundo saber que, ao
ser eleito papa, um homem passa imediatamente a viver
onde possivelmente morrerá e, com toda certeza, será
enterrado. É como viver em seu próprio cemitério.
O café da manhã, de café latte, um pão e uma fruta, era
servido logo depois da missa, às 7:30. Como Vincenza
diria às outras freiras, alimentar Luciani era um desafio
considerável. Ele geralmente se mostrava indiferente ao
que comia e seu apetite era como o de um canário. Como
muitos que haviam conhecido a pobreza extrema, ele
detestava o desperdício. O que sobrava de um jantar
especial para convidados seria uma de suas refeições no
dia seguinte.
Ao café da manhã, Luciani lia diversos jornais italianos.
Determinara que o diário Il Gazzetino, de Veneza, fosse
acrescentado à lista. Entre 8:00 e 10:00, o papa trabalhava
em seu gabinete, preparando-se para a primeira audiência.
Entre 10:00 e 12:30, com homens como monsenhor
5/45
Jacques Martin, prefeito da Residência Pontifical,
tentando fazer com que as pessoas entrassem e saíssem no
horário, o papa recebia e conversava com os visitantes, no
segundo andar do Palácio Apostólico.
Martin e outros membros da Cúria não demoraram a
descobrir que Luciani era um homem de vontade própria e
firme. Apesar das objeções murmuradas, as conversas do
papa com os visitantes tinham o hábito de se prolongar
além do horário, acarretando a maior confusão para a
programação. Monsenhor Martin partilhava uma crença
predominante no Vaticano: a de que todos poderiam se
desincumbir de suas funções, se não fosse pelo papa.
Um almoço de minestrone ou macarrão, seguido por
qualquer outra coisa que Vincenza tivesse preparado para
segundo prato, era servido às 12:30. Mesmo isso dava
margem a comentários. O papa Paulo sempre almoçava às
13:30. O fato de uma coisa tão banal inspirar comentários
excitados no Vaticano é indicativo de quanto o lugar é
uma aldeia. Os rumores se tornaram ainda mais intensos
quando se espalhou a noticia de que o papa aceitava a
presença de mulheres à sua mesa de refeições. A sobrinha
Pia e a cunhada provavelmente entraram para o livro de
recordes do Vaticano. Luciani fazia uma pequena sesta
entre 13:30 e 14:00. Depois, passeava um pouco pelo
terraço ou pelos jardins do Vaticano. Ocasionalmente, era
acompanhado pelo cardeal Villot; com mais freqúência,
Luciani lia. Além do breviário, encontrava prazer em
autores tão diversos como Mark Twain e Sir Walter Scott.
5/46
Ele voltava a seu gabinete pouco depois das 16:00,
estudava o conteúdo de um envelope recheado que era
entregue por monsenhor Martin, relacionando os
visitantes do dia seguinte e um breve sumário a respeito
de cada um.
Às 16:30, enquanto tomava uma xícara de chá de
camomila, o papa recebia em seu gabinete o “Tardella”,
os diversos cardeais, arcebispos e secretários de
congregações que constituíam o seu ministério. Eram
reuniões importantes, pois garantiam o funcionamento
seguro das engrenagens da Igreja Católica.
A refeição da noite era às 19:45. Às 20:00, enquanto ainda
comia, Luciani assistia à televisão. Seus companheiros ao
jantar, a não ser que houvesse convidados especiais, eram
os padres Lorenzi e Magee.
Depois do jantar, havia mais preparativos para as
audiências do dia seguinte. O papa dizia a parte final do
breviário diário e, em seguida, se retirava para dormir, em
torno das 21:30.
O jantar, assim como o almoço que o precedia, seria
simples e sem sofisticações. Em 5 de setembro, Luciani
recebeu um padre veneziano, Mario Ferrarese. Para
convidá-lo aos aposentos papais, Luciani deu a desculpa
de que desejava retribuir a hospitalidade que padre Mario
lhe dispensara em Veneza. Preferia a companhia de um
padre paroquiano a considerar o fato de que os ricos e
5/47
poderosos da Itália tentavam conseguir que partilhasse de
sua mesa. Aquela refeição em particular foi servida por
dois membros da equipe papal, Guido e Gian Paolo
Guzzo. O papa pediu notícias de Veneza; a seguir,
observou tranqüilamente:
— Peça às pessoas por lá que rezem por mim, porque
não é fácil ser um papa.
E, dirigindo-se aos irmãos Guzzo, disse:
— Como temos um convidado, devemos servir-lhe uma
sobremesa.
Após alguma demora, taças de sorvete foram servidas à
mesa papal. Para os de fora, vinho. Luciani se contentava
com água mineral.
Essa era a rotina diária do papa João Paulo I... uma rotina
que ele tinha a maior satisfação em perturbar de vez em
quando. Sem avisar a ninguém, saía inesperadamente a
passear pelos jardins do Vaticano. Podia-se pensar que era
uma simples diversão, mas um passeio improvisado
lançava o protocolo do Vaticano e os guardas suíços na
maior confusão. Luciani já causara consternação entre os
oficiais da Guarda Suíça ao conversar com homens de
sentinela e também pedir que se abstivessem de ajoelharse
cada vez que se aproximava. Ele comentou para o
padre Magee:
5/48
— Quem sou eu para que se ajoelhem na minha
presença?
Monsenhor Virgilio Noe, o mestre-de-cerimônias,
suplicou-lhe que não conversasse com os guardas e se
limitasse a um aceno de cabeça silencioso. O papa
perguntou por quê. Noe abriu os braços numa reação de
espanto:
— Santo Padre, isso simplesmente não se faz. Nenhum
papa jamais falou com os guardas.
Albino Luciani sorriu e continuou a falar com os guardas.
Era muito diferente dos primeiros dias do pontificado de
Paulo, quando padres e freiras ainda ficavam de joelhos
para conversar com o papa, mesmo quando fosse pelo
telefone.
A atitude de Luciani em relação ao telefone também
provocou alarme entre os tradicionalistas da Cúria.
Tinham de lidar agora com um papa que se considerava
perfeitamente capaz de discar para alguém com quem
desejasse falar, bem como atender ligações. Ligava para
amigos em Veneza. Telefonava para diversas madres
superioras apenas para uma conversa inconseqüente.
Certa ocasião, comentou com seu amigo, padre
Bartolomeo Sorges, que gostaria que o padre Dezza, um
jesuíta, ouvisse sua confissão. Uma hora depois, o padre
Dezza telefonou para combinar a visita. A voz ao telefone
informou-o:
5/49
— Lamento muito, mas o secretário do papa não está no
momento. Posso ajudar?
— Quem está falando?
— O papa.
Simplesmente não se fazia assim. Nunca acontecera antes
e talvez nunca mais torne a acontecer. Os dois homens
que atuavam como secretários de Luciani negaram
categoricamente que jamais tivesse acontecido. Era
inconcebível. Mas aconteceu realmente.
Luciani começou a explorar o Vaticano, com seus 10 mil
cômodos e corredores, 997 escadas, sendo 30 secretas.
Muitas vezes deixava subitamente os aposentos papais,
sozinho ou acompanhado apenas pelo padre Lorenzi. E
também de repente aparecia nos escritórios da Cúria.
— Estou apenas descobrindo os caminhos por aqui —
explicou ele, numa ocasião, ao surpreso arcebispo Caprio,
subsecretário de Estado.
Eles não gostavam. Não gostavam absolutamente. A
Cúria estava acostumada a um papa que conhecia o seu
lugar, que atuava através dos canais burocráticos. Mas
aquele papa circulava por toda parte, se intrometia em
tudo e, o pior de tudo, queria fazer mudanças. A batalha
em torno da sedia gestatoria, a cadeira em que os papas
anteriores eram transportados, começou a tomar
proporções extraordinárias. Luciani a banira para o
depósito. Os tradicionalistas iniciaram uma batalha para
5/50
trazê-la de volta. O fato de coisas tão insignificantes
ocuparem o tempo de um papa desponta como algo
revelador sobre as perspectivas de determinados setores
da Cúria Romana.
Luciani tentou argumentar com pessoas como monsenhor
Noe tal como se faz com uma criança. O mundo deles não
era o seu e o papa não estava disposto a mudar. Explicou
a Noe e aos outros que circulava a pé em público porque
não se considerava melhor do que qualquer outro homem.
Detestava a cadeira e o que ela simbolizava.
— Mas as multidões não podem vê-lo sem a cadeira —
protestou um representante da Cúria. — Todos estão
pedindo a sua volta. Todos devem poder ver o Santo
Padre.
Obstinadamente, Luciani lembrou que aparecia com
freqüência na televisão e que todos os domingos aparecia
na sacada para o Angelus. Disse também o quanto
detestava a idéia de ser carregado praticamente nos
ombros de outros homens.
— Mas se Sua Santidade procura uma humildade ainda
mais profunda do que claramente já tem, o que poderia
ser mais humilhante do que ser carregado na cadeira que
tanto detesta?
Diante desse argumento, o papa reconheceu a derrota. Em
sua segunda audiência pública, foi levado ao Salão Nervi
5/51
na sedia gestatoria.
Enquanto uma parte do tempo de Luciani era absorvida
pelas atividades triviais da Cúria, a maioria de suas horas
de vigília era dedicada a problemas mais sérios. Dissera
ao corpo diplomático que o Vaticano renunciava a todas
as reivindicações de poder temporal. Não obstante, o novo
papa logo descobriu que praticamente todos os grandes
problemas do mundo passavam por sua mesa. A Igreja
Católica, com mais de 18 por cento da população mundial
lhe prestando fidelidade espiritual, representa uma força
poderosa; como tal, era obrigada a assumir uma posição e
tomar uma atitude numa enorme variedade de problemas.
Além de sua opinião em relação ao General Videla, da
Argentina, qual seria a reação de Albino Luciani à pletora
de ditadores que presidiam vastas populações católicas?
Qual seria a sua reação à “panelinha” de Marcos, nas
Filipinas, com seus 43 milhões de católicos? Em relação
ao auto-eleito Pinochet, no Chile, que tem mais de 80 por
cento da população de católicos? E o General Somoza, da
Nicarágua, o ditador tão admirado pelo assessor
financeiro do Vaticano, Michele Sindona? Como Luciani
restauraria a concepção de uma Igreja Católica para os
pobres e oprimidos num país como Uganda, onde Amin
providenciava acidentes fatais para padres com uma
freqüência quase cotidiana? Qual seria sua resposta aos
católicos de El Salvador, onde alguns membros da junta
militar no poder consideravam que ser católico era ser um
inimigo? Trata-se de um país em que 96 por cento dos
5/52
habitantes eram católicos e que prometia oferecer ao
mundo uma receita de genocídio, um problema um pouco
mais sério do que o debate no Vaticano sobre a cadeira do
papa.
Como aquele homem – que dissera, de seu púlpito em
Veneza, palavras duras sobre o comunismo – falaria ao
mundo comunista, ao palestrar agora na Basílica de São
Pedro? O cardeal que aprovara um “equilíbrio do terror”
em relação às armas nucleares manteria a mesma posição
quando os defensores internacionais do desarmamento
unilateral solicitassem uma audiência?
Havia também incontáveis problemas, herdados de Paulo
VI, dentro da própria Igreja. Muitos padres queriam o fim
do voto de celibato. Havia pressões para se permitir o
ingresso das mulheres no sacerdócio. Havia grupos que
exigiam a reforma das leis canônicas sobre o divórcio,
aborto, homossexualismo e uma dúzia de outras
questões... e todos se dirigiam a um só homem, exigindo,
suplicando, exortando. O novo papa demonstrou
rapidamente, nas palavras de monsenhor Loris Capovilla,
o ex-secretário de João XXIII, que “havia mais em sua
loja do que ele mostrou na vitrine”. Quando o ministro do
exterior, monsenhor Agostino Casaroli, procurou o papa
com sete questões sobre as relações da Igreja com
diversos países do leste europeu, Albino Luciani
prontamente deu as soluções para cinco; pediu um pouco
de tempo para analisar as outras duas. O aturdido Casaroli
voltou a seu gabinete e relatou a um colega o que
5/53
acontecera. O sacerdote perguntou-lhe:
— As soluções foram corretas?
— Totalmente corretas, na minha opinião. Mas seria
preciso um ano para se arrancar as respostas de Paulo.
Outro dos problemas encaminhados ao papa envolvia a
Irlanda e a avaliação da Igreja em relação ao IRA. Muitos
consideravam que a Igreja Católica não tinha sido
bastante franca e objetiva em sua condenação da contínua
carnificina na Irlanda do Norte. Poucas semanas antes da
eleição de Luciani, o arcebispo O’Fiaich, então o primaz
católico de toda a Irlanda, foi parar nas manchetes com
sua denúncia das condições na prisão de Maze3, em Long
Kesh.
O’Fiaich visitara a prisão e depois falara de seu choque
“com o fedor e sujeira em algumas celas, os
remanescentes de carne putrefata e excremento humano
espalhados pelas paredes”. Havia muitos outros
comentários similares. Em nenhum momento do seu
longo pronunciamento, liberado para os meios de
comunicação com extremo profissionalismo, o arcebispo
reconhecia que as condições na prisão eram criadas pelos
próprios presos.
3 Também conhecida como “H-Blocks” (blocos H – alusão ao formato
dos prédios quando vistos do alto), a prisão de Maze está associada à
violência na Irlanda do Norte e nela se encontravam aqueles
considerados os mais perigosos homens da Europa que, todavia, mais
tarde concordaram em negociar a paz.
5/54
A Irlanda estava sem um cardeal. Muitos tentavam
influenciar o papa. O arcebispo O’Fiaich era considerado
por alguns como o maior candidato ao posto; outros
sentiam que sua promoção à arquidiocese de Armagh
revelou-se um desastre total.
Albino Luciani devolveu o dossiê sobre O’Fiaich a seu
secretário de Estado com um movimento negativo e a
frase:
— Acho que a Irlanda merece um pouco mais.
A procura por um cardeal continuou.
Em setembro de 1978, a crise no Líbano não era
considerada de maior importância na lista dos problemas
mundiais. Havia dois anos que reinava uma espécie de
paz, entremeada de combates esporádicos entre tropas
sírias e cristãs. Muito antes de qualquer outro chefe de
Estado, o pequeno e discreto sacerdote de Veneto
compreendeu que o Líbano era um matadouro em
potencial. Discutiu o problema com Casaroli e disse que
desejava visitar Beirute antes do Natal de 1978.
Um dos homens que Luciani recebeu, durante as
audiências matutinas de 15 de setembro, foi o cardeal
Gabriel-Marie Garrone, prefeito da Sagrada Congregação
para a Educação Católica. Essa audiência em particular é
um exemplo extraordinário de como eram excepcionais os
talentos de Luciani. Garrone viera discutir um documento
5/55
chamado “Sapientia Christiana”, que versava sobre a
constituição apostólica e as diretivas e regras de todas as
faculdades católicas do mundo.
Já no início dos anos 60, o Concílio Vaticano Segundo
revisara as orientações para os seminários. Depois de dois
anos de discussões internas, a Cúria Romana enviara suas
propostas aos bispos do mundo, a fim de que estudassem
e apresentassem suas recomendações. Todos os
documentos relevantes foram depois submetidos a mais
duas reuniões curiais, com a presença de consultores não
curiais. Os resultados foram em seguida examinados por,
pelo menos, seis departamentos curiais, o documento final
sendo apresentado ao Papa Paulo VI em abril de 1978, 16
anos depois das reformas propostas serem discutidas pela
primeira vez.
Paulo pensara em divulgar o documento em 29 de junho,
dia de São Pedro e São Paulo. Mas um documento com
um período de gestação de cerca de 16 anos não podia ser
preparado tão depressa no departamento de tradução da
Cúria. Quando o documento finalmente ficou pronto, o
papa Paulo já havia morrido.
Qualquer iniciativa não proclamada até a morte de um
papa perde o valor, a menos que seja aprovada pelo
sucessor. Por isso, o cardeal Garrone entrou na audiência
com o novo papa com uma profunda apreensão. Cerca de
16 anos de trabalho árduo poderiam ser jogados no lixo se
Luciani rejeitasse o documento. O antigo professor do
5/56
seminário de Belluno disse a Garrone que passara a maior
parte do dia anterior estudando o documento. Depois, sem
sequer consultar uma cópia, pôs-se a discuti-lo em
detalhes. Garrone ficou atônito com a percepção e
compreensão do papa de um documento tão complexo.
Ao final da audiência, Luciani comunicou que o
documento tinha sua aprovação e deveria ser publicado
em 15 de dezembro.
Como Casaroli, Baggio, Lorscheider e diversos outros,
Garrone saiu da audiência com Luciani extremamente
admirado. Voltando a seu gabinete, encontrou por acaso
com monsenhor Scalzotto, da Propaganda Fide, com
quem comentou:
— Acabo de me encontrar com um grande papa.
Enquanto isso, o “grande papa” continuava a abrir
caminho pela montanha de problemas deixados por Paulo.
Um deles era o cardeal John Cody, de uma das mais
poderosas e ricas dioceses do mundo: Chicago.
Para um cardeal, qualquer cardeal, ser considerado um
grande problema pelo Vaticano é insólito, mas Cody era
um homem insólito. As acusações formuladas contra o
cardeal Cody, nos 10 anos anteriores ao início do
pontificado de Luciani, eram extraordinárias. Mesmo que
apenas cinco por cento fossem verdadeiras, então Cody
não tinha condições de ser um padre, muito menos o
cardeal de Chicago.
5/57
Antes de sua promoção à arquidiocese de Chicago, em
1965, ele dirigira a diocese de Nova Orleans. Muitos
padres que tentaram trabalhar com ele em Nova Orleans
ainda exibem as cicatrizes. Um deles recordou:
— Quando aquele filho da puta ganhou Chicago,
promovemos uma festa e entoamos o Te Deum4. Nosso
“ganho” acabaria sendo, na verdade, a perda de
Chicago.
Quando conversei sobre a carreira do cardeal de Chicago
com o padre Andrew Greeley, famoso sociólogo cristão,
escritor e crítico de longa data de Cody, comentei que
outro padre de Chicago comparara o cardeal Cody ao
Capitão Queeg, o despótico e paranóico comandante naval
em The Caine Mutiny5. A resposta do padre Greeley foi
imediata:
— Acho que é uma injustiça com o Capitão Queeg.
Nos anos que se seguiram à nomeação do cardeal Cody
para Chicago, tornou-se moda na Cidade dos Ventos
compará-lo com o prefeito Richard Daley, um homem
cujas práticas no comando da cidade só eram
democráticas por descuido. Havia, porém, uma diferença
4 O Te Deum, às vezes também denominado Hino Ambrosiano, em
alusão a Santo Ambrósio, é um hino tradicional de contentamento e
agradecimento.
5 Aclamado romance de Herman Wouk.
5/58
essencial. A cada quatro anos, Daley tinha de prestar
contas de seus atos aos eleitores, pelo menos em teoria. Se
conseguissem superar a sua máquina política, poderiam
afastá-lo do cargo. Mas Cody não fora eleito. A não ser
por uma ação muito drástica de Roma, ele continuaria ali
pelo resto de sua vida. Cody gostava até de comentar:
— Não tenho de prestar contas a ninguém além de Roma
e Deus.
Os acontecimentos provariam que Cody se recusava a
prestar contas até a Roma. Com isso, só restava Deus.
Quando chegou a Chicago, Cody tinha a reputação de ser
um excelente gerente financeiro, um liberal progressista
que batalhara por muito tempo e com grande afinco pela
integração escolar em Nova Orleans e um prelado muito
exigente. Ele não demorou a perder os dois primeiros
atributos. No início de junho de 1970, quando era
tesoureiro da Igreja Americana, aplicou dois milhões de
dólares em ações da Penn Central. Houve um colapso das
ações poucos dias depois e a companhia faliu. Cody
investira ilegalmente o dinheiro durante a administração
de seu sucessor devidamente eleito, a quem se recusara a
entregar os talões de cheques até muito depois do
prejuízo. Mas conseguiu sobreviver ao escândalo.
Semanas depois de sua chegada a Chicago, ele aplicou o
seu tipo particular de liberalismo progressista no
tratamento com alguns padres. Nos arquivos de seu
5/59
antecessor, cardeal Albert Meyer, descobriu uma lista de
padres “problemas”, homens que eram alcoólatras, senis
ou simplesmente incompetentes. Cody começou a passar
as tardes de domingo a visitar as residências paroquiais.
Demitia pessoalmente os padres, dando-lhes apenas duas
semanas para deixarem as residências. Não havia fundos
de pensão, planos de aposentadoria ou esquemas de
seguros para os padres em Chicago, em meados dos anos
60. Muitos daqueles tinham mais de 70 anos. Cody
simplesmente os jogou na rua.
Ele começou a transferir padres de uma parte para outra
da cidade, sem qualquer consulta. Adotava uma atitude
similar em relação ao fechamento de conventos,
residências paroquiais e escolas. Houve uma ocasião em
que, por ordem de Cody, uma equipe de demolição
começou a derrubar uma residência paroquial e um
convento enquanto os ocupantes ainda se banhavam e
tomavam o café da manhã.
O problema básico de Cody parecia ser uma profunda
incapacidade de reconhecer o Concílio Vaticano Segundo
como um fato da vida. Houve conversas intermináveis no
Concílio sobre partilhar o poder, tomar as decisões em
colegiado. Mas essas notícias nunca chegaram à mansão
do cardeal.
Numa diocese com 2,4 milhões de católicos, começaram a
ser definidas as linhas de batalha entre as facções a favor
e contra Cody. Enquanto isso, a maioria dos católicos na
5/60
cidade se perguntava o que estava acontecendo.
Os padres formaram uma espécie de sindicato, a
Associação dos Padres de Chicago. Cody ignorou quase
que totalmente suas reivindicações. Cartas pedindo
reuniões não eram respondidas. Telefonemas descobriam
que o cardeal estava constantemente “ocupado”. Alguns
permaneceram para continuar a luta por uma Igreja
dirigida de forma mais democrática. Muitos desistiram.
Numa década, um terço dos clérigos de Chicago
abandonou o sacerdócio. Embora essas demonstrações
maciças comprovassem que havia algo de podre no
Estado de Illinois, o cardeal Cody continuou a insistir que
seus oponentes não passavam de “uma minoria altamente
ruidosa”.
O cardeal também atacou a imprensa local, declarando-a
hostil. Na verdade, os meios de comunicação de Chicago
foram extraordinariamente tolerantes durante o reinado de
Cody.
O homem que lutara pela integração em Nova Orleans
tornou-se conhecido, em Chicago, como o homem que
fechou escolas para negros, alegando que a Igreja não
tinha condições de mantê-las... numa diocese com uma
receita anual que beirava os 300 milhões de dólares.
Como acontecia com quase todos os seus atos, Cody
fechou a maioria das escolas sem consultar ninguém, nem
mesmo a junta escolar. Quando o clamor de “racista” se
5/61
elevou, Cody tratou de se defender com a declaração de
que muitos negros não eram católicos e que a Igreja não
tinha a obrigação de educar negros protestantes de classe
média. Mas foi muito difícil de se desvencilhar do rótulo
de racismo.
À medida que os anos passaram, as acusações contra
Cody se multiplicaram. O conflito com amplos setores do
seu próprio clero tornou-se encarniçado. Sua paranóia
desabrochou.
Começou a contar histórias de como foi aproveitado em
trabalho secreto de espionagem para o governo dos
Estados Unidos, e suas contribuições para o FBI. Disse
aos padres que também realizara missões especiais para a
CIA, inclusive voando a Saigon. Os detalhes eram sempre
vagos. Mas se Cody dizia a verdade, envolvera-se em
atividades de serviço secreto para o governo desde o
início dos anos 40. Parecia que John Patrick Cody, o filho
de um bombeiro de St. Louis, vivia muitas vidas.
A reputação de astúcia financeira que levara para Chicago
– e que foi um tanto afetada pelo prejuízo de dois milhões
de dólares da Penn Central – sofreu um novo golpe
quando alguns de seus oponentes começaram a investigar
sua carreira anterior, bastante movimentada. Nos
intervalos dos vôos reais ou imaginários sobre territórios
inimigos, ele conseguira, sem planejamento algum,
reduzir a um estado de pobreza uma parte da Igreja,
embora não da maneira idealizada por Albino Luciani.
5/62
Deixara a diocese de São José, em Kansas City, com uma
dívida de 30 milhões de dólares. Fizera a mesma coisa em
Nova Orleans, o que acrescentava um significado maior
ao “Te Deum” do clero local por ocasião de sua partida.
Pelo menos deixara um memento permanente de sua
passagem por Kansas City, tendo aplicado somas vultosas
para dourar o domo da catedral restaurada no centro da
cidade.
Cody passou a vigiar os movimentos diários dos padres e
freiras que suspeitava de deslealdade. Dossiês foram
compilados. Interrogatórios secretos de amigos de
“suspeitos” tornaram-se uma norma. Nunca se definiu o
que tudo isso tinha a ver com o Evangelho de Cristo.
Quando algumas dessas atividades foram denunciadas a
Roma pelo clero de Chicago, o Papa Paulo VI ficou
preocupado e angustiado. Era mais do que evidente que o
membro sênior da Igreja Católica em Chicago já
demonstrara, no início dos anos 70, que não tinha
condições de presidir a diocese. Apesar disso, imbuído de
um estranho senso de prioridades, o papa ainda hesitava.
A paz de espírito de Cody parecia pesar mais que o
destino de 2,4 milhões de católicos.
Um dos aspectos mais extraordinários do caso de Cody é
que ele controlava, aparentemente sem nenhuma consulta
a quem quer que fosse, toda a receita da Igreja Católica
em Chicago. Um homem são e extremamente inteligente
já teria dificuldades para controlar com plena eficiência
5/63
uma receita anual entre 250 e 300 milhões de dólares. O
fato de tal incumbência ter sido conferida a Cody se
impõe como impossível de ser explicado.
Por volta de 1970, os bens da Igreja Católica em Chicago
ultrapassavam um bilhão de dólares. Por causa da recusa
do cardeal Cody em publicar um balanço anual
fiscalizado, padres de diversas partes da cidade passaram
a reter algumas somas que, em tempos mais felizes,
seriam reencaminhadas ao controle do cardeal.
Finalmente, em 1971, seis anos depois de iniciar seu
domínio despótico, Cody se dignou a divulgar o que
passou como uma prestação de contas anual. Foi um
curioso balanço. Não revelava os investimentos
imobiliários. Não revelava os investimentos em ações. Em
relação à receita dos cemitérios, apresentava, finalmente,
uma prova de “vida depois da morte” – os lucros eram
enormes. Seis meses antes de as cifras serem divulgadas,
Cody confidenciara a um assessor que o lucro [com os
cemitérios] andava na casa dos 50 milhões de dólares.
Quando a prestação de contas foi divulgada, a cifra caíra
para 36 milhões de dólares. Para um homem que podia
estar simultaneamente em Roma, Saigon, Casa Branca,
Vaticano e em sua mansão em Chicago, desviar cerca de
14 milhões de dólares de receita de cemitérios era
brincadeira de criança.
Cerca de 60 milhões de dólares de recursos da paróquia
estavam depositados na chancelaria de Chicago. Cody
recusava-se a revelar a quem quer que fosse onde o
5/64
dinheiro se achava investido ou quem se beneficiava dos
juros.
Um dos trunfos pessoais mais notáveis do cardeal era o
número de amigos influentes que ele continuamente
adquiria dentro da estrutura de poder da Igreja. Seus
tempos na Cúria Romana, antes da guerra, trabalhando
inicialmente no Colégio Norte-Americano, em Roma, e
depois na Secretaria de Estado, produziram ricos
dividendos para os momentos de necessidade. Cody era
alguém que, desde cedo, soube aproveitar as melhores
oportunidades. Insinuando-se nas boas graças de Pio XII e
do futuro Paulo VI, ele estabeleceu uma formidável base
de poder em Roma.
A ligação do Vaticano com Chicago era, no início dos
anos 70, um dos vínculos mais importantes com os
Estados Unidos. A maior parte dos investimentos da
Vaticano S.A. no mercado de ações americano era
canalizada pelo Continental de Illinois. Na diretoria do
banco, juntamente com David Kennedy, um amigo íntimo
de Michele Síndona, estava o padre jesuíta Raymond C.
Baumhart. As grandes somas que Cody canalizava para
Roma tornaram-se um fator importante na política fiscal
do Vaticano. Cody podia não ser capaz de controlar seus
padres mas, certamente, sabia como lidar com questões de
dinheiro. Quando o bispo que controlava a diocese de
Reno fez alguns “investimentos infelizes” e houve um
total colapso financeiro, o Vaticano pediu a Cody que o
socorresse. Cody ligou para seus amigos banqueiros e o
5/65
dinheiro foi prontamente providenciado.
Ao longo dos anos, a amizade entre Cody e Marcinkus
tornou-se particularmente estreita; tinham muito em
comum, diversos interesses envolvidos. Em Chicago, com
sua vasta população de origem polonesa
inconscientemente ajudando-o, Cody começou a desviar
centenas de milhares de dólares para Marcinkus, no
Banco do Vaticano, através do Continental Illinois.
Marcinkus encaminhava o dinheiro para os cardeais na
Polônia.
O cardeal cuidava de garantias adicionais, distribuindo a
riqueza de Chicago por determinados setores da Cúria
Romana. Quando estava na cidade – e fez mais de uma
centena de viagens a Roma –, distribuía presentes caros
para as pessoas que mais lhe poderiam ser úteis: um
isqueiro de ouro para este monsenhor, um relógio caro
para aquele bispo.
Mas as queixas que continuavam a chegar a Roma
superavam os presentes caros. Na Sagrada Congregação
para a Doutrina da Fé, que age como a polícia do
Vaticano em questão de ortodoxia doutrinária e
moralidade clerical, a pilha de cartas crescia
continuamente. Vinham não apenas de padres e freiras de
Chicago, mas também de homens e mulheres dos mais
diversos estratos. O arcebispo Jean Hamer, OP, na direção
da Congregação, analisou o problema. Proceder contra um
padre é relativamente fácil. Depois da devida
5/66
investigação, a Congregação precisa apenas procurar o
bispo da jurisdição, solicitando que o padre seja removido
da zona de controvérsia. Mas a quem recorrer quando o
procedimento é contra um cardeal?
A União dos Padres condenou Cody publicamente e
declarou que ele mentia. Acabaram aprovando um voto de
censura contra ele. Apesar disso, Roma permaneceu em
silêncio.
No início de 1976, o arcebispo Hamer não era o único
membro de destaque na Cúria Romana que conhecia os
problemas que a conexão de Chicago estava causando. Os
cardeais Benelli e Baggio – a princípio de forma
independente, e depois em conjunto – haviam chegado à
conclusão de que Cody devia ser substituído.
Foi encontrada uma fórmula depois de longas
conferências com Paulo VI. Numa das numerosas viagens
de Cody a Roma, na primavera de 1976, Benelli ofereceulhe
um posto na Cúria Romana. Ele teria um título
maravilhoso, mas absolutamente nenhum poder. Era
sabido que Cody era ambicioso e que achava que possuía
talento para escalar além do controle sobre Chicago que já
exercia. O plano do cardeal era tornar-se papa. É
indicativo da arrogância de Cody o fato de um homem
que causara tanta confusão e transtorno em Chicago
pensar seriamente que tinha possibilidades de alcançar o
pontificado. Dada tal ambição, ele teria o maior prazer em
trocar Chicago pelo controle de uma das Congregações da
5/67
Cúria que distribuíam dinheiro às dioceses necessitadas
do mundo inteiro. Cody raciocinou que poderia comprar
votos suficientes para ascender ao trono de Roma quando
surgisse a oportunidade. Benelli sabia disso e este foi o
motivo pelo qual ofereceu o cargo a Cody. Mas, na
verdade, não era isso o que Cody queria. Ele recusou. Era
necessário encontrar outra solução.
Em janeiro de 1976, poucos meses antes da confrontação
Benelli-Cody, uma delegação de Chicago visitou Jean
Jadot, o núncio apostólico em Washington. Jadot
informou que Roma estava cuidando da situação. À
medida que o ano prosseguia sem nenhuma solução, a
batalha em Chicago recomeçou. A imagem pública de
Cody se tornara, a essa altura, tão lamentável que ele
contratou uma agência de relações públicas de Chicago,
paga pela Igreja, numa tentativa de obter uma cobertura
favorável nos meios de comunicação.
Os irados padres e freiras começaram a se queixar outra
vez a Jadot, em Washington. Ele aconselhou paciência,
prometendo:
— Roma encontrará a melhor solução. Mas vocês devem
suspender os ataques públicos. Deixem o problema se
aquietar. Roma então cuidará de tudo com a discrição
necessária.
O clero aceitou as ponderações. As críticas públicas foram
atenuadas. Mas logo foram reacendidas pelo próprio
5/68
Cody, que decidiu fechar diversas escolas da cidade.
Baggio aproveitou essa questão para outra tentativa de
persuadir o Papa Paulo VI a agir de forma decisiva.
Demonstrar firmeza, para o papa, consistiu em escrever
uma carta formal a Cody, pedindo uma explicação para o
fechamento das escolas. Cody ignorou a carta e gabou-se
publicamente por isso.
Em Chicago, impotentes pela inatividade do Vaticano,
seus oponentes enviaram mais cartas a Roma. Havia
novas acusações, apoiadas por depoimentos sob
juramento e registros de irregularidades financeiras.
Muitas evidências indicavam que o comportamento de
Cody em outra área também deixava a desejar: envolvia a
sua amizade com uma mulher chamada Helen Dolan
Wilson.
Cody dissera a seu pessoal na chancelaria que Helen
Wilson era sua parente. A natureza exata do parentesco
variava; mas, de um modo geral, ela era descrita como
prima. A fim de explicar a vida elegante de Helen Wilson,
as roupas sempre na última moda, as viagens constantes, o
apartamento luxuoso, o cardeal espalhou que a prima foi
deixada "muito bem de vida" pelo falecido marido. As
acusações encaminhadas a Roma apontavam que Cody e
Helen Wilson não tinham nenhum parentesco; que o
marido de quem ela se “divorciara há muito tempo”
estava vivo na ocasião em que o cardeal o declarara morto
e que, ainda por cima, quando o ex-marido morreu, em
maio de 1969, não deixou testamento e seu único bem
5/69
terreno, um carro de oito anos, no valor de 150 dólares,
ficou para a segunda esposa.
As acusações, apresentadas a Roma em caráter
confidencial, incluíam provas de que a amizade de Cody
com Helen Wilson era antiga; que ele fizera um seguro de
vida no valor de 100 mil dólares, indicando-a como
beneficiária, e o registro de emprego dela na chancelaria
de Chicago foi falsificado pelo cardeal, para permitir que
ela obtivesse uma pensão maior. A pensão se baseava em
24 anos de trabalho para a diocese, o que era
comprovadamente falso. Havia também provas de que
Cody dera à amiga a quantia de 90 mil dólares, a fim de
que ela pudesse comprar uma casa na Flórida. O Vaticano
foi lembrado de que Helen Wilson acompanhou Cody a
Roma quando ele foi elevado a cardeal; muitas outras
pessoas, na verdade, integravam a sua comitiva. No
entanto, nenhuma delas, exceto Helen, participava da
direção da diocese de Chicago, decidia sobre os móveis e
a decoração da residência do cardeal. Foi também alegado
que Cody desviara centenas de milhares de dólares dos
fundos da Igreja para Helen.
Como se tudo isso não fosse suficiente, as acusações
ainda enumeravam as vultosas quantias relativas à
contratação de seguros das dioceses que foram enviadas
para David, o filho de Helen. David Wilson começara a se
beneficiar da generosidade do "Tio" John já em St. Louis,
em 1963. À medida que o cardeal subia, o negócio de
seguros prosperava. Foi alegado que as comissões que
5/70
David Wilson ganhou, monopolizando os seguros da
Igreja, controlados por Cody, ultrapassavam os 150 mil
dólares.
Baggio estudou cuidadosamente a lista longa e detalhada.
Houve investigações. O Vaticano é incomparável no
negócio de espionagem. Basta se considerar o número de
padres e freiras existentes no mundo, todos devendo
fidelidade a Roma. As respostas chegaram ao cardeal
Baggio, confirmando: as acusações eram procedentes. Era
então o final de junho de 1978.
Em julho de 1978, o cardeal Baggio tornou a discutir o
problema do cardeal Cody com o Papa Paulo VI, que
acabou concordando que Cody devia ser substituído. Ele
insistiu, porém, que isso devia ser feito com compaixão,
de uma maneira que permitisse a Cody manter as
aparências. Mais importante ainda, devia ser feito de
maneira a evitar qualquer publicidade escandalosa. Ficou
combinado que Cody seria informado de que devia aceitar
um coadjutor – um bispo que dirigiria a diocese, para
todos os efeitos práticos. Oficialmente, seria anunciado
que isso acontecia por causa dos problemas de saúde de
Cody, que realmente existiam. Cody teria permissão para
continuar como titular da diocese de Chicago até alcançar
a aposentadoria compulsória, aos 75 anos, em 1982.
Munido com o édito papal, o cardeal Baggio prontamente
providenciou sua viagem, fez as malas e seguiu para o
Aeroporto Fiumicino, em Roma. Ali chegando, foi
5/71
informado de que o papa desejava falar com ele, antes que
voasse para Chicago.
Paulo mais uma vez voltara atrás. Disse a Baggio que o
plano de colocar um coadjutor em Chicago para assumir o
poder só poderia ser executado se Cody concordasse.
Consternado, Baggio suplicou:
— Posso insistir, Santo Padre?
— Não, não pode. O plano só deve ser executado se Sua
Eminência concordar.
Um irado e frustrado cardeal Baggio voou para Chicago.
As redes de espionagem transmitem as informações para
um lado e outro. O cardeal Cody tinha as suas fontes na
Cúria Romana. O elemento surpresa, com que Baggio
esperava desconcertar Cody, se perdera um dia antes de
sua reunião crucial com o papa. Cody estava pronto e
esperando.
A maioria das pessoas, na situação de Cody, se
submeteria a uma pequena auto-análise, talvez a uma
reavaliação dos acontecimentos que, ao longo dos anos,
haviam levado aquele papa tão relutante à angustiante
conclusão de que o poder que o cardeal de uma diocese
como Chicago detinha, no interesse de todos, devia ser
entregue a outro. Os sentimentos do cardeal a ser
substituído haviam sido considerados, de sorte que o papa
até providenciara para que o motivo da viagem de Baggio
5/72
a Chicago fosse um segredo. Oficialmente, ele estava
seguindo para o México, a fim de cuidar das providências
finais para a Conferência de Puebla. Mas o cardeal Cody,
em nenhum momento, levou em consideração esses
melindres.
A confrontação entre Cody e Baggio ocorreu na
residência de veraneio do cardeal, na localidade do
seminário em Mundelein. Baggio expôs as evidências.
Mostrou que, ao dar presentes em dinheiro a Helen
Wilson, o cardeal incluíra quantias que pertenciam à
Igreja. Além disso, a pensão que concedera à sua amiga
era indevida. As investigações do Vaticano revelaram
uma variedade de imoralidades que certamente
envolveriam a Igreja Católica em descrédito, se se
tornassem de conhecimento público.
Cody estava longe de se mostrar arrependido, enquanto a
confrontação rapidamente evoluía para uma discussão aos
gritos. Cody pôs-se a falar de suas vultosas contribuições
a Roma, de todo o dinheiro que despejara no Banco do
Vaticano para ser usado na Polônia, das doações que
fizera ao papa durante as suas visitas ad limina (as visitas
de prestação de contas obrigatórias a cada cinco anos)...
Não falava dos míseros poucos milhares de dólares que os
outros levavam, mas de centenas de milhares de dólares.
Por toda a área do seminário, podia-se ouvir os gritos
daqueles dois príncipes da Igreja. Cody se manteve
intransigente. Outro bispo só dirigiria a diocese "por cima
do meu cadáver". Ao final, como uma agulha enguiçada
5/73
num disco, ele só podia pronunciar insistentemente uma
única frase:
— Não renunciarei ao poder em Chicago.
Baggio foi embora, temporariamente derrotado. Um Cody
desafiante, que se recusava a aceitar um coadjutor, era
uma total violação das leis canônicas. Mas tornar
publicamente conhecido que o cardeal de uma das mais
poderosas dioceses do mundo estava desafiando
abertamente a autoridade papal era, para Paulo VI,
inconcebível. Para não ter de se expor a tal, Paulo
toleraria Cody até o final de seus dias. E tais dias de
tolerância seriam poucos. Uma semana depois de receber
o relatório de Baggio, o Papa Paulo VI morreu.
Em meados de setembro, Albino Luciani já estudara em
profundidade o problema de Cody. Reuniu-se com o
cardeal Baggio e discutiu o assunto. Falou das
implicações da crise com Villot, Benelli, Felici e Casaroli.
Em 23 de setembro, teve outra reunião longa com o
cardeal Baggio. Ao final, comunicou que lhe informaria
de uma decisão nos próximos dias.
Em Chicago, pela primeira vez em sua longa e turbulenta
história, o cardeal Cody começou a sentir-se vulnerável.
Depois do conclave, ele partícularmente não dera a menor
importância ao italiano tranqüilo que sucedera a Paulo.
— Tudo continuará a mesma coisa — declarara Cody a
5/74
um dos seus amigos íntimos na Cúria.
Era justamente o que Cody queria, pois assim continuaria
a mandar e desmandar em Chicago. Agora, no entanto, as
notícias de Roma indicavam que ele subestimara
seriamente o novo papa. À medida que setembro de 1978
se aproximava do fim, John Cody convencia-se de que
Luciani agiria onde Paulo permanecera inativo. Os amigos
de Cody informaram-no de que o novo papa, com toda
certeza, levaria sua decisão até o fim, qualquer que fosse.
Citaram muitos exemplos da vida de Luciani que
revelavam uma excepcional força interior.
Na mesa de trabalho de Luciani estava um dos poucos
bens pessoais que ele estimava. Uma fotografia.
Originalmente, ficava numa moldura velha e escalavrada.
Durante a sua permanência em Veneza, um paroquiano
agradecido mandara remontar a fotografia numa moldura
de prata, cravejada com pedras semipreciosas. A
fotografia era dos pais, tendo ao fundo as Dolomitas6,
cobertas de neve. Nos braços da mãe estava Pia, bebê,
agora uma mulher casada, com seus próprios filhos.
Durante o mês de setembro de 1978, seus secretários
observaram que o papa, em diversas ocasiões, parecia
perdido em pensamentos, enquanto contemplava a
fotografia. Era uma lembrança de tempos mais felizes,
quando homens como Cody, Marcinkus, Calvi e outros
6 Consideradas um dos lugares mais bonitos da Europa, as Dolomitas são
uma cadeia de montanhas no norte da Itália.
5/75
não perturbavam sua tranqüilidade. Havia, então, tempo
para o silêncio e para pequenas coisas. Agora, Luciani
tinha a impressão de que nunca encontrava tempo
suficiente para os aspectos mais importantes de sua vida.
Estava apartado de Canale e até mesmo de sua família.
Ainda conversava ocasionalmente, por telefone, com
Edoardo e Pia, mas as visitas inesperadas haviam acabado
para sempre. A máquina do Vaticano cuidava disso. Até
mesmo Diego Lorenzi tentava afastar Pia quando ela
telefonava. Ela queria levar alguns pequenos presentes,
lembranças do norte.
— Deixe no portão — disse Lorenzi. — O papa está
muito ocupado para recebê-la.
Luciani ouviu essa conversa e pegou o telefone.
— Venha me visitar. Não tenho tempo, é verdade, mas
darei um jeito.
Almoçaram juntos. Tio Albino gozava de excelente saúde
e parecia muito animado. Durante a refeição, comentou
seu novo papel:
— Se soubesse que um dia me tornaria papa, eu teria
estudado mais. E muito difícil ser papa.
Pia compreendia como o trabalho podia ser árduo e difícil,
e tudo agravado pela obstinação da Cúria. Luciani
desejava tratar Roma como sua nova paróquia, passeando
5/76
pelas ruas como costumava fazer em Veneza e suas outras
dioceses. Mas havia problemas para um Chefe de Estado
se comportar assim. A Cúria declarou categoricamente
que a idéia não apenas era inconcebível, mas também
inexeqüível. A cidade mergulharia num caos constante se
o Santo Padre saísse a perambular pelas ruas. Luciani
abandonou a idéia, mas apenas por uma versão
modificada. Comunicou aos homens do Vaticano que
desejava visitar todos os hospitais, igrejas e centros de
refugiados em Roma, gradativamente conhecendo e
circulando por todos os setores do que considerava a sua
paróquia. Para um homem determinado a ser um papa
pastoral, a realidade em sua porta constituía um poderoso
desafio.
Roma possui uma população católica de dois milhões e
meio de habitantes. Deveria estar produzindo pelo menos
70 novos padres por ano. Quando Luciani tornou-se papa,
produzia apenas seis. A vida religiosa de Roma era
mantida pela importação de clérigos. Muitas partes da
cidade eram, na verdade, pagãs, com o comparecimento
às igrejas sendo inferior a três por cento da população.
Ali, no coração da fé, o ceticismo era grande.
A cidade que se tornara o lar de Albino Luciani, papa,
também abrigava o prefeito comunista Carlo Argan – um
prefeito comunista numa cidade cuja maior indústria, a
religião, só é equiparada ao índice de criminalidade. Um
dos novos títulos que Luciani adquirira era o de bispo de
Roma, uma cidade que não contava, há mais de um
5/77
século, com um bispo, no mesmo sentido que Milão,
Veneza, Florença ou Nápoles. E isso transparecia.
Enquanto Pia almoçava com o papa, Dom Diego estava
envolvido numa discussão prolongada com um membro
da Cúria, que se recusava a sequer considerar o desejo
papal de visitar diversas partes de Roma. Luciani
interrompeu a conversa com Pia para dizer a seu
secretário:
— Diga a ele que tem de ser feito, Dom Diego. Diga que
o papa assim o deseja.
Lorenzi transmitiu a determinação papal, mas a recusa
persistiu. Virando-se para o papa, ele informou:
— Eles dizem que não é possível, Santo Padre, porque
nunca foi feito antes.
Pia observava, fascinada, enquanto prosseguia a “partida
de tênis” do Vaticano. Luciani acabou pedindo desculpas
à sobrinha pela interrupção e disse a seu secretário que
daria as instruções necessárias a Villot. E acrescentou
para Pia, sorrindo:
— Se a Cúria Romana permitir, seu tio espera visitar o
Líbano antes do Natal.
Ele discorreu longamente sobre aquele país conturbado e
seu desejo de interferir antes que o barril de pólvora
5/78
explodisse. Depois do almoço, quando a sobrinha estava
de partida, Luciani insistiu em lhe dar de presente uma
medalha, que ganhara da mãe do presidente do México.
Poucos dias depois, em 15 de setembro, recebeu o irmão
Edoardo para jantar. Essas duas reuniões familiares
estavam destinadas a ser as últimas que Albino Luciani
teria.
Enquanto o pontificado de Albino Luciani prosseguia,
aumentava o abismo entre o papa e os observadores
profissionais do Vaticano, na proporção direta em que se
tornavam mais estreitos os laços entre o novo papa e o
público em geral. A perplexidade dos profissionais era
compreensível.
Deparados com um cardeal não curial que carecia de
reputação internacional, os profissionais concluíram que
observavam o primeiro de uma nova espécie de papa,
deliberadamente escolhido para garantir que houvesse
uma redução de poder, um papel menos significativo para
o pontificado. Não pode haver muita dúvida de que o
próprio Luciani encarava o seu papel de modo desinflado.
O essencial nessa visão de um pontificado menos
ostensivo era o papa em si. A natureza de Albino Luciani,
sua personalidade, inteligência e talentos extraordinários
fizeram com que o público em geral conferisse, ao novo
papa, maior importância, aceitando o que ele tinha a dizer
como algo de significado mais profundo. A reação pública
a Luciani demonstrava claramente a grande necessidade
5/79
de uma atuação papal ampliada [e reduzida na pompa],
exatamente o inverso do que pretendiam muitos cardeais.
Quanto mais Luciani se mostrava humilde, mais relevante
ele se tomava para os fiéis. Muitos dos que só haviam
conhecido Luciani em seus dias em Veneza estavam
profundamente surpresos com o que consideravam uma
mudança no homem. Em Vittorio Veneto, Belluno e
Canale, no entanto, não houve nenhuma surpresa. Aquele
era o verdadeiro Albino Luciani: a simplicidade, o senso
de humor, a ênfase no catecismo eram-lhe peculiares.
Em 26 de setembro, Luciani podia olhar para trás e
contemplar com satisfação o seu primeiro mês no novo
cargo. Foi um mês repleto de impactos. Suas
investigações sobre atividades corruptas e desonestas
lançaram os responsáveis por elas no medo mais
profundo. Sua impaciência com a pomposidade da Cúria
causara indignação. Em diversas ocasiões, ele abandonara
os discursos escritos oficialmente e se queixara em
público:
— O estilo é curial demais.
Ou comentava:
— Está suntuoso demais.
A Rádio Vaticano e L'Osservatore Romano raramente
reproduziam as suas palavras literalmente, mas o público
5/80
as ouvia e o mesmo acontecia com outros meios de
comunicação. Tomando emprestada uma frase de São
Gregório, o papa Luciani comentou que, ao elegê-lo, "o
imperador esperava que um macaco se transformasse em
leão". Lábios se contraíram no Vaticano, enquanto bocas
se abriam em sorriso no público. Ali estava um "macaco"
que, no transcorrer de seu primeiro mês de pontificado,
falara-lhes em latim, italiano, francês, inglês, alemão e
espanhol. Como Winston Churchill poderia ter
comentado, "que macaco"!
Em 7 de setembro, durante uma audiência particular com
Vittore Branca, às 8:00 da manhã, um horário que causou
consternação na Cúria, o amigo manifestou sua
preocupação pelo peso do pontificado. Ao que Luciani
respondeu:
- É verdade; claro que sou muito pequeno para grandes
coisas. Só posso repetir a verdade e o Evangelho, como
fazia na igrejinha da minha terra. Basicamente, os
homens precisam disso. Sou o guardião das almas, acima
de tudo. Entre o padre da paróquia de Canale e mim só
há diferença no número de fiéis. A missão, no entanto, é a
mesma: lembrar Cristo e sua palavra.
Mais tarde, nesse mesmo dia, reunido com todos os
padres de Roma, ele falou da necessidade de meditação.
Suas palavras têm um significado pungente quando se
considera quão pouco tempo e espaço um novo papa
dispõe para meditação:
5/81
Fiquei comovido na estação ferroviária de Milão
ao ver um carregador dormindo na maior
felicidade, com a cabeça num saco de carvão e as
costas numa pilastra. Os trens apitavam ao
partirem; as rodas guinchavam ao chegarem. Os
altofalantes constantemente irrompiam. As
pessoas passavam ruidosamente. Mas o homem
continuava a dormir e parecia dizer: "Façam o
que devem, mas eu preciso de alguma paz”. Nós,
sacerdotes, devemos fazer a mesma coisa. Há um
movimento contínuo ao nosso redor. Pessoas
falando, jornais, emissoras de rádio e televisão.
Com a disciplina e moderação de sacerdotes,
devemos dizer: "Além de determinados limites,
vocês não existem para mim. Sou um sacerdote
do Senhor. Preciso de um pouco de silêncio para
a minha alma. Eu me distancio de vocês para
estar com meu Deus por algum tempo”.
O Vaticano registrava os seus discursos nas audiências
gerais, quando ele falou, em sucessivas quartas-feiras, em
Fé, Esperança e Caridade. Mas a súplica de Luciani para
que essas virtudes fossem demonstradas, por exemplo, em
relação aos viciados em tóxicos, foi ignorada pela Cúria,
que controlava os meios de comunicação do Vaticano.
Em 20 de setembro, quando ele pronunciou esta frase
memorável – que era errado acreditar em “Ubi Lenin, ibi
Jerusalem” (onde Lenin está, há Jerusalém) –, a Cúria
5/82
anunciou que o papa estava rejeitando a teologia da
libertação. Não estava. Além disso, a Rádio Vaticano e
L'Osservatore Romano deixaram de registrar a importante
avaliação de Luciani de que, entre a Igreja e a salvação
religiosa, por um lado, e o mundo e a salvação humana,
por outro, "há alguma coincidência, mas não podemos
construir uma equação perfeita".
No dia 23 de setembro, um sábado, a investigação de
Luciani sobre a Vaticano S. A. estava bastante adiantada.
Villot, Benelli e outros haviam fornecido relatórios sobre
os quais o papa meditara. Neste dia, ele deixou o Vaticano
pela primeira vez, a fim de tomar posse de sua catedral
como o bispo de Roma. Apertou a mão do prefeito de
Roma, Argan, trocaram discursos. Depois da missa que se
seguiu, com a maioria da Cúria presente, o papa referiuse,
por diversas vezes, aos problemas íntimos com que se
defrontava. Aludindo aos pobres, o setor da população
que mais falava ao seu coração, Luciani disse:
- Como afirmou o diácono romano Lourenço7, esses são
7 Lourenço virou mártir e a tradição diz que, graças à sua trágica morte –
foi queimado vivo - todos em Roma tornaram-se cristãos. Era o ano de
258 quando o imperador Valerian decretou que todos os clérigos
fossem executados, por enforcamento. Lourenço acabou pior, torrado,
porque, conta-se, enganou o imperador. Pediu-lhe três dias para juntar
toda a riqueza da Igreja num só lugar, para entregá-la ao imperador.
(como tal Igreja, de “cristãos primitivos”, já era então rica assim... é,
claro, uma história muito mal contada.) Findo aquele prazo, o que
Lourenço juntara não tinha sido ouro e prata, mas os pobres. Chamou
Valeriam e, apontando para eles, apresentou ao imperador “a
verdadeira riqueza da Igreja”. Furioso, Valerian ordenou aquele fim
5/83
os verdadeiros tesouros da Igreja. Mas devem ser
ajudados por aqueles que podem, pelos que têm mais e
são mais, sem serem humilhados e ofendidos pelas
riquezas ostensivas, pelo dinheiro esbanjado em coisas
inúteis e não investido em empreendimentos que
beneficiem a todos, na medida do possível.
Mais adiante, no mesmo discurso, ele virou-se e olhou
diretamente para os homens do Banco do Vaticano,
reunidos a um lado, passando a falar sobre as dificuldades
de guiar e governar:
- Embora tenha sido bispo de Vittorio Veneto, e em
Veneza tivesse detido o posto por mais de 20 anos,
reconheço que não aprendi o trabalho muito bem. Em
Roma, eu me colocarei na escola de São Gregório, o
Grande, que escreveu que (o pastor) deve, com
compaixão, estar próximo de cada um que a ele está
confiado; independentemente de seu posto, deve se
considerar no mesmo nível que o rebanho, mas sem temer
exercitar os direitos de sua autoridade contra os
iníquos...
Sem conhecimento do que acontecia no Vaticano, o
público limitou-se a assentir sabiamente. Mas a Cúria
sabia exatamente a que o papa se referia. Era um
pronunciamento elegante e indireto, ao melhor estilo do
Vaticano, sobre os eventos futuros.
para Lourenço. Bela alegoria...
5/84
As mudanças pairavam no ar, e na aldeia do Vaticano
havia especulações frenéticas. O bispo Marcinkus e pelo
menos dois de seus assessores mais chegados, Mennini e
De Strobel, estavam para cair. Isso era considerado um
fato inevitável. O que mais agitava as mentes curiais era
que havia também rumores de outras substituições.
No domingo, 24 de setembro, quando um visitante
particular aos aposentos papais foi identificado por um
atento monsenhor como sendo Lino Marconato, o
excitamento na aldeia alcançou um novo auge. Marconato
era diretor do Banco San Marco. Sua presença nos
aposentos papais indicava que já havia sido encontrado
um sucessor para o Banco Ambrosiano?
Na verdade, porém, a reunião foi sobre questões bancárias
menos exóticas. O Banco San Marco tomara-se o banco
oficial da diocese de Veneza depois que Luciani, furioso,
encerrara todas as contas na Banca Cattolica del Veneto.
Agora, Luciani precisava encerrar suas contas pessoais no
San Marco, sabendo que nunca mais voltaria a residir
naquela cidade. Marconato encontrou o seu quase excliente
na melhor saúde. Conversaram cordialmente sobre
Veneza. Luciani deu instruções para que o dinheiro em
sua conta de Patriarca fosse transferido para o seu
sucessor.
A preocupação com as mudanças iminentes era intensa.
Em muitas cidades. Por muitas pessoas.
5/85
Outro que tinha um interesse velado no que Luciani podia
estar prestes a fazer era Michele Sindona. A batalha de
quatro anos de Sindona para evitar sua extradição dos
Estados Unidos para a Itália caminhava, em setembro de
1978, para o clímax. Pouco antes, em maio desse mesmo
ano, um juiz federal americano decidira que o siciliano,
que se tornara cidadão suíço, deveria ser recambiado a
Milão, a fim de enfrentar o julgamento pelo que fizera.
Em sua ausência, Sindona fora condenado a três anos e
meio de prisão, mas sabia que essa sentença soaria uma
clemência depois que os tribunais italianos acabassem
com ele. Apesar da investigação federal, ele ainda se
achava livre de qualquer acusação nos Estados Unidos. O
colapso do Franklin Bank foi seguido pela prisão de
diversos indivíduos, sob várias acusações mas, em
setembro de 1978, o Tubarão permanecia incólume. Seu
maior problema, na ocasião, estava na Itália.
A bateria de advogados de um milhão de dólares
persuadira os tribunais americanos a não decretarem a
extradição, até que os procuradores federais provassem
que havia, em Milão, provas concretas das diversas
acusações formuladas contra Sindona.
De maio em diante, os procuradores se empenhavam ao
máximo para obter essas provas. Sindona, ajudado pela
Máfia e por seus companheiros da P2, empenhava-se com
igual afinco para dar um sumiço nas provas. Quando
setembro de 1978 se aproximava do fim, ele ainda tinha
5/86
muitos "problemas".
O primeiro era o depoimento prestado, no processo de
extradição, por uma testemunha, Nicola Biase, um antigo
empregado de Sindona. Seu depoimento era considerado
perigoso. Sindona procurou tomá-lo “seguro". Discutiu o
problema com a família mafiosa Gambino e um pequeno
contrato foi fechado. Não chegava a ser particularmente
sinistro: Biase, a mulher, a família e seu advogado seriam
ameaçados de morte. Se sucumbissem à ameaça e Biase
refutasse o depoimento, tudo ficaria por aí. Mas se Biase
se recusasse a cooperar com a Máfia, então a família
Gambino e Sindona planejavam "revisar" a situação. O
que não antecipava nada de bom para a saúde de Biase. O
contrato de menos de mil dólares seria trocado por outro
mais condizente. Luigi Ronsisvalle e Bruce McDowall
foram os escolhidos para executar o contrato. Ronsisvalle
é um assassino profissional.
Outro contrato também foi discutido com Ronsisvalle. A
Máfia informou-o de que Michele Sindona queria a morte
do promotor federal John Kenney.
Nada demonstra tão claramente a mentalidade de Michele
Sindona quanto o contrato para liquidar John Kenney. O
promotor que atuava no processo de extradição era o
homem que comandava a pressão do governo americano
para acabar com a permanência de Sindona nos Estados
Unidos. Sindona estava convencido de que o problema
terminaria se Kenney fosse eliminado. Funcionaria como
5/87
uma advertência ao governo de que ele, Michele Sindona,
não admitia mais a pressão. A investigação seria suspensa.
Não haveria mais irritantes comparecimentos ao tribunal,
não haveria mais tentativas absurdas para enviá-lo de
volta à Itália. O mecanismo de pensamento, neste caso, é
cem por cento o da Máfia siciliana. É uma filosofia que
funciona repetidamente na Itália. Faz parte essencial da
Solução Italiana. As autoridades podem ser intimidadas e
de fato o são. Os investigadores que substituem um colega
assassinado não se mostram tão ansiosos em esclarecer
um caso. Sindona raciocinou que qualquer coisa que
funcionava em Palermo também daria certo em Nova
York.
Luigi Ronsisvalle, embora fosse um assassino
profissional, relutou em aceitar o contrato. O pagamento
de 100 mil dólares era ótimo. Mas Ronsisvalle,
compreendendo o sistema americano muito mais do que
Sindona, achava que não teria oportunidade alguma de
gastá-lo. Se Kenney fosse assassinado, haveria ondas, a
repercussão seria tremenda. Ronsisvalle começou a
procurar alguém que, agindo em nome da família
Gambino, julgasse ter possibilidades de sobrevivência
depois de assassinar um promotor federal americano.
Sindona e seus associados concentraram-se no problema
seguinte, Carlo Bordoni, ex-associado nos negócios e
amigo intimo de Sindona. Bordoni já enfrentava diversas
acusações pela falência do Franklin Bank. Poderia aceitar
um acordo [proposto pelas autoridades] para redução de
5/88
sua pena, em troca de um depoimento fatal contra o
Tubarão. Por isso, ficou decidido que o tratamento
previsto para Nicola Biase, sua família e seu advogado
seria também aplicado a Carlo Bordoni.
Os problemas restantes de Sindona estavam na Itália,
especialmente no Vaticano. Se Marcinkus caísse, Calvi
também estaria perdido. Se Calvi afundasse, Sindona
também seria arrastado. A luta de quatro anos para evitar
a extradição seria encerrada com a sua derrota. Um
homem que julgava ser possível resolver seus problemas
nos Estados Unidos com o assassinato de um promotor
federal não pensaria que a grande ameaça com que se
defrontava na Itália poderia ser eliminada com a morte de
um papa?
Sindona, Calvi, Marcinkus e o cardeal Cody: em 28 de
setembro de 1978 estava evidente que todos esses homens
seriam destruídos, se Albino Luciani resolvesse
prosseguir nos cursos de ação que já indicara. Outros que
seriam diretamente afetados: Licio Gelli e Umberto
Ortolani. Para esses lideres da P2, perder Calvi seria
equivalente à Loja Maçônica perder seu caixa-pagador.
Em 28 de setembro, um outro nome foi acrescentado aos
que seriam seriamente afetados pelas ações propostas por
Luciani. O novo nome era o do cardeal Jean Villot,
secretário de Estado do Vaticano.
Na manhã de 28 de setembro, depois de tomar café com
leite e comer um croissant, Luciani já estava à sua mesa
5/89
de trabalho antes das oito horas da manhã. Havia muito o
que fazer.
O primeiro problema que ele enfrentou foi L'Osservatore
Romano. Durante o mês anterior, ele tivera motivos para
se queixar do jornal em diversas ocasiões. Depois de
vencida a batalha envolvendo os pomposos termos "nós" e
“nosso”, que o jornal antes insistia em empregar no lugar
da escolha mais humilde, de Luciani, pela primeira pessoa
do singular, cada nova edição diária proporcionava mais
motivos de irritação para Luciani. O jornal aderia
rigorosamente aos discursos escritos pela Cúria e ignorava
os comentários pessoais que o papa acrescentava. Até
mesmo se queixava quando jornalistas italianos
reproduziam exatamente o que o papa dissera, em vez de
se limitarem ao que L'Osservatore Romano achava que
ele deveria ter dito. Havia agora novos problemas, de
natureza muito mais séria.
Diversos cardeais da Cúria descobriram horrorizados que,
pouco antes do conclave, Albino Luciani fora entrevistado
a respeito do nascimento de Louise Brown, conhecida
como o "primeiro bebê de proveta". A entrevista se
realizara três dias antes da morte do Papa Paulo VI, mas
suas opiniões só se tornaram amplamente conhecidas
depois que a matéria saiu em Prospettive nel Mondo, após
sua eleição. Os partidários da linha dura na questão do
controle da natalidade ficaram consternados ao lerem as
opiniões daquele que era agora o papa.
5/90
Luciani começara cautelosamente, deixando bem claro
que estava expressando apenas a sua opinião pessoal, já
que, como todo o mundo, "esperava para saber quais
seriam os autênticos ensinamentos da Igreja, depois que
os experts fossem consultados". Os eventos subseqüentes
criaram uma situação em que os ensinamentos autênticos
da Igreja, naquele ou em qualquer outro assunto,
passariam a estar totalmente dentro da competência de
Luciani.
Na entrevista, Luciani manifestou um entusiasmo
comedido pelo nascimento. Estava preocupado com a
possibilidade de "fábricas de bebês", uma apreensão
profética, tendo em vista os acontecimentos atuais na
Califórnia, onde mulheres fazem filas para serem
fecundadas pelo esperma de ganhadores do Prêmio Nobel.
Numa mensagem pessoal aos pais de Louise Brown,
Albino Luciani disse:
- Seguindo o exemplo de Deus, que deseja e ama a vida
humana, eu também envio os meus melhores votos de
felicidades para a criança. Quanto aos pais, não tenho o
direito de condená-los; se agiram com boas intenções e
de boa fé, talvez até tenham um grande mérito aos olhos
de Deus pelo que decidiram e pediram aos médicos que
fizessem.
Depois, ele chamou a atenção para um pronunciamento de
Pio XII, que poderia pôr o ato de fecundação artificial em
5/91
conflito com a Igreja. Considerando a opinião de que cada
indivíduo tem o direito de escolher por si mesmo,
manifestou sua opinião, que repousava na própria essência
de seu pensar em relação a muitos problemas morais:
- Concordo que a consciência individual deve ser sempre
seguida, quer comande, quer proíba; o indivíduo, porém,
deve sempre procurar desenvolver uma consciência
íntegra.
Os setores do Vaticano – os que acreditam que a única
consciência íntegra é aquela moldada exclusivamente por
eles – começaram a se pronunciar. Houve reuniões
secretas. Os que compareciam a essas reuniões achavam
que, “evidente”, era preciso deter Luciani. Falaram da
"traição a Paulo", o que, para certas mentes romanas
refinadas, é uma maneira elegante de dizer "eu discordo".
Quando notícias do cauteloso diálogo entre a Secretaria de
Estado do Vaticano e o Departamento de Estado
americano começaram a vazar, aquele grupo resolveu
entrar em ação. A informação subseqüente de que uma
delegação americana envolvida com o controle da
natalidade teria uma audiência com o papa impingiu uma
urgência adicional aos homens no Vaticano, que
consideravam que a Humanae Vitae deveria ser a última
palavra sobre o assunto.
Em 27 de setembro, apareceu na primeira página de
L'Osservatore Romano um longo artigo intitulado
5/92
"Humanae Vitae e a Moral Católica". Era do cardeal Luigi
Ciappi, OP, teólogo do círculo papal. O cardeal Ciappi foi
o teólogo pessoal de Paulo VI e Pio XII. Com um autor
assim, o artigo parecia ter a aprovação pessoal do novo
papa. Fora publicado antes em Laterano, para "celebrar" o
10° aniversário da Humanae Vitae. Sua republicação era
uma tentativa deliberada de bloquear qualquer mudança
na questão do controle da natalidade que Albino Luciani
pudesse desejar. O artigo é uma sucessão de louvores à
Humanae Vitae. Há muitas citações de Paulo VI, mas
nenhuma palavra de Luciani, confirmando que partilhava
as opiniões de Paulo ou Ciappi. O motivo para isso é
simples: Ciappi não discutira o artigo com Luciani. Na
verdade, em 27 de setembro de 1978, o cardeal Ciappi
ainda aguardava uma audiência particular com a novo
papa. Luciani só tomou conhecimento do longo artigo e
das opiniões que ele continha quando o leu no jornal.
Na segunda página, ele encontrou outro esforço da Cúria
para solapar a sua avaliação sobre o assunto: mais um
artigo, em três colunas, intitulado "O Risco da
Manipulação na Criação da Vida". Era uma condenação
dogmática do "bebê de proveta" Louise Brown e de toda
fertilização artificial. Esse artigo também não continha
nenhuma referência a Luciani. A Cúria sabia muito bem
que, apesar de todas as alegações de L'Osservatore
Romano de ser apenas semi-oficial, tais artigos seriam
recebidos pelo mundo como sendo opiniões do novo papa.
Era o início da batalha aberta.
5/93
Em 28 de setembro, pouco depois de oito horas da manhã,
o papa telefonou para seu secretário de Estado, Jean
Villot. Exigiu uma explicação completa sobre a
publicação dos dois artigos. Telefonou depois para o
cardeal Felici, em Pádua, onde faria retiro espiritual.
Luciani passara a usar Felici, cada vez mais, como uma
caixa de ressonância para suas idéias. Sabia que suas
opiniões divergiam em muitas coisas, mas sabia, também,
que Felici reagiria com absoluta franqueza e honestidade.
O papa estava igualmente consciente de que poucos
conheciam tanto as maquinações da Cúria quanto Felici,
decano do Sacro Colégio.
Luciani manifestou a Felici sua irritação pelos dois artigos
e depois disse:
— Lembra-se de que, há alguns dias, avisou-me de que a
Cúria desejava conter minha exuberância natural?
— Foi apenas um palpite, Santidade.
— Talvez possa fazer a gentileza de, em meu nome,
retribuir tal “bondade”. Diga àquele jornalzinho para
conter suas opiniões sobre tais questões. Os editores são
como os papas. Nem um, nem o outro, é indispensável.
Depois de marcar um encontro com Felici para mais tarde,
naquele mesmo dia, Luciani passou ao problema seguinte,
a Igreja da Holanda. Cinco dos sete bispos holandeses
planejavam adotar uma opinião moderada nas questões do
aborto, homossexualismo e ordenação de padres casados.
5/94
Entre os cinco estava o cardeal Willebrands, aquele que
oferecera palavras de conforto a Luciani durante o
conclave. Os cinco tinham a oposição de dois bispos
extremamente conservadores: Gijsens, de Roermond, e
Simonis, de Rotterdam. Uma reunião na Holanda, em
novembro de 1978, prometia ser o campo de batalha que
revelaria as divisões profundas ao público holandês.
Havia um outro problema, que tinha sido exposto, num
relatório detalhado, ao falecido Papa Paulo VI. Os jesuítas
moviam uma campanha contra o teólogo e professor
dominicano Edward Schillebeeckx, famoso no mundo
inteiro. Em oposição semelhante àquela impingida a seu
contemporâneo suíço, Hans Kung, os conservadores
desejavam silenciar o que recebiam como as idéias
radicais de Schillebeeckx.
O temido Índice dos Livros Proibidos foi abolido por
Paulo VI. Sua morte deixara, sem solução, o problema de
como a Igreja Católica controlaria seus pensadores mais
qualificados. No passado, Luciani tomara emprestada uma
frase de Hans Kung para condenar os "teólogos de
tocaia". Mas esse não era o caso de pensadores como
Kung e Schillebeeckx, que manifestavam apenas um
profundo desejo de levar a Igreja de volta a suas origens,
uma inclinação que Albino Luciani aprovava plenamente.
Poucos minutos antes das dez horas, Luciani pôs o
relatório de lado e se concentrou em aspectos mais felizes
de seu cargo: uma série de audiências. Receberia primeiro
5/95
um grupo que incluía aquele que Luciani promovera à
presidência do Cor Unum, cardeal Bernard Gantin. O
papa ficou radiante com a presença forte e juvenil de
Gantin que, na sua opinião, representava o futuro da
Igreja. Durante a conversa, Luciani comentou:
— É apenas Jesus Cristo que devemos oferecer ao
mundo. Não teríamos razão nem propósito, nunca
seríamos ouvidos, se fôssemos além disso.
Outro que teve uma audiência naquela manhã foi Henri de
Riedmatten. Quando circularam por Roma, pouco depois
do conclave, notícias de que Luciani escrevera ao papa
Paulo, antes da Humanae Vitae, exortando-o a não
confirmar a proibição à anticoncepção artificial, foi
Riedmatten quem classificou tais rumores como "total
fantasia". Sua conversa com o papa, em 28 de setembro,
foi sobre o seu trabalho como secretário do Cor Unum,
mas Luciani advertiu-o a não se precipitar a outras
"negativas".
— Meu relatório sobre o controle da natalidade não
chegou ao seu conhecimento?
Riedmatten murmurou algumas palavras sobre uma
possível confusão.
— Deve-se tomar cuidado, padre Riedmatten, para não
se manifestar publicamente até que toda a confusão
esteja esclarecida. Caso precise de uma cópia do meu
5/96
relatório, tenho certeza de que se pode providenciar.
Riedmatten agradeceu ao papa profusamente. E manteve
um silêncio sensato a partir daí, enquanto Luciani discutia
os problemas do Líbano com o cardeal Gantin. Ele
informou a Gantin que, no dia anterior, conversara sobre a
planejada visita ao Líbano com o patriarca Hakin, cuja
diocese de rito greco-melquita se estendia não apenas pelo
Líbano invadido, mas também pela Síria invasora.
Luciani também recebeu em audiência, naquela manhã,
um grupo de bispos das Filipinas, que fazia a sua visita ad
limina. Diante de alguns que tinham de enfrentar a
realidade do cotidiano imposto pelo presidente Marcos8,
Luciani falou de um assunto do fundo de seu coração: a
evangelização.
Perfeitamente consciente das dificuldades que aqueles
bispos enfrentariam se ele falasse abertamente contra o
presidente Marcos, Luciani preferiu, em vez disso,
discorrer sobre a importância da evangelização. Lembroulhes
da visita do papa Paulo às Filipinas e disse:
- Num momento em que ele [papa Paulo] resolveu falar
sobre os pobres, sobre justiça e paz, direitos humanos,
libertação econômica e social; num momento em que ele
empenhou a Igreja efetivamente no esforço para atenuar
a miséria, não permaneceu – e não podia permanecer –
8 Marcos foi presidente das Filipinas de 1965 a 1986.
5/97
em silêncio em relação ao "bem maior", que é a plenitude
da vida no Reino do Céu.
A mensagem foi claramente compreendida, não apenas
pelos bispos, mas também pela família Marcos.
Depois das audiências matutinas, Luciani teve uma
reunião com o cardeal Baggio. Chegara a diversas
decisões e, então, estava prestes a transmitir duas delas a
ele.
A primeira era sobre o problema do cardeal John Cody, de
Chicago. Depois de avaliar todos os fatos, Luciani
decidira que Cody devia ser afastado. Ele esperava que
isso se efetuasse à maneira clássica do Vaticano, sem
nenhuma publicidade desagradável. Ele disse a Baggio
que Cody deveria ter a oportunidade de renunciar por
motivos de saúde. Isso não acarretaria comentários
adversos da imprensa, porque a saúde de Cody não estava
mesmo muito boa. Se Cody se recusasse a renunciar, não
seria submetido a escândalo por ser removido contra sua
vontade, mas um coadjutor seria designado. Ou seja, outro
bispo seria escolhido para assumir todo o poder efetivo e
dirigir a diocese. Luciani tinha certeza de que, diante
dessa alternativa, Cody optaria por se retirar com toda a
dignidade. Se insistisse em continuar, então não haveria
outro jeito. Seria destituído de toda e qualquer
responsabilidade perante a diocese. Luciani foi bastante
claro e objetivo. Não se tratava de um pedido, nem mera
sugestão. Um coadjutor seria nomeado, se Cody não
5/98
quisesse sair.
Baggio sentiu a maior satisfação, pois o problema
finalmente se resolveria. Mas não ficou tão satisfeito com
a decisão seguinte que Luciani anunciou. Veneza estava
sem um patriarca. O papa ofereceu o posto a Baggio.
Muitos se sentiriam honrados com tal oferta. Mas isso não
aconteceu com Baggio. Ficou furioso. Achava que seu
futuro, a curto prazo, estava em liderar a Conferência de
Puebla, no México. Acreditava que o futuro da Igreja se
encontrava no Terceiro Mundo. No longo prazo, seu lugar
era em Roma, no centro da ação. Em Veneza, estaria fora
de visibilidade e, o que era ainda mais importante, fora
das mentes, quando chegasse o momento de se formular
os planos futuros. A sua recusa em aceitar Veneza
surpreendeu Luciani.
A obediência ao papa e ao pontificado fora incutida em
Luciani desde os seus primeiros dias no seminário, em
Feltre. Tal obediência era de natureza incontestável. Ao
longo dos anos, à medida que sua carreira progredia,
passara a questionar as decisões papais, especialmente nas
questões da Vaticano S.A. e da Humanae Vitae. Mas seria
inconcebível para Luciani liderar uma rebelião
publicamente, mesmo em questões tão importantes.
Luciani foi aquele que, a pedido de papa Paulo, escreveu
diversos artigos em apoio à sua linha de atuação. Ao
escrever um desses artigos, sobre o divórcio, entregou-o a
5/99
seu secretário, padre Mario Senigaglia, com o seguinte
comentário:
— Tenho certeza de que isto me criará muitas dores de
cabeça quando for publicado, mas o papa pediu.
Recusar um pedido do papa, da maneira arrogante como
Baggio agora o fazia, era algo inadmissível. Ele e Baggio
tinham noções de valores completamente diferentes:
Luciani considerava o que era melhor para a Igreja
Católica; Baggio considerava o que era melhor para si
próprio.
Havia diversos motivos para que o papa concluísse que
Baggio devia ser transferido de Roma para Veneza. Um
deles era um nome na lista de maçons que Luciani
recebera: Baggio, nome maçônico Seba, número de Loja
85/2640. Registrado em 14 de agosto de 1957.
Luciani fizera a si próprio mais indagações, depois de sua
conversa com o cardeal Felici. Um comentário de Felici o
preocupava:
— Alguns da lista são mesmo maçons, outros não.
O problema de Luciani era distinguir os genuínos dos
falsos. As investigações ajudaram a produzir alguns
esclarecimentos.
O encontro entre Baggio e Luciani foi-me descrito como
5/100
"uma discussão muito violenta, com toda a violência e ira
partindo inteiramente de Sua Eminência, enquanto o
Santo Padre permanecia calmo".
Calmo ou não, Luciani tinha um problema sem solução na
hora do almoço. Veneza continuava sem um patriarca e
Baggio insistia que seu lugar era em Roma. Um pensativo
Luciani começou a tomar sua sopa.
O veranico que Roma vinha desfrutando desde o início do
mês foi substituído por um tempo mais frio naquela
quinta-feira. Depois de uma breve sesta, Luciani resolveu
restringir seu exercício diário a andar entre quatro
paredes. Começou a perambular pelos corredores. O papa
voltou a seu gabinete às 15:30 e deu diversos telefonemas.
Conversou com o cardeal Felici, em Pádua, e com o
cardeal Benelli, em Florença. Discutiu os acontecimentos
da manhã, inclusive a confrontação com Baggio, depois
falou de sua reunião seguinte, que seria com Villot. As
diversas decisões a que Luciani chegara estavam prestes a
ser transmitidas ao secretário de Estado.
Luciani e Villot sentaram-se para tomar um chá de
camomila. Numa tentativa de se aproximar mais de seu
secretário de Estado, o papa, de vez em quando,
conversava com Villot em francês. Era um gesto que o
cardeal de St Amande-Tallende apreciava. Ficara
impressionado com a rapidez com que Luciani assimilou
as funções do pontificado. Essa boa impressão suplantou
os domínios do escritório da Secretaria de Estado para
5/101
alcançar diversos amigos e antigos colegas de Luciani.
Monsenhor Da Rif, ainda trabalhando em Vittorio Veneto,
foi um dos muitos que receberam comentários sobre o
progresso de Luciani como papa.
Do cardeal Villot para baixo, todos admiravam a maneira
de trabalhar do papa Luciani. Sua capacidade de chegar à
raiz dos problemas, de tomar decisões rápidas e firmes.
Todos se impressionavam com a sua capacidade de
executar múltiplas tarefas. Era evidente que se tratava de
alguém que tomava decisões e as mantinha. Não cedia a
pressões. A meu ver, essa capacidade de manter as suas
decisões era uma das características mais notáveis de
Albino Luciani.
Durante o final da tarde de 28 de setembro, Jean Villot
obteve uma longa demonstração dessa capacidade que
tanto o impressionara durante o último mês. O primeiro
problema a ser discutido era o Istituto per le Opere di
Religione, o Banco do Vaticano. Luciani dispunha agora
de muitas informações detalhadas. O próprio Villot já
apresentara um relatório preliminar. Luciani também
obtivera outras informações do segundo homem da
Secretaria de Estado, arcebispo Giuseppe Caprio, assim
como de Benelli e Felici.
Para a bispo Paul Marcinkus, que desempenhara um papel
tão ativo para ajudar Calvi a assumir o controle da Banca
Cattolica, era mais um dos muitos problemas pelos quais
teria de prestar contas. Villot comunicou ao papa que as
5/102
investigações no banco inevitavelmente tornar-se-iam de
conhecimento público. A imprensa italiana se tornava
cada vez mais curiosa e uma grande reportagem acabara
de ser publicada.
A revista Newsweek contava com excelentes fontes no
Vaticano. Soubera que, antes do conclave, diversos
cardeais haviam pedido a Villot um relatório completo
sobre o Banco do Vaticano. Também informou que sua
"fonte bem situada" dizia que havia um movimento no
Vaticano para afastar Marcinkus. Citou literalmente tal
fonte na Cúria: "Há um movimento para tirá-lo do banco.
Ele será, provavelmente, nomeado bispo auxiliar".
Luciani sorriu.
— A Newsweek diz para mim quem eu colocarei no lugar
de Marcinkus?
Villot sacudiu a cabeça. Enquanto a conversa continuava,
Luciani deixou bem claro que não tinha a menor intenção
de deixar Marcinkus na Cidade do Vaticano, muito menos
no Banco do Vaticano. Depois de avaliá-lo pessoalmente
numa entrevista de 45 minutos no início do mês, Luciani
concluiu que Marcinkus seria mais bem aproveitado como
bispo auxiliar em Chicago. Não manifestou sua intenção a
Marcinkus, mas a polidez fria demonstrada para com o
homem de Cícero não passara despercebida. Voltando a
seu escritório no banco, depois da entrevista, Marcinkus
confidenciou a um amigo:
5/103
— Talvez eu não fique aqui por muito mais tempo.
A Calvi e a outros colegas do banco, ele disse:
— Não se pode esquecer que este papa tem idéias
diferentes do anterior. Haverá mudanças por aqui.
Grandes mudanças.
Marcinkus estava certo. Luciani comunicou a Villot que
Marcinkus deveria ser removido imediatamente. Não
dentro de uma semana ou um mês. Mas no dia seguinte.
Marcinkus deveria tirar uma licença. Um posto
conveniente lhe seria escolhido, assim que o problema do
cardeal Cody estivesse resolvido.
Villot foi informado de que Marcinkus seria substituído
por monsenhor Giovanni Angelo Abbo, secretário da
Prefeitura de Assuntos Econômicos da Santa Sé. Como
um elemento fundamental no tribunal financeiro do
Vaticano, monsenhor Abbo certamente levaria para o
novo cargo uma grande competência financeira.
A inspiração dos primeiros 100 dias do papa João com
toda certeza galvanizara Albino Luciani. As garras do
leão, que seus íntimos esperavam ver reveladas,
apareceram para Villot ao cair da noite de 28 de setembro.
Despretensioso e gentil, Luciani, antes do pontificado,
pareceu muito menor do que o seu 1,75m de altura. Para
5/104
muitos observadores ao longo dos anos, ele deu a
impressão de se fundir com o papel de parede. Seu
comportamento era tão discreto e sereno que, em uma
grande reunião, muitos não notariam a sua presença. Mas
não houve nenhuma dúvida para Villot sobre a presença e
firmeza de Luciani naquele dia. Luciani disse-lhe:
- Há outras mudanças no Istituto per de Opere di
Religione [o Banco do Vaticano] que desejo empreender
imediatamente. Mennini, De Strobel e monsenhor De
Bonis serão afastados. Agora. De Bonis será substituído
por monsenhor Antonetti. Discutirei o preenchimento das
outras duas vagas com monsenhor Abbo. Quero que
todos os nossos vínculos com o grupo do Banco
Ambrosiano sejam cortados, o mais depressa possível. Na
minha opinião, porém, será impossível conseguir isso
com as pessoas que atualmente controlam a situação.
O padre Magee fez-me este comentário:
— Ele sabia o que queria. Era bastante claro e objetivo
em relação ao que queria. E a maneira com que se
empenhava para alcançar seus objetivos era muito
delicada.
A "delicadeza" residia nas explicações oferecidas por
Luciani a Villot. Os dois sabiam que Marcinkus, Mennini,
De Strobel e De Bonis estavam ligados não apenas a
Calvi, mas também a Sindona. O que restava não dito,
mais tarde não teria como ser transmitido de forma
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deturpada.
O cardeal Villot anotou as mudanças sem muitos
comentários. Tomara conhecimento de muitas coisas, ao
longo dos anos. Muitos no Vaticano consideravam-no
ineficaz. Para Villot, no entanto, tratava-se de uma
estratégia que ele deliberadamente adotava: a de olhar
para o outro lado. Era o que se chamava de técnica de
sobrevivência na aldeia do Vaticano.
Luciani passou para o problema de Chicago e sua
conversa com Baggio sobre o ultimato que seria
apresentado ao cardeal John Cody. Villot manifestou sua
aprovação. Como Baggio, ele considerava Cody uma
chaga supurada na Igreja nos Estados Unidos. O fato de o
problema ser finalmente resolvido proporcionava uma
profunda satisfação ao secretário de Estado. Luciani disse
que gostaria que houvesse sondagens, através do núncio
apostólico em Washington, sobre um possível sucessor
para Cody. E comentou:
— Traiu-se a confiança dos fiéis de Chicago. Devemos
cuidar para que aquele que venha a substituir Sua
Eminência tenha a capacidade de conquistar os corações
e as mentes de todos na diocese.
Luciani discutiu a recusa de Baggio em aceitar a Sé de
Veneza. Estava determinado a garantir que Bggio fosse
para onde ele mandasse.
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— Veneza não é um tranqüilo mar de rosas. Precisa de
um homem com a força de Baggio. Eu gostaria que você
conversasse com ele. Diga-lhe que todos devemos fazer
algum sacrifício neste momento. Talvez seja bom
lembrar-lhe de que eu não tinha a menor vontade de
assumir este posto.
Tal argumento teria valor limitado para aquele que
desejou, tão veementemente, tornar-se o sucessor de
Paulo [O autor refere-se ainda a Baggio, que perdeu a
disputa no conclave justamente para Luciani].
Villot decidiu diplomaticamente por não reproduzir tal
recomendação a Baggio.
Luciani, em seguida, informou a Villot de outras
mudanças que planejava fazer. O cardeal Pericle Felici se
tornaria o Vigário de Roma, substituindo o cardeal Ugo
Poletti, que tomaria o lugar de Benelli como arcebispo de
Florença. Benelli se tornaria o secretário de Estado.
Assumiria o cargo de Villot.
Villot analisou as mudanças propostas, que incluíam a sua
própria "renúncia". Estava velho e cansado. Além disso,
achava-se também gravemente doente. Uma doença que
não era atenuada com os dois maços de cigarros que
fumava diariamente. Villot já deixara bem claro, no final
de agosto, que desejava uma aposentadoria antecipada.
Agora, conseguia o que desejava um pouco mais cedo do
que previra. Haveria, é claro, um período de transição;
mas, para todos os efeitos e propósitos, seu poder estava
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acabando.
O fato de Luciani propor substituí-lo por Benelli deve ter
sido particularmente irritante para Villot. Benelli foi, no
passado, o subordinado mais graduado de Villot, e o
relacionamento entre os dois, longe de ser dos mais
felizes.
Villot estudou as anotações que fizera sobre as mudanças
propostas. Albino Luciani, largando as suas próprias
anotações, serviu mais chá para ambos. Villot disse:
— Pensei que estivesse considerando Casaroli para me
substituir.
— E considerei mesmo, por algum tempo. Acho que a
maior parte do seu trabalho é extraordinária, mas
partilho das restrições de Giovanni Benelli a algumas de
suas iniciativas, recentemente, com relação à Europa
Oriental.
Luciani aguardou algum sinal ou palavra de estímulo. O
silêncio prolongou-se. Durante todo o tempo que havia
passado com o papa, Villot jamais abandonara seu
formalismo; sempre havia a máscara, sempre havia a
frieza. Luciani tentara, diretamente e também por
intermédio de Felici e Benelli, injetar um pouco de
cordialidade em suas relações com Villot. Mas persistiu a
frieza profissional que era a característica do cardeal. O
silêncio acabou sendo rompido por Luciani, que
perguntou:
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— E então, Eminência?
— Sua Santidade é o papa. Tem absoluta liberdade para
decidir.
— Sei disso. Mas qual é sua opinião?
Villot deu de ombros.
— Essas decisões agradarão a alguns e deixarão outros
consternados. Há cardeais na Cúria Romana que se
empenharam a fundo por sua eleição e agora se sentirão
traídos. Acharão que as mudanças, as nomeações que
apontou, são contrárias aos desejos do falecido Santo
Padre.
— O falecido Santo Padre por acaso planejava fazer
nomeações vitalícias? Quanto aos cardeais que alegam
terem-se empenhado com afinco por minha eleição, quero
que compreendam uma coisa. Já disse isso muitas vezes;
mas, certamente, preciso continuar a insistir. Não
procurei a eleição para papa. Não queria ser papa. Não
se pode apontar um único cardeal a quem eu tenha
proposto qualquer coisa. Não há ninguém a quem eu
tenha persuadido, por qualquer forma, a votar em mim.
Não era o meu desejo. Não foi minha obra. Há homens
na Cidade do Vaticano que esqueceram seu propósito.
Reduziram este lugar a um mero mercado. É por isso que
estou efetuando as mudanças.
— Dirão que traiu ao papa Paulo.
— Será dito também que traí a João. Traí a Pio. Cada
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um formulará sua própria lista, de acordo com suas
necessidades e conveniências. Minha preocupação é não
trair a Jesus Cristo.
A conversa se prolongou por quase duas horas. Villot se
retirou às 19:30. Voltou ao seu escritório que ficava
próximo, sentou-se a uma escrivaninha e pôs-se a estudar
as mudanças. Depois, abriu uma gaveta e retirou outra
lista. Talvez fosse apenas coincidência. Todo o pessoal
clerical que Luciani estava removendo constava na lista
de supostos maçons divulgada por Pecorelli, o
desencantado membro da P2: Marcinkus, Villot, Poletti,
Baggio, De Bonis. E todos os apontados por Luciani para
substituí-los estavam ausentes daquela lista: Benelli,
Felici, Abbo, Antonetti.
O cardeal ViIlot largou a lista e estudou outro documento
que estava em sua mesa. Era a confirmação final de que o
encontro entre o comitê americano que cuidava do
controle populacional e Albino Luciani seria realizado em
24 de outubro. Um grupo de representantes do governo
dos Estados Unidos, que desejava mudar a avaliação da
Igreja Católica em relação à pílula anticoncepcional, se
encontraria dentro de algumas semanas com um papa que
desejava efetuar a mesma mudança. Villot levantou-se e
deixou os papéis à vista, descuidadamente. O leão
realmente revelara as suas garras.
Assim que terminou a reunião com Villot, às 19:30,
Albino Luciani pediu ao padre Diego Lorenzi para entrar
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em contato com o cardeal Colombo, em Milão. Lorenzi
informou-o, um momento depois, de que Colombo só
estaria disponível às 20:45. Enquanto Lorenzi voltava à
sua mesa de trabalho, o papa recebeu o padre Magee.
Juntos, recitaram a parte final do breviário diário, em
inglês. Quando faltavam 10 minutos para as 20:00,
Luciani sentou-se para jantar, com Magee e Lorenzi.
Absolutamente tranqüilo, apesar da prolongada reunião
com Villot, ele conversou jovialmente, enquanto as irmãs
Vincenza e Assunta serviam o jantar de sopa, vitela,
vagens frescas e saladas. Luciani tomou alguns goles de
água enquanto Lorenzi e Magee bebiam vinho tinto.
Na extremidade da mesa, o padre Lorenzi lembrou-se, de
repente, de que o pontificado de Luciani já ultrapassara o
mais curto da história papal. Estava prestes a fazer um
comentário a respeito quando o papa começou a mexer no
seu relógio novo. Era um presente do secretário de Paulo,
monsenhor Macchi, depois dos comentários curiais de que
o papa não deveria usar um relógio velho e avariado – tal
suscitava uma imagem negativa. E assim se reduzia o
papa à mesma condição de um vendedor de carros de
segunda mão, que precisa tomar cuidado para que sua
calça esteja sempre impecavelmente passada. Na última
vez que Luciani tinha recebido a visita do irmão, Edoardo,
presenteou-o com o relógio velho, dizendo:
— Não é permitido ao papa usar um velho relógio usado
que precisa constantemente de corda. Você se ofenderia
se eu o desse a você?
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Luciani entregou seu relógio novo a Magee, para que
fosse acertado pelo noticiário da televisão. Faltava um
minuto para as 20:00.
Logo depois de um jantar agradável e tranqüilo, o papa foi
para seu gabinete, a fim de examinar as anotações que
usara durante a sua conversa com Villot. Às 20:45,
Lorenzi fez a ligação para o cardeal Colombo, em Milão.
O cardeal recusou-se a conceder-me uma entrevista, mas
outras fontes indicam que eles conversaram sobre as
mudanças que Luciani pretendia efetuar. Claramente, não
havia em Luciani hesitação. O cardeal Colombo recordou
depois, sem fazer outros comentários:
— Ele me falou por bastante tempo, num tom
absolutamente normal, pelo qual não se podia inferir
doença física alguma. Estava cheio de serenidade e
esperança. Sua saudação final foi "reze".
Lorenzi anotou que a conversa telefônica terminou por
volta das 21:15. Luciani examinou, então, o discurso que
pretendia fazer para os jesuítas no sábado, dia 30. Antes,
ele telefonara para o Superior Geral dos Jesuítas, padre
Pedro Arrupe, avisando-o de que diria algumas coisas a
respeito de disciplina. Ressaltou que uma parte do
discurso seria relacionada com as mudanças que acabara
de efetuar.
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Todos com razão se preocupam com os grandes
problemas econômicos e sociais que conturbam a
humanidade e que dizem respeito diretamente à
vida cristã. Ao se encontrar uma solução para
esses problemas, no entanto, há que se distinguir
entre as tarefas dos padres e as dos religiosos
leigos. Os padres devem sempre estimular e
inspirar os leigos a cumprir seus deveres, mas
não devem assumir seu lugar, negligenciando a
sua tarefa específica de evangelização.
Largando o discurso, pegou as anotações sobre as
mudanças drásticas que discutira anteriormente com
Villot. Foi até a porta de seu gabinete, abriu-a e,
deparando-se com o padre Magee e o padre Lorenzi,.
despediu-se, dizendo:
— Buona notte. A domani. Se Dio vuole. (Boa noite, Até
amanhã. Se Deus quiser.)
Faltavam alguns minutos para as 21:30. Albino Luciani
fechou a porta do gabinete. Pronunciara as suas últimas
palavras. Seu cadáver seria encontrado na manhã
seguinte.
As circunstâncias exatas dessa descoberta deixam bem
claro que o Vaticano tentou encobrir. Começou com uma
mentira, depois continuou com uma teia de mentiras.
Mentiram sobre pequenas coisas. Mentiram sobre grandes
coisas. Mas todas as mentiras tinham o mesmo propósito:
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encobrir o fato de que Albino Luciani, Papa João Paulo I,
foi assassinado em algum momento entre 21:30 de 28 de
setembro e 4:30 de 29 de setembro de 1978.
Albino Luciani foi o primeiro papa a morrer sozinho em
mais de um século... Fazia muito mais tempo ainda desde
que um papa fora assassinado.
Cody. Marcinkus. Villot. Calvi. Gelli. Sindona. Pelo
menos um desses homens decidira-se por um curso de
ação, que foi executado no final da noite de 28 de
setembro, ou durante a madrugada do dia seguinte. E tal
advinha da conclusão de que a “solução italiana” tinha de
ser aplicada. O papa devia morrer.
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