Nâo vejo como boa - mas como insidiosa - a decisão da Folha de publicar, no seu aniversário justamente, um punhado de opiniões como "suas".
Isso nos leva ao entendimento de que o jornal quis bancar o bom moço e, adicionalmente, procura dar o "recado" de que o bom é não entrar em polêmicas.
Nada a declarar aqui
O assunto do momento, envolvendo precisamente a imprensa, é a decisão da corte britânica sobre a detenção de David Miranda, cidadão "nosso", ocasião em que ele teve ainda arquivos eletrônicos (em diversos meios) confiscados, durante escala no aeroporto de Heathrow (agosto do ano passado).
A Folha deu a notícia ontem( A 13), mas o texto é pura reportagem A-B-C-D. Editoriais? Nada.
Dá para comparar
No The Guardian, o ocorrido foi a "top story" da seção World (mundo), com mais de 1.600 comentários no site, até agora. Além dessa matéria principal, há diversos outros textos sobre o assunto, e pelo menos um vídeo (com pronunciamento da advogada de Miranda).
Associações Mundiais de Imprensa já agiram
Mas você não sabia de nada. Nem o jornalista Leandro Colon, que assinou a matéria de ontem, na Folha. Ou não teve ele o espaço para fazer sequer menção à carta encaminhada a David Cameron por diversas entidades de jornalismo de âmbito mundial. Elas chegam a pedir que o primeiro-ministro deixe o referido jornal britânico em paz.
O espaço é limitado e há coisas mais importantes?
Foi essa a desculpa que ouvi, diretamente, do editor de "mundo" da Folha, no mês passado. Então questionei esse editor sobre a omissão do jornal quanto à audiência a que foi instado a comparecer o editor executivo do The Guardian, ante o parlamento britânico.
Um dos David é chefe de governo britânico. Mas o outro David é cidadão brasileiro, um homem jovem, carioca, corajoso. No Reino Unido, o perfil passa fácil como "terrorista", com base em preconceito.
Vergonha por vergonha
A vergonha que nos cabe é nossa omissão diante de questões essenciais, justamente no calor do momento, quando elas são questão de vida ou morte.
Uma entidade internacional acabou de condenar o silêncio do Brasil diante do que ocorre na Venezuela. Nenhuma surpresa. Nem quando o caso é conosco há reação que, sem as típicas manobras "criativas", demonstraria que nossos valores seriam, de fato, objetos dignos de bênção universal.
"O que a Folha pensa" chegou a surpreender muitos, certamente. Parece humildade e honestidade gratuitas para os ingênuos que se consideram "críticos". Mas não requer tanta experiência assim a edificação de uma postura de desconfiança perante rompantes daquele gênero.
Gente, olhem! Eu disse aqui o que penso, ok?
A diferença: eu não escrevi deixando de fora - de propósito - aquilo que importa agora.
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"O que a Folha pensa: conheça os principais pontos de vista defendidos pelo jornal" aqui