A Folha de S.Paulo publicou hoje uma matéria muito curta sobre o evento ocorrido ontem no Insper, em São Paulo, que discutiu a criminalidade nas ruas. Essa matéria, 53% já foram vítima de algum crime, diz pesquisa, pode ser acessada por este link:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/135264-53-ja-foram-vitima-de-algum-crime-diz-pesquisa.shtml
O texto da Folha não menciona que o Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, fez pronunciamentos e acompanhou o fórum até o final da primeira sessão. Todo o tempo em que permaneceu no Insper, ele foi incansavelmente vigiado por dois homens de terno, que só podem ser seus seguranças. O mais novo, notamos também, tinha um porte legal. (desculpem o trocadilho; não falamos de porte de armas, entende?)
A Folha leva a conclusão de que apenas o Insper estava envolvido, mas o fórum foi composto por professores de diversas outras instituições, das mais importantes do país.
Nosso relato sobre o evento é bem mais completo. Além disso, como de costume, somos exemplo de um jornalismo que vem sendo chamado de literário, porque nosso texto não se assemelha a um boletim de ocorrência, mas é um artigo bem redigido, o que inclui análise crítica.
Ao lê-lo, você vai descobrir o quanto mais a Folha deixou de fora - e não pode ter sido sob a alegação de que "não era importante".
Aqui está:
DEUS NÃO ASSOPRARIA OS DADOS: DISCUTINDO VIOLÊNCIA
NA ACADEMIA
O que: FÓRUM SOBRE A TERCEIRA PESQUISA DE VITIMIZAÇÃO NA CIDADE DE SÃO PAULO
Onde e quando: INSPER, 22 OUTUBRO DE 2013
Vips: PRONUNCIAMENTOS, NA PRIMEIRA SESSÃO, DO SECRETÁRIO DE SEGURANÇA PÚBLICA DE SÃO PAULO, FERNANDO GRELLA. ELE DEIXOU O FÓRUM APÓS ESSA SESSÃO.
HÁ DIAS DIVULGOU-SE QUE SÃO PAULO É A SEGUNDA CIDADE MAIS HONESTA, CONSIDERANDO UM GRUPO PEQUENO, MAS RECONHECIDAMENTE SELETO, DE CAPITAIS EM TODO O MUNDO. AGORA, O QUESITO É A SEGURANÇA PÚBLICA. ESSES ESFORÇOS SÃO PARA ESTRANGEIRO VER?
A PESQUISA DE VITIMIZAÇÃO DE QUE FALAREMOS AQUI PODE TER UM PÉ NA PRÓXIMA COPA. CONTUDO, ELA NÃO É TOTALMENTE NOVA. FOI APRESENTADA COMO UMA TERCEIRA EDIÇÃO, RESPEITANDO UMA REGULARIDADE QUINQUENAL. A METODOLOGIA TERIA SIDO MANTIDA NAS TRÊS VERSÕES (2003,2008,2013), MAS O NÚMERO DE RESPONDENTES FOI BEM MENOR AGORA – CAIU DE 5.000 PARA 3.000.
SEM DRIBLES NOTÁVEIS, O PALESTRANTE JUSTIFICOU O PRIMEIRO NÚMERO (5.000) COMO ALGO MUITO ALÉM DO RAZOÁVEL. SENTIU QUE ERA MAIS SAGAZ CONVENCER DO NÚMERO QUE FOI REDUZIDO, DO QUE MOSTRAR REMORSO QUANTO AO ALEGADO EXAGERO DO PRIMEIRO. COISAS SUBJETIVAS DE UMA PESQUISA CLASSIFICADA COMO PRIMOROSAMENTE ACADÊMICA. ACONTECE.
TALVEZ A DIFERENÇA MAIS SIGNIFICATIVA SEJA ESTA: A FAPESP FINANCIOU INTEGRALMENTE ESTA TERCEIRA RODADA DA PESQUISA, NÃO TENDO TAL INSTITUIÇÃO CONTRIBUÍDO PARA AS OUTRAS DUAS.
NESTA MANHÃ, 22 DE OUTUBRO, UMA DAS SALAS DE INSPIRAÇÃO “PRIMEIRO MUNDO”, NO SEGUNDO ANDAR DO INSPER, TRANSFORMA-SE, ASSIM, NUM HOT SPOT, NÃO DE CRIMINALIDADE, MAS DE AVALIAÇÃO E DISCUSSÃO SOBRE O CRIME DE RUA EM SEU LADO DURO, MAIS TANGÍVEL: NÚMERO DE PESSOAS AUTODECLARADAS VÍTIMAS, OCORRÊNCIAS POR TIPO DE CRIME, ETC.
BEM MENOS SE FALA ALI SOBRE AS PERCEPÇÕES SUBJETIVAS DA POPULAÇÃO, QUÃO SEGURA OU INSEGURA ELA SE SENTE E OUTROS ASPECTOS MENOS TANGÍVEIS.
Essa inclinação – que trai a própria ideia leiga de “vitimização” - parece facilmente explicável. Estatísticas de ocorrências decrescentes de roubos e furtos devem ter seduzido os pesquisadores e debatedores sob a influência da presença do principal gestor da segurança pública da megacidade paulista, sr. Fernando Grella. Sem surpresas: pesquisadores acadêmicos, quem duvida, são humanos.
Já afirmar que criminosos são humanos não é natural. Quem ousa dizer que isso é óbvio? Um dos palestrantes não evitou a platitude: “Sempre haverá crimes, em qualquer sociedade”. Ninguém arriscou proposições sobre o crime como a manifestação do humano fora de controle; do humano que ameaça, sobretudo, porque nós, cidadãos, ainda não o encaramos com postura científica, racional. Por isso, não há previsão, em nosso país, para o criminoso como humano entrar nos debates, nem para comunidades, no Brasil, deixarem de apoiar a existência do PCC: “Antes morria qualquer um, onde eu moro; agora só quem faz besteria morre. O PCC é ótimo”, ouço de um homem jovem, garçom, poucas horas após o evento.
Na abertura do encontro, declara-se que o crime gera tragédias pessoais, além de prejuízos materiais. Mais tarde, um palestrante afirma que o roubo é o crime que, “sem dúvida”, mais abala a população, sua confiança. Homicídios, então, até parece não pertencer à categoria de crime. Quase ao final do evento, o secretário de segurança pública já ausente, é que outro participante, no papel de moderador, jocosamente aponta que não se tinha falado de homicídios.
O que aumentou foi o número de crimes eletrônicos, outro palestrante aponta. Uma sentença que alivia. Não se vê o criminoso nesse caso. E, como em sonho bom, subitamente migramos para outro mundo, mais civilizado, digamos assim.
Pouco depois, outro professor toma a frente para ser o único a pincelar fatores, associados à vitimização, que, estes sim, afetam o bem-estar, a qualidade de vida e mesmo as pequenas decisões e outros componentes da rotina de uma pessoa.
Vejamos: trinta por cento, na cidade de São Paulo, declararam já ter sonhado com violência, segundo essa outra pesquisa, que não é a pesquisa vangloriada, aquela em sua terceira versão. Prosseguindo, a mesma proporção de trinta por cento afirmou já ter acordado no meio da noite, apreensiva com algum aspecto da violência.
Revela-se, mais tarde, que “onde as pessoas têm medo é onde está a maior incidência de crimes”. Embora não se tenha feito isso durante o encontro, bastaria voltar a um dos primeiros palestrantes, cujos dados mostravam, paralelamente aos dados da pesquisa “mor”, que São Paulo ostenta quatro vezes mais roubos e furtos do que Roma ou Paris. Conjuntamente, esses dados servem de evidência de que os pesadelos com violência e as interrupções do sono não estão dissociados da realidade de violência.
Protestos andam também perturbando o sono de São Paulo? O fórum não trouxe dados sobre a violência em torno deles. Um sucinto “não cabe violência contra os manifestantes” fez parte do discurso do sr. Grella, pouco antes de ele deixar o encontro.
Várias pesquisas, frisamos, eram trazidas ao fórum, à medida que professores participavam dos painéis do encontro, representando instituições como PUC-Rio, UFMG, FGV, USP. Apenas um dos primeiros palestrantes, do quadro do Insper, se ateve à pesquisa que distinguimos como "mor", a que mereceu a atenção do secretário de segurança pública, a pesquisa cujo financiamento pela FAPESP foi antes ressaltado. Isso não significa, porém, que a FAPESP não esteja por atrás das demais pesquisas “secundárias”, nesse evento, meramente sob o critério político, digamos assim. Acontece.
Consegui anotar mais alguns resultados daquela pesquisa “mor”: 40% dos entrevistados já sofreram algum tipo de estelionato. Dezoito por cento já foram ameaçados com arma de fogo. Um terço já foi roubado ou furtado. Mas apenas um terço dos roubos é reportado à polícia. As principais razões para a subnotificação: medo de represália e convicção de que “nada adianta” dar queixa.
Não foram apresentados dados relativos a uma avaliação direta da polícia – quer civil, quer militar – por parte dos respondentes da pesquisa “mor” ou de quaisquer das demais apresentadas. Tampouco foram mostrados dados não subjetivos, relativos ao desempenho dessas polícias. Um dos palestrantes declarou ser impossível apurar o resultado de inquéritos policiais, nem mesmo verificar se os inquéritos chegaram a algum resultado ou não. O secretário de segurança pública já tinha deixado o fórum.
O sr. Grella também perdeu os pronunciamentos que ressaltaram outros dois aspectos da atuação policial: que a falta de integração da polícia civil e militar “atrapalha muito” e que há a necessidade de se trabalhar para que, por fim, a atuação da polícia transcorra como um “ciclo completo”.
No momento em que aquele palestrante apontou a falta de meios de apurar a efetividade da polícia, foi como se ele estivesse falando sozinho; ninguém adentrou a cena para argumentar ou perguntar. Mais tarde, bem perto do final do encontro, como que num insight, o ponto ressurgiu, sob a denominação de “accountability”, o que significa prestar contas. Um dos professores veementemente apontou então: “As polícias (no Brasil) são as instituições em que há menos accountability. Não se presta conta de nada”. A atmosfera agora era quase de alvoroço.
Para esse estado de ânimo geral, havia contribuído outro ponto, trazido à tona por outro palestrante alocado na última sessão daquele fórum: um projeto de lei, aprovado pelo Senado, que deve emperrar porque, defende o moderador, “o lobby dos delegados não vai deixar passar”. Vários professores falam ao mesmo tempo. Alguns deles abertamente concordam sobre uma certa postura negativa dos delegados de polícia, tomados de forma generalizada.
Por causa da exiguidade de tempo, as apresentações não permitiram conhecer o bastante, para comentar, a metodologia das demais pesquisas que alimentaram o fórum. Quanto à pesquisa estrela do encontro, ela não coleta dados junto a especialistas. Não seria enriquecedor fazê-lo? Outro participante gabou-se de a metodologia da pesquisa seguir a de um levantamento conduzido nos Estados Unidos. Tive a impressão de que “Estados Unidos” referenda, para alguns, toda e qualquer metodologia.
A questão metodológica leva-nos a uma das mais importantes conclusões a partir desse encontro: pontos dos mais relevantes para nossa realidade, aflorados ali nos debates, permanecem fora do caro levantamento financiado pela FAPESP, ou seja, com recursos públicos.
Outra conclusão: nas pesquisas acadêmicas mais prestigiadas persiste a subserviência ao “mais simples e de maior impacto” para fins políticos de curtíssimo prazo. Quando da apresentação dos resultados da pesquisa “mor”, na única sessão do fórum acompanhada pelo secretário de segurança pública de São Paulo, foram privilegiados os dados que sugeriam diminuição de ocorrências em certas categorias de crimes, enquanto eram omitidos dados de outros crimes, restando desprezadas informações relativas aos sentimentos, ou respostas afetivas (possivelmente aflitivas), dos respondentes. Seria possível compensar esses crimes?
Talvez não caiba falar em compensação nesse fórum. Mas vemos que aquela subserviência não impediu a participação autônoma de outro participante, que em tom confiante e desprendido (o secretário de segurança já tinha saído), fez patente para a plateia a “impossibilidade” de avaliar, no nosso estado de coisas, os resultados – se algum - dos inquéritos policiais, apontando ele, ainda, a falta de dados de inquéritos policiais que possam ser cruzados com os tipos de ocorrências criminais.
Dado o calor do debate quando o final dele se aproxima, pergunto-me sobre o que teria estimulado os professores a então compor um autêntico grupo de discussão. Um deles adiciona outro fator, afirmando que, por vezes, a própria delegacia deixa de fazer o registro de ocorrências, quando tal comprometeria a estatística de desempenho da corporação. Mais uma estatística para estrangeiro ver, digamos assim.
Diante da guinada da discussão, em função da mudança no envolvimento dos participantes - possível fonte de constrangimento para alguns, por demonstrar que debate acadêmico não é uma quimérica “viagem” -, como deveríamos receber, passado o afã de lisonjear autoridades, aquela custosa pesquisa em sua terceira edição?
O encontro no Insper mostrou que a referida pesquisa, sob os holofotes, serve para defender que os roubos e furtos diminuíram na cidade de São Paulo. O portentoso levantamento contradiz o que, recentemente, publicaram os grandes jornais sobre a ocorrência de tais crimes naquela cidade.
Ficando o uso da pesquisa limitado a ajudar a criar um sentimento geral de que apito de juiz de futebol intimida bandido, mesmo a redução de 5.000 para 3.000 unidades no tamanho da amostra (e, portanto, a grande diminuição dos custos da pesquisa) não permite que afirmemos que a aclamada enquete em foco tem um porte legal. Que esse trocadilho, entretanto, passadas algumas copas do mundo, seja um dos raros crimes a se manter avesso a conserto, é algo crível.
Isso porque é inegável a qualidade esmerada daquela porção mais oxigenada, digamos assim, do encontro acadêmico ocorrido no Insper. Eles são cada vez mais frequentes neste país, crescendo também em alcance.
Sem desmerecer a noite de sono dos demais municípios, precisamos sonhar diferente. Deveria entrar para nossos sonhos de megalópole um indicador, uma estatística de que, como sociedade emergente, “prosperamos”. Mas não poderá ser um indício qualquer. Não seria sonhar alto cobiçar um levantamento Fifônico - contanto que ele se mantivesse acadêmico em qualquer fórum -, apontando que, enfim, tanto a atuação da polícia quanto o sono do paulistano perfazem constantemente um ciclo completo: a polícia como causa; o sono, como consequência.