Afirmar que o Sermão da Montanha é o texto mais importante do Evangelho gera dissonância semelhante a declarar que este attitude book é mais relevante que o facebook. Sendo assim, quem ousou alçar tal sermão a posição que nem a própria Igreja Católica a ele confere?
key words: J.R. Guzzo, Sermão da Montanha, crítica à coluna publicada em Veja
O autor da audácia foi J.R. Guzzo, colunista para Veja. Na última página do número da semana, encontra-se seu ensaio "Pensamentos simples", título que sugere que o autor almeja também ser reconhecido como humilde, o que passou a qualidade mais prestigiada nestes tempos de protestos de rua - violentos ou contundentemente não humildes. Paradoxos que, montanha acima ou abaixo, não espantam.
O "Sermão da Montanha" instila humildade como, provavelmente, nenhum outro trecho inserido na colcha de retalhos que perfaz os evangelhos cristãos. É pregação para avançados, que os reles seres não valorizam justamente porque não veem como possível seguir tais preceitos. Não seria elevando o "Sermão da Montanha" a texto mais importante que a Igreja Católica conseguiria atrair fieis, portanto.
Se o pontífice (papa) é humilde, aí é outra coisa. Ele tem a obrigação, pela ótica das massas, de ser uma espécie de sombra de Jesus. Mas não exijam isso das simples ovelhas.
Além disso, pode ser considerada heresia a declaração que coloca outro trecho bíblico à frente da Paixão e Ressurreição. Foi com essa composição que o catolicismo se consagrou de vez, aliada à doutrina da transubstanciação (o pão que vira corpo e o vinho que vira sangue). Isso é ainda mais improvável que aderir de fato ao Sermão da Montanha. Mas tal esquisitice do corpo e sangue não confronta o indivíduo em sua humanidade (ou na falta dela). O "Sermão da Montanha" - em si e no tom em que ele é proclamado no Evangelho - é confrontação da mais perturbadora. Coisa que só uns poucos associam com Jesus - uns poucos considerados hereges.
J.R. Guzzo, a quem admiro como pensador sofisticado (não humilde), oferece recomendação para a Igreja Católica que, apesar de fazer sentido para muitos, não condiz com conhecimento da milenar instituição. "A Igreja Católica deveria aceitar como cristão toda pessoa que viva com decência..." é afirmação tremendamente ingênua, para não dizer tola. O que determina a adesão à Igreja de Roma é o batismo e o "seguir Cristo", ou seja, aceitar as composições que o catolicismo estabeleceu como fundamentais para a figura do Filho de Deus. O "Sermão da Montanha" pode passar plenamente despercebido.