Wednesday, May 29, 2013

Tia de ANGELINA JOLIE acaba de morrer também de câncer. E agora, Mariangela?

OK! Vamos reabrir a questão!

Como de costume, ando em patrulha pelo campo, ou seja, ouvindo as pessoas por aí, nas cozinhas dos restaurantes (até aí!), nos transportes públicos... Não fico só escrevendo. 

Uma fã de Angelina me confrontou assim: "O que você teria feito"? 

Tal fã, ainda, alegou que a atriz, se não tivesse publicado a tal carta no jornal, seria chamada de "coitadinha" por todo o mundo. Concordei, prontamente: "A carta é justamente isto: parte central de uma estratégia para manter a imagem dela", rebati.
Isso não agradou aquela fã. Então, ela perguntou o que eu faria. 

Para responder, é preciso considerar a questão com a devida inteligência. Angelina fez várias coisas no que está embrulhado como sua "decisão" ou "escolha".

Primeira: a extirpação das duas mamas plenamente saudáveis, e com apenas 36 anos. 37? Ok.
Eu faria isso? A resposta é não. Não removeria minhas duas mamas SAUDÁVEIS, muito menos ainda tão jovem. Não importa se eu já tivesse vinte filhos e não fosse ter mais nenhum. A resposta SENSATA é não.

Mesmc com a família inteira morrendo de câncer? Sim. Eu não faria a mastectomia "preventiva", mesmo se eu parecesse a "óbvia" próxima da lista. 

Lembro muito bem ainda hoje da consulta em que o pediatra de minha filha mais velha disparou: "Ela (minha filha) vai ser como você. E você vai ser como sua mãe".
Eu disparei: Como minha mãe, não!
Eu tinha apenas 20 anos. Mas já era um espanto de maturidade. Ciente disso, o pediatra quis saber por que eu reagira daquela forma.
Minha mãe me colocou no mundo quando contava 22 anos. Portanto, era uma avó jovem quando a primeira neta nasceu. Mas estava acabada, especialmente na minha avaliação. Eu não queria estar assim com a idade dela. E tornei isso uma realidade. Aos quarenta, as pessoas me davam 25 anos. Legal, né?
Mas não esqueçamos que o ponto prinicipal aqui é a questão genética. 

Eu não fiquei como minha mãe. O pediatra errou feio. Minha filha não é como eu. Especialmente, perguntam a mim,  com muita frequência, se minha prole é como eu, ao constatarem minha inteligência e meu entusiasmo pelos estudos. Eu respondo: Não, ninguém da família é assim como eu.
E então? 

E então vem o que a indústria genética e a farmaceutica, entre outras afins, não querem que se diga, pense e demonstre: a herança genética não é líquida e certa como a herança de uma conta bancária ou uma propriedade. Transferiu, sacou; ou vendeu. 

Eu faria acompanhamento médico, sim, sem obsessão. A obsessão  - e outras emoções negativas - é o que faz o risco disparar feito foguete. E isso até já foi publicado em 2002, na popular revista Superinteressante.Eis o trecho:

Além dos cuidados físicos, a mulher também deve prestar atenção nas próprias emoções. Está cada vez mais evidente que o câncer de mama tem um componente psicológico bastante forte, presente tanto na facilitação do aparecimento do tumor quanto na resposta ao tratamento. “As emoções têm ligação direta com o sistema imunológico”, diz a psicóloga Marisa Campio Müller, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre. “Estudos mostram que a persistência de sentimentos negativos, como depressão, angústia e melancolia, podem baixar as defesas naturais do corpo, propiciando que células malignas já existentes se desenvolvam.” (Câncer de mama, a caminho da vitória, maio 2002)

A sequência dos fatos recentes da família de Angelina dá mesmo o que pensar. Pensar. Parece coisa orquestrada. "Dá vendo como ela fez bem! Agora morreu a tia"!
É isso que eu de fato ouvi ontem, de um homem visivelmente pouco "estudado", que se orgulha de acessar a internet como a primeira providência de seu dia.
 
Como segurar a boiada, o estouro do vulgo ser humano mediano, que tem a maior pre-gui-ça de pensar? Não dá, né? A gente fica aqui, véspera de feriadão, escrevendo fácil, bem fácil, fácil até demais!, para a galera toda entender. Mas o que pesa, no fim, é o nome Angelina: o fanatismo, o apego à uma identidade célebre

Angelina só fala da probabilidade de ter câncer. É preciso avaliar as probabilidades dos riscos dos possíveis cursos de ação, a partir de se aceitar o "alto risco" de ter câncer.
Explicando: quando Angelina declara que seus médicos estimaram que ela tinha 87% de risco ter câncer de mama, faltou declarar também qual seria a probablidade de cada evento seguinte. Ou seja, qual o risco da mastectomia? Qual o risco de rejeição das próteses (e ficar sem o "muito bonito" da carta da atriz). Angelina é marota em sua carta (intitulada "Minha escolha médica") ao omitir todos esses riscos.  Mas ela deixa escapar, no quinto parágrafo do seu texto, que a cirurgia completa nos seios era "mais complexa" do que a de remoção dos ovários (que tampouco é simples).

Então, vamos ao que mais eu NÃO faria como Angelina. Eu já disse que não faria a mastectomia. Mas, para abordar agora o outro passo da atriz - o de publicar sua "escolha" depois de tudo pronto e acabo -, vamos supor que eu tenha feito a cirurgia.

Se eu tivesse feito a cirurgia, eu ficaria quieta ou eu contaria?
Aí entra a assessoria de marketing. Claro que Angelina não decide isso sozinha. Gente do céu! Uma mulher que basta espirrar e todos observam com a maior atenção não é dona de sua vida! A menos que não ligue para a perda de seu status de deusa, uma pessoa tão poderosa é guiada por uma baita assessoria de imagem. Como a Dilma. Tanto a presidente, como a atriz amam demais os holofotes e a estatura estratosférica da qual sobrevoam todos nós, estes mortais sem graça, idiotas, influenciáveis feito ratos em gaiolas (ou até mais que os ratos...)

Ok. Vou responder mais "na lata". Se eu fosse Angelina-deusa, com minha assessoria implacável... sim, eu teria de contar. Aí é que eu não teria escolha alguma! Mas, então, temos outra questão. Eu seria uma Angelina com a inteligência que eu, Mari, tenho?

Não estou chamando Angelina de burra. Estou querendo chegar no ponto de demonstrar que a assesoria dela não é tão boa! Isso! A carta publicada no The New York Times poderia ter sido muito mais bem redigida! (Será que Angelina vai me contratar ao saber disso?? Bem, talvez, se ela viesse a ler a versão disso em inglês, o que, contudo, não é... provável!)

POR QUE A CARTA DE "ANGELINA" (na verdade, da assessoria dela) NÃO É BOA?
Voltando ao fio da meada, se eu fosse Angelina COM a minha inteligência... sim, eu contaria. MAS não contaria do jeito que saiu no The New York Times. Em que a carta está ruim? Vejamos.

Vamos parágrafo por parágrafo, ok?
O primeiro parágrafo é meloso demais. Eu enxugaria o melodrama. Não colocaria as crianças na frente, logo de cara. Falar que minha mãe morreu de câncer etc. está ok.

O segundo parágrafo. Não gosto da afirmação de que ela mente para as crianças: "Não se preocupem". Não tem a "cara" de uma deusa tão "empoderada". Desse parágrafo, eu aproveitaria a alusão ao gene etc e tal, que, aliás, já é objeto daquela matéria da Superinteressante de 2002, que mencionei. 

Recapitulando, antes de prosseguir, o tom seria bem objetivo: morte da mãe, meu gene esquisito. Nada de crianças e melodrama.

Terceiro parágrafo. Este é um parágrafo terrível, que começa a "entregar" a malandragem, a má intenção da carta, para quem é inteligente e bastante atento. Angelina afirma que seus médicos deram tais e tais probabilidades, "embora o risco seja diferente no caso de cada mulher".  Isso está um tanto truncado. O que esse "embora" deixa escapar? Que Angelina quer ressaltar seus altos riscos, mas já ensaia uma observação, que não é feita com toda a clareza. 

Essa hesitação fica mais evidente com mais deslizes semelhantes, em outros parágrafos, que ainda analisaremos. Sem dúvida, o "embora" abre uma brecha, ou não fecha bem o buraco. E é aí que a inteligência faz toda a diferença. Quer ver? É a inteligência que me permite ler que, com o "embora", Angelina quis dizer que, teoricamente, os riscos são aqueles, dado o gene e o histórico familiar, mas que isso NÃO é um número certo como o número do sapato - é 37 e pronto. O génetico não é mesmo imperioso, pois...  Isso está lá na revista Superinteressante também!; há o estilo de vida, as emoções, etc, etc, etc. 

Portanto, eu elaboraria um terceiro parágrafo honesto, sem ambiguidades.

Quarto parágrafo. Angelina tenta "melhorar" o terceiro parágrafo, falando em "média" de 65% (O QUE NÃO É 87%, pois!) de risco de ter câncer em quem tem o tal gene defeituoso. O parágrafo, porém, começa com outra coisa vaga: "Só uma fração de cânceres de mama resultam de uma mutação genética herdada".  Que fração é essa? Ela não diz. É aí que se pega a maldade, a intenção de mascarar, de esconder algo que é fundamental se você declara, com tanta ênfase como Angelina, que está querendo alertar e informar outras mulheres. 

Também nessa questão, os próximos parágrafos deixarão esse truque mais evidente ainda. Isso porque, já adianto, Angelina passará a frisar a importância do teste genético. Dizer que fração era aquela estragaria a "festa", ou seja, a propaganda do tal teste. Aquela fração é irrisória. No máximo, segundo médicos entrevistados em reportagens do The New York Times e da nosa revista ÉPOCA, a "fração" é 10 (dez) por cento. Bem mastigado: não mais do que dez por cento dos cânceres resultam da tal mutação, ou gene defeituoso. Chato. Chato porque Angelina não revela os 10%. Repetindo: ela deixa o conteúdo vago, escrevendo: "Apenas uma fração...", sem revelar que essa fração é de, no máximo, 10%. Depois, oferece a estatística de 65%, e os que "achavam a escola um tédio" (quase todos os brasileiros) acham que a tal fração é 65%! 

Puxa, Mari! Como assim? Como temos 10% e 65%?

Ok. A explicação não é díficil. Vamos supor que você, médico ou médica, está acompanhando casos de câncer de mama há anos, e verifica que, para cada mil casos, no máximo cem vêm acompanhados da presença do tal gene defeituoso. Ou seja, parece (nenhum pesquisador tem como acompanhar todos os casos, só uma pequena parte deles!) que a incidência de câncer associada com o defeito é de 10%. (cem em cada mil). Mas, atenção, são 10% DO TOTAL DE CÂNCERES, não do total da população! 

Aproveitando os dados daquela matéria da Superinteressante, antes mencionada, temos cerca de 31.500 casos novos de câncer de mama por ano, no Brasil. Considerando a estatística de 10% (máximo, entre mulheres brancas nos EUA) como também válida para a etnia brasileira, podemos estimar cerca de 3.150 casos novos/ano, associados com a mutação genética.

Então você deve perguntar: que percentagem, considerando as mulheres brasileiras, corresponde a esses 3.150 casos? Simples. Quantas mulheres há no Brasil, acima de 35 anos? Temos cerca de 40% de pessoas (ambos os sexos) com mais de 35 anos. Partindo ao meio (metade homens, metade mulheres), 20% são mulheres. Portanto, de uma população total, no Brasil, de 200 milhões, arredondando, temos que 20% correspondem a ... 40 milhões. Por fim, a relação de 3.150 (casos de câncer de mama junto com defeito genético) para 40 milhões... dá 0,01%, aumentando os casos de câncer associado com o defeito para 4.000 e deixar a conta fácil de conferir até a mão. 

Está mais claro agora? É muito fácil mentir, enganar com a estatística, pois muitos não aproveitam bem os tempos de escola. Uma coisa é comparar "câncer de mana com defeito genético" com "total de cânceres de mama". Outra coisa é comparar "câncer de mama com defeito genético" com total de mulheres (homens também podem ter câncer de mama).

No meu cálculo, não considerei que, dentre os 40 milhões de mulheres, há as que ficaram com câncer em anos anteriores e ainda estão vivas. Mas também há as que morreram. Presumo que uma coisa compense a outra. 

Esses cálculos, embora aproximações, servem para mostram que há clara intenção de mostrar os dados estatísticos mais "gordos". Se supormos que erramos pra burro, nem assim chegaríamos a 1%. Lembre também que trabalhamos com 10%, quando a percentagem pode ser de apenas 5%, segundo os artigos recentes, que mencionamos. 

Em síntese, leitores, temos mais ou menos isto, no Brasil: jogando muito para cima, teríamos cerca de 3.000 casos novos de câncer de mama, no ano, em mulheres com o defeito genético. Outras 28.000 (cerca de nove vezes mais) adoecem, no ano,no Brasil, apesar de não terem o defeito. E quantas têm o defeito, considerando o total de mulheres? Aí é que está o truque. Isso não é revelado. Não há, quase certamente, como saber isso ainda, porque o procedimento é feito, nos EUA, só por uma empresa. E ela, claro, esconde os dados, e mostra outros, conforme seus interesses econômicos.

Mas quantas são as pessoas com defeitos genéticos de outro tipo? São muito poucas, não? Se mesmo entre essa raridade, segundo a própria Angelina, não é certo ter o câncer ("65% na média"), temos raridade mais ou menos dividida por dois. E isso deve ser um aproximação muito para cima porque, quase certamente, os 65% estão inflados também.

Ok, Mari. Agora entendi os 10%. E os 0,01% que ninguém menciona... Mas de onde vieram aqueles 65% ?

Segundo Angelina, essa é a probabilidade "média" de risco de ter câncer de mama, considerando o universo de mulheres com aquele defeito genético específico. Mas, como não nos revelam qual é a estimativa de mulheres com tal defeito, o " 65%" é um número malandro duas vezes. Isso porque, se revelassem tal estimativa, (1) facilmente calcularíamos, como fizemos acima, quantas mulheres, nos EUA, por exemplo, devem ter o tal defeito - seria, podemos deduzir, um número baixo, muito baixo. E, (2) ao calcularmos 65% de um múmero baixo, encontrando um número bem mais baixo ainda, o lero-lero de Angelina iria "farsa abaixo".

Observando que a mãe e a tia de Angelina adoeceram estando na faixa de 45 a 54 anos, temos, para o Brasil, cerca de 12% de pessoas. Mulheres, cerca de 6%, portanto. 

Se TODAS essas mulheres adoecem de câncer de mama, ao mesmo tempo, teríamos 6% de 100 milhões, ou seja, 6 milhões de casos. Mas o número total anual de novos casos verificados é de, aproximadamente, 30 mil. Isso equivale a 0,5%. O que é alto! Mas, a fração desses cânceres que, médicos estimam, sejam causados pelo tal defeito é de, no máximo, 10%. Ou seja, 3 mil ou 0,05%.

Veja que esse percentual é cinco vezes maior do que nosso 0,01% do primeiro cálculo. Isso porque, agora, não consideramos "mulheres acima de 35 anos", mas apenas o grupo entre 45-54 anos, o que seria o de maior risco. Reparem que, ainda assim, não atingimos 1%. Em outras palavras, mesmo que todas as mulheres que adoecem de câncer de mama num ano, no Brasil, tivessem o tal defeito genético (e não apenas 10%, como estimado pelos médicos) e estivessem todas elas na faixa de maior risco (45-54 anos), o percentual seria de 0,5%.

Há mais uma coisa ardilosa por trás desse "faça o teste e tire os seios". Se as mulheres passarem a PREVENIR, tirando os seios, após fazerem o teste - que pode ser muito facilmente manipulado (ora, como você, leitora, pode conferir se tem mesmo o tal defeito? Não há concorrência na oferta do teste.) - como vamos ter dados para, no futuro, finalmente sabermos quantos casos de câncer aparecem para quem têm o defeito?  Não vai dar! Ninguém ficará doente, o que é ótimo... mas jamais saberemos se ficaríamos mesmo doentes! 

Repetindo de novo! Não vi reportagem que diga qual o percentual estimado de portadores do tal gene defeituoso em relação ao total de uma população. Se revelarem que o percentual é de 0,001% - o que é bem pláusivél -, ninguém verá  urgência em fazer o teste, a não ser os menos maduros e espiritualizados, traumatizados pela morte de parentes próximos. E então, 0,001% torna-se um praticamente zero mesmo, uma raridade, e o mundo descobriria que Angelina fez a mágica de deixar o mundo de cabelos em pé, já poupando para fazer o teste. E as cirurgias.

Puro jogo. Jogam com o medo. Apostam na doença. E ficam loucamente ricos.
 
O que o resto da carta de Angelina faz é trabalhar com esse vácuo, essa ausência de oferta de dados sobre a incidência do defeito na população. Então, faça o teste!, clama Angelina, com toda a enrolação possível, e bem observável para os inteligentes e atentos. 

Agora você, leitora, está apta a ler por si o restante da carta e confirmar que Angelina passa a frisar que o teste é importante. E que a decisão de extirpar as mamas uma "solução forte", como traduziu a Folha de S.Paulo.

Vou, antes de finalizar, apontar mais um tremendo equívoco na carta.
Angelina teve três filhos biológicos! Pois é. E isso é um dado que deveria ser considerado, antes de se fazer tanto alarde. Ela está expondo a genética dos filhos, incitando especulações sobre se eles também teriam herdado o "defeito". Claro que isso ela nem insinua, pois seria processada na certa, por um promotor de justiça. Mas, eticamente, já é terrivelmente reprovável.

Imagine você, leitor ou leitora, ouvindo sua mãe jogando no ventilador que há um gene defeituoso que vem passando há gerações na família. Que ela, sua mãe, também tem... Você está fichado na internet inteira, graças a brutal celebridade dela. 

É isso, então. Fique com a Paz neste feriadão católico. Seja qual for sua fé, cultive a inteligência, a razão, que é uma tremenda fonte de paz.
Mari

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